Índia: Por Que Este País é Transformador

Em meio ao caos urbano e a muitos desafios sociais, esse país nos aponta muitas ferramentas para o autoconhecimento e para a espiritualidade
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16.12.2020

A Índia ocupa nosso imaginário com suas belas entidades, tecidos e temperos coloridos.  Templos, olhares e sorrisos marcantes. Altares, rezas e rios. Toda essa espiritualidade e mistério realmente estão lá. Mas o país também traz no pacote buzinas, vacas se misturando a bicicletas e carros no trânsito, o Ganges poluído, a falta de saneamento básico e cerca de 60% da população abaixo da linha da pobreza (no Brasil, o índice é de 25%) e um crescente aumento
de casos de violência contra as mulheres.

Afinal, em meio a toda essa dualidade, o que torna a Índia tão singular e por quê? YAM conversou com pessoas que tiveram suas vidas transformadas no encontro com esse país fascinante e traz suas histórias para inspirar quem deseja visitá-lo ou se aproximar dos seus mistérios.

Furando a Índia idealizada

“Acontece com muita gente: ir para a Índia com aquela imagem de tranquilidade, incenso, yoga e chegar em um lugar muito caótico e sujo”. O relato franco é da terapeuta ayurveda e doula Maíra Duarte, que visitou cinco vezes o país, em uma jornada de aprendizado sobre a medicina tradicional indiana.

“São muitas coisas misturadas num país só. Tem a espiritualidade, mas também tem uma certa malandragem. Tem a beleza das cores, da natureza. Mas tem muita sujeira… Coisas que me mostraram que a Índia é um lugar muito rico no sentido de ter de tudo. Mas não que eu ache que tudo o que tem é bom. A medicina que eles estudam é o que mais me fascina”, observa.

Sua primeira viagem para Nova Délhi foi particularmente difícil. O ano era 2007 e a ayurveda não era tão conhecida no Ocidente. Em meio aos estudos em uma universidade recém criada na periferia da capital, Maíra se deparou com pratos extremamente picantes, falta de banheiro e muitos ratos. “Eu estava desmamando meu filho há um mês. Mas ele voltou a mamar de tão forte que era o tempero da comida. E não adiantava pedir sem pimenta”, conta. 

Um olhar para o simples e para a capacidade de se adaptar

Aos poucos, ela entendeu que era preciso ter o próprio fogareiro para cozinhar. E passou a comprar um kit de produtos de limpeza para deixar o quarto do jeito que ela gosta. Saber que não conseguiria mudar de imediato a desigualdade social do país também ajudou. “A Índia me trouxe um olhar para o simples e um grande poder de adaptabilidade. Me ensinou que tem gente precisando do básico, o que deixou mais claro que o básico é o mais importante na vida”, diz.

Por meio do contato com a miséria, Maíra estimulou os filhos a reconhecerem seus privilégios e a lutarem pela igualdade social, como uma forma de alimentar a esperança de que as próximas gerações ajudem a transformar o planeta. “Tem uma parte desses contrastes que eu acho muito incrível, como essa quebra de paradigma, o chacoalhão. A Índia faz a gente sair da nossa bolha”, conta. 

Apesar dos aprendizados e do respeito pelas diferenças, ela acredita que nenhuma violência deve ser justificada pela cultura. Homofobia, machismo, desigualdade social e falta de consciência ambiental são questões que os indianos precisam resolver com urgência, em sua visão. E para os que querem embarcar nessa experiência transformadora, o recado da terapeuta é: “Vá de coração aberto. Não queira transformar a Índia, deixe que ela transforme você”. 

Índia e uma jornada de cura

Em 2006, a então arquiteta Laura Pires acordou com a visão periférica do olho esquerdo borrada. Foi um alerta de que ela não estava indo nada bem em sua vida acelerada no Rio de Janeiro, com uma alimentação baseada em industrializados e açúcares e a resistência em terminar um casamento. 

Outros sinais como fortes cãimbras, confusão mental e falta de coordenação motora surgiram. Depois de idas a muitos médicos e laboratórios, veio o diagnóstico: esclerose múltipla, uma doença degenerativa sem cura que compromete o sistema nervoso central. Era o corpo de Laura perdendo o controle que ela receava tanto perder na vida.

Diante dos tratamentos ocidentais, repletos de efeitos colaterais e sem perspectiva de cura, Laura resolveu ir se tratar na Índia, em uma clínica de medicina ayurvédica. Procedimentos, remédios e terapias realizados em uma casa simples no sul do país, além de muita oração, limparam seu corpo, mente e alma. 

Depois de 21 dias, Laura recuperou a visão e passou a adotar a rotina ayurvédica em casa. Com um ano e meio de tratamento, ela voltou a andar normalmente. Os mais de dez anos de prática e estudos, incluindo outras nove viagens à Índia, mudaram a rota de Laura, hoje nutricionista, terapeuta ayurveda e professora do curso YAM  “Ayurveda: Ciência da Vida, Alimento para a Alma”. 

“A Índia me permitiu reconhecer a importância real dessa vida e de tudo aquilo que realmente interessa e que a gente precisa valorizar”, diz ela. “Foi através desse mergulho profundo nas sabedorias ancestrais desse país que eu tive a oportunidade de restabelecer e melhorar a minha saúde e ter ferramentas para ajudar na manutenção e no equilíbrio do meu corpo e da minha mente”, conta. 

Abrir-se para o sentir

Laura aconselha chegar preparado para olhar e sentir. “O cheiro é intenso, o caos no trânsito quando uma vaca quer atravessar, buzinas são companheiras constantes na viagem e há centenas de pessoas dormindo nas ruas”, descreve. “Pessoas com olhares doces, de tristeza, desespero, fome. Mas amor, muito amor. E uma fé indescritível que você percebe e sente em cada gesto, em cada templo, em cada esquina, em cada árvore.”

Ela acredita piamente no “clichê” de que uma viagem para a Índia é um divisor de águas na vida. “Todas as vezes em que você coloca os pés nessa terra sagrada é um processo transformador e de muito aprendizado”, diz. E isso inclui os imprevistos. Um hotel desmarcado em cima da hora – algo que acontece bastante – pode ser a oportunidade de conhecer alguém novo em um lugar inesperado. “Como um motorista te chamar para ir na casa dele, tomar um chai e desfrutar de uma tarde conhecendo um pouco mais da cultura indiana”, exemplifica ela.

Além das dualidades sociais, os contrastes também estão presentes nas paisagens do país, com lugares montanhosos e verdes, praias tropicais e desertos. E destaca sua culinária deliciosa de norte a sul. “Os sabores explodem na boca.”

“A Índia faz com que você teste todos os seus sentidos, que são aguçados o tempo inteiro. E perceba que todas as reclamações e dificuldades que a gente acredita ter na vida não existem. Até porque se você teve condições para estar nesse lugar, já dá para perceber o quão diferente é a realidade.”

Índia e a transcendência da matéria

Os irmãos Daniel e Julio Hey visitaram a Índia logo cedo. Daniel tinha 14 anos e Julio, 18. Era uma viagem de família com o objetivo de conhecer um mestre indiano. Os dois traziam na mala questões muito importantes como: “O que é a vida e por que estamos aqui?” Mas o mestre não falava português. E não captar nenhum de seus ensinamentos pela barreira da língua foi frustrante para os garotos. 

Ainda assim, pisar nesse solo sagrado não os deixou indiferentes. “Eu estava começando a construir uma vida adulta e a solidificar conceitos na minha cabeça. Foi fundamental cruzar com a Índia nesse momento”, diz Julio. “O país colocou alguns conceitos ocidentais de pernas para o ar e mudou minha relação com a espiritualidade e a fé.”

No terceiro dia por lá, ele saiu para fotografar com uma câmera que acabara de ganhar de Natal. “Por as pessoas serem materialmente desprovidas, eu não imaginava que elas poderiam estar felizes. Ao dar espaço para enxergá-las de verdade, com presença, através da câmera, eu quebrei muitos conceitos internos”, conta. “Vi o brilho nos olhos delas. E vi que o miserável, na verdade, era eu. Elas tinham algo que me encantava: uma paz interna, proveniente da espiritualidade e do entendimento mais profundo da vida. Considero que minha relação com a câmera também tem muito a ver com essa primeira ida à Índia”, diz Julio, que hoje é cineasta e co-fundador da produtora Café Royal. 

Sob o nome de Irmãos Ahimsa, eles decidiram iluminar questões existenciais e espirituais por meio de documentários. Entre seus projetos mais recentes está “Samadhi Road”, cujas pílulas já podem ser vistas no instagram do @yam.com.vc. Previsto para estrear em 2021, o filme traz entrevistas com personalidades artísticas e espirituais ao redor do mundo, incluindo a Índia. 

Olhando e incluindo as dualidades

Sobre as dualidades e a singularidade do país, Daniel sintetiza uma teoria muito poética: “Entendo que existam duas Índias: uma, é a Índia física, a nação, com todas as suas contradições, injustiças, equívocos históricos, problemas e possibilidades. A outra Índia, é a Índia da cultura da espiritualidade. A primeira Índia, a nação, parece ter sido erigida sobre a Índia cultural. É como se a Índia cultural fosse a madeira, e a Índia nação fosse uma grande casa, que está sempre em reconstrução. A Índia cultural ofereceu a madeira. Alguns indivíduos fizeram desta madeira, cadeiras. Outros, lanças. Armas. Uns pintaram a madeira de laranja, outros, de azul, e ambos brigaram, defendendo suas cores”, elabora. 

“Não é porque os povos fizeram uma grande confusão destas madeiras, que as madeiras são culpadas, ou fontes dos problemas sociais. As madeiras, nas mãos de alguém sensível, pode se transformar em janela. Em barco. Então, acho que quando acessamos a cultura antiga da Índia, esta não deve ser diminuída apenas pela forma em que enxergamos os problemas sociais da Índia, que são frutos de infinitas forças, inclusive a longa e árdua ocupação dos ingleses”, observa Daniel.

Índia como grande professora

“O fascínio que muitos temos pela Índia está apoiado na vastidão e na profundidade da cultura de espiritualidade que se cultivou por lá, há milhares de anos”, resume Daniel, que também é comunicador e instrutor de Yoga. “Em nenhum lugar do mundo foram desenvolvidas tantas práticas, tradições, engenharias internas e externas para tentar oferecer ao ser humano a capacidade de mergulhar dentro de si, e encontrar aquilo que, desde sempre, em todas as culturas, a mente humana parece almejar: liberdade, paz, alegria, completude.”

Para Julio, essa conexão profunda é uma energia que está na atmosfera e no solo da Índia “É uma grande professora, onde a terra ensina as coisas por osmose. Colocar os pés lá e estar aberto para os mistérios da vida já é um grande passo”, diz. Ele conta que a Índia mostrou que o seu caminho era o autoconhecimento e se livrar de coisas que não o faziam bem. “É um grande presente para esse planeta existir a Índia. Tenho uma gratidão profunda por conhecer esse lugar”. 

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