Conheça a Sabedoria das Plantas

Cultivar plantas e nos aproximar delas com amor e respeito pode trazer curas e apoios em nosso processo de autoconhecimento e florescimento interno
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25.12.2020

Em um trabalho com a ayahuasca, a herbalista Tania Zaccharias se sentiu agradecida por ter as plantas para se curar. Logo, o cipó Mariri e a folha Chacrona, ervas das quais essa bebida sagrada é feita, deram um toque que a fez refletir: “As plantas não estão aqui para nos curar. Elas estão aqui e ponto”. Foi assim que Tania aprendeu que o Reino Vegetal, com a sabedoria das plantas pode nos curar, sim, mas não pela obrigação de nos servir. E, sim, por sua imensa generosidade com o Reino Animal. 

Na Espagiria, farmácia ancestral egípcia, por exemplo, o remédio é aquilo que nos leva ao nosso rei médio, como é chamado o coração. Esse órgão é o primeiro a ser formado quando ainda somos vir a ser. Ele é como a semente de uma planta que traz toda a potência do ser dentro dela. As plantas são remédios que nos levam à nossa sabedoria ancestral, presente no nosso coração. E nossas semelhanças com as ervas continuam: já reparou como as pontas das raízes se parecem com os nossos neurônios?

“Somos tão natureza quanto as plantas. Se estamos despertos para este fato, as influências podem acontecer de formas infinitas”, agrega a  terapeuta botânica Mônica Regato, da Herbária. Pois é: o segredo está justamente em nos ver lado a lado e não acima delas. “Cultivar plantas e observar seu desenvolvimento traz cura e apoio em nossos processos terapêuticos. Pode nos ajudar a despertar para a nossa própria natureza, beleza, potências. São muitas as possibilidades”, diz. 

Por isso, para alimentar essa potente irmandade, é preciso retribuir com generosidade, respeitando e cuidando do Reino Vegetal. Você pode fazer isso regenerando espaços desmatados, observando o seu desenvolvimento, conversando com as plantas e, além disso, pedindo permissão no momento de retirar suas folhas, frutos, raízes, sementes e caules. 

A sabedoria das plantas e a ancestralidade

Hoje essa relação pode não ser tão natural como décadas atrás, quando a maior parte da população era rural. “Nossos ancestrais estavam mais abertos ao sentir e, por isso, eram muito mais íntimos das plantas, grandes companheiras da nossa evolução enquanto alma”, acredita a alquimista Estefânia Verreschi, da Ervaria das Luas. 

“Viemos nos distraindo dessa comunicação direta quando achamos que estávamos aqui para dominar e não para compartilhar com a natureza”, diz. “Por isso, é preciso olhar para os povos originários e suas culturas ligadas à terra. Os nossos ancestrais indígenas, por exemplo, estão mais conectados porque não soltaram esse fio.”

Para nos ajudar a retomar essa conexão, ela cita o pensador indígena Ailton Krenak. Segundo ele, o grande interesse de cuidar da terra é nosso, já que, sem ela, estaremos extintos também. “Temos que contornar essa grande perda que causamos à terra. Deixar que as plantas cheguem e se apresentem faz com que a gente se aproxime do nosso processo de autoconhecimento.”

Para Estefânia, conhecer a sabedoria das plantas e para nos conhecer faz com que a gente se conecte com a natureza como um todo. “É preciso se entender como parte e não como donos da natureza. Assim, fica clara a importância deste grande planeta que nos oferece tudo e como está tudo conectado.”

Conhecendo os estudos e propriedades das plantas

Antes dos remédios existirem, nossos ancestrais recorriam à sabedoria das plantas para a cura. As propriedades das ervas, aliás, serviram de base para a composição de muitos medicamentos sintéticos vendidos nas farmácias hoje. Elas também foram – e continuam sendo – usadas em diferentes práticas espirituais – do espiritismo, passando pela Igreja Católica até os cultos de matriz africana. 

A biologia, a herbologia e a fitoterapia estudam esse primeiro aspecto, o das propriedades químicas e medicinais das plantas. Já a fitoenergética se debruça sobre o campo de atuação sutil das ervas, como o acesso aos campos energéticos e às nossas emoções. 

Além dos estudos formais, é importante lembrar que grande parte do conhecimento sobre as ervas vem sendo transmitido de forma oral ao longo dos tempos. Essa sabedoria também mora dentro de nós, podendo ser acessada através da observação e da intuição.

“As propriedades energéticas das plantas nos chegam através de heranças e saberes ancestrais, convivência, sensibilidade aguçada e cultivo”, resume Mônica. “Para desenvolvermos essa percepção, precisamos nos abrir para uma relação mais sensorial e intuitiva com as plantas e ter coração e percepção abertas para entendermos seus recados.”

“O que você sente quando vê, toca, sente o aroma ou o sabor de uma planta? Já parou pra pensar?”, aguça ela. “É nesse sentir, que acontece a ativação mais eficaz e profunda, capaz de abrir portais de cura, transformação, proteção, limpeza e firmeza.”

Modos de acessar a sabedoria das plantas

Os poderes das ervas podem ser ativados de inúmeras maneiras. Da simples presença da planta, através do contato com ela e da observação do seu desenvolvimento; passando por benzimentos, banhos, vaporizações e escalda pés, quando queremos alterar nosso estado físico, mental, emocional e espiritual ou aprofundar alguma potência do nosso campo energético; defumações e sprays, quando o objetivo é mudar a vibração de um ambiente; chás, garrafadas e tinturas, para um tratamento medicinal com as propriedades químicas da plantas; e óleos essenciais e quintessências, que carregam uma grande concentração em cada gota e permitem acessar tanto as características químicas da planta quanto as energéticas.

Tânia diz que não há protocolo nem receita de bolo: para saber qual é o melhor método é importante estudar sobre cada um, entender o seu objetivo e acessar a intuição. O segredo é estreitar o relacionamento com a planta pouco a pouco, como se estivesse conhecendo alguém novo. “Plantas são as minhas melhores amigas, grandes mestras e colo”, conta. 

Tânia, também criadora do laboratório herbal IYAMI, diz que o próprio manusear das plantas na feitura de um chá, um banho ou um incenso faz parte desse reconhecimento e pode ativar a nossa memória sobre os usos das plantas, além de ser, por si só, uma medicina.

Estefânia ensina a perguntar ao coração: “Do que eu preciso?” e escutar a resposta. Você pode sentir de tomar um banho de manjericão depois de uma semana cansativa para se realinhar, por exemplo. E não estranhe se o coração pedir um escalda pés com aquela folha de goiabeira do quintal. A natureza é sábia e as plantas costumam estar onde possam exercer a sua generosidade, brindando cura no seu entorno. Perceba as plantas que estão onde você vive e experimente. 

Ajuda terapêutica para usar as plantas

Mas atenção: consultar erveiras, raizeiras, benzedeiras, aromaterapeutas, terapeutas holísticos para um tratamento consistente é recomendável. “As plantas têm sua formação química. Por isso que, para indicar um chá, é preciso ter atenção especial. Se você toma um remédio, podem acontecer reações químicas entre os dois”, explica Estefânia. Isso sem falar que algumas plantas apresentam toxicidade ou podem ter seu uso restrito para grávidas, crianças e outras condições específicas.

Já na inalação do óleo essencial, as moléculas químicas da planta vão direto para o sistema límbico, a parte emocional do nosso cérebro. Nesse contato, podemos ter reações emocionais e físicas, sentir alegria ou calmaria, animação ou sono, dependendo das propriedades do óleo utilizado. Com o uso constante, memórias, traumas e sentimentos profundos são despertados, e, mais uma vez, o acompanhamento profissional é bem-vindo. “É um intenso processo de autoconhecimento”, diz Estefânia. “Esteja preparada porque as coisas realmente se transformam.”

(Re)conheça a sabedoria das plantas

Veja as propriedades de nove plantas poderosas e se aproxime do Reino Vegetal

Alecrim: Arbusto que nasce sob vento soprando e muito sol, traz alívio mental e regenera o sistema nervoso. Nos ensina a sermos criativos e traz alegria. Também é bactericida. 

Camomila: Flor que acalma, acolhe e ajuda a combater angústias causadas pelo sentimento de culpa. 

Vetiver: Essa raiz profunda trabalha a nossa ancestralidade e nossos bloqueios. Ajuda a firmar e aprofundar o nosso caminhar.

Laranja doce: o fruto da laranjeira traz alegria ao trabalhar a nossa criança interior e dar voz a ela. 

Pitanga: é o fruto do autocuidado e do autoamor. Cuida de quem cuida dos outros. Também é bom para quem precisa se aproximar mais de si e se acolher.

Folha de Pitangueira: essa erva traz vitalidade, transformação, movimento, impulso e ímpeto. Nos inspira a deixar ir.

Lavanda: suas flores e folhas ajudam na comunicação e na calma. Uma boa pedida para esperar e se orientar no novo mundo que se anuncia. 

Mirra: presente dos reis magos a Jesus, a resina dessa árvore espinhosa protege o nosso campo e nos ajuda a lidar com o medo do desconhecido, nos abrindo e acalmando para receber o novo.

Manjerona:  a planta regula o sistema nervoso e traz acolhimento, trabalhando medos, desordens emocionais e distúrbios de sono. Também é analgésica e calmante. 

Rosa vermelha: traz o foco para a auto-responsabilidade emocional. Nos permite enxergar os limites e facilita o cuidado com as nossas feridas.  ▲