Mulheres Negras e a Ciência Que a DeuSamba Dá

Pesquisar sobre o samba é falar do papel das mulheres na organização de seus espaços, de suas famílias e de seu e de seus afazeres, transformando, criando, alegrando e iluminando o mundo
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02.12.2020

Escrever sobre samba, para mim, é sempre um desafio. Pasme. Ainda que há oito anos eu venha desenvolvendo de forma coletiva as ações do Samba Sampa, é sempre desafiador sentar, organizar e pensar o ponto de partida para falar do samba. 

Há uma incoerência. Comecei esse texto errado.

Há mais dois anos, eu entendi que quando eu falo em samba, eu falo-penso-sinto a Samba, com a no início e letra maiúscula. Na verdade, se eu fosse levar ao pé da letra, o correto seria escrever as Sambas, assim, no plural e feminino; pois só assim a linguagem pode dar conta de dizer um pouco sobre o que é potência dessa forma de resistência que nós, negres, temos preservado e que, sobretudo, as mulheres negras têm protagonizado ao longo da história. 

“Ousamos dizer que Samba é como uma mulher de ventre pleno e fecundo, que traz consigo a possibilidade de acolher, de gestar, de parir e de cuidar. Por isso, nossa ação Samba é feminina e feminista. Nossa Roda-Samba é uma gira de vozes negras que entendem a importância em ocupar os espaços e territórios físicos e afetivos com uma narrativa, uma poética – que nasce nos quintais e terreiros, que nasce nas ruas e botequins, que nasce e renasce a cada década, e que também é uma forma de dizer: “Sim! Estamos vivas!” (Sambas Escritos, 2018)

Sobre a plataforma Samba Sampa, é possível encontrar diversos materiais: vídeo, literatura, fotos. Hoje, vou me ater a falar dos encontros que as Sambas me trouxeram e de como pensá-la sob a ótica das ciências, dos saberes e da intelectualidade pode nos ajudar a compreender a complexa atuação política das mulheres negras no Brasil.

A Samba como resistência para além da música

Quando eu iniciei no mestrado, achava que falar sobre Samba seria óbvio demais para uma mulher preta e pouco aceitável para o mise en scène imposto pela academia brancocentrada. O que eu não imaginava é que seria a Samba que me colocaria no eixo da pesquisa e traria o tom para a dissertação “Vozescritas” (2019). Naquele pequeno compêndio teórico, eu me debruçava sobre o como e o quanto a Samba sempre foi uma possibilidade de resistência para além da música, mas para construção literária e produção intelectual de mulheres negras: 

“Recordo-me do dia em que ouvi pela primeira vez a cantora Adriana Moreira, em 2008; era uma tarde de sábado no Centro Cultural São Paulo, a cantora vestida de branco, cabelos alongados, ao cantar a primeira nota do samba Direito de Sambar, me arrebatou de um jeito que eu me fiz em lágrimas. Como poderia uma simples frase conter tanto peso histórico e que ali, representada na voz e corpo de Adriana, arrebatavam e promoviam a catarse? “Se é proibido sonhar, então me deixe o direito de sambar”, Batatinha, cantor e compositor baiano, sabia da imensidão política que tal frase tem e, ali cantada por uma mulher negra, ganhava contornos intangíveis. Embora as vozes masculinas no samba tenham ganhado destaque na história da música brasileira, a presença feminina negra nele é uma insurgência histórica até hoje preservada nos quintais, nos botequins e nos bastidores das rodas”.

O dia 2 de dezembro é reconhecido nacionalmente como o dia do Samba, aquele dia que o melhor programa é pegar trem na Central do Brasil e ir até Osvaldo Cruz, cantando, suando o corpo e celebrando. Em tempos normais, rodas de samba ganham as ruas no país, sambistas ganham alguns minutos na mídia e, praticamente, dezembro se transforma em um aperitivo para o Carnaval… isso tudo, em tempos “normais”. Mas, há uma contradição nas comemorações do dia do Samba e que ano após ano, vem insurgindo uma voz-corpo que reivindica a Samba, a mulher, a mulher preta como agente fundamental para essa história. 

A Samba e as mulheres sambistas

Nas palavras da jornalista e pesquisadora Claudia Alexandre, “precisamos ocupar esse dia com as vozes das mulheres negras sambistas. Ele, até hoje, vem sendo referenciado por conta de um homem branco, e isso precisa mudar”. O homem branco, em questão, é o Ary Barroso (1903 -1964) quando visitou pela primeira vez a cidade de Salvador. Para quem não lembra, o seu Ary é o mesmo que perguntou para a menina Elza de que planeta ela tinha vindo, e a menina respondeu “do mesmo planeta que você, Seu Ary. O planeta fome”, ouvi essa história ser contada ao vivo pela deusa Elza Soares.

A visita do seu Ary foi em 2/12/1940, e o dia foi instituído na Câmara Municipal de Salvador em 1964. Um dia que mobiliza uma comunidade, mas pensando para homenagear um homem. O que está em questão não é a legitimidade e importância da atuação musical de Ary Barroso; mas é importante observar como os marcos históricos são construídos e revelam a estrutura machista e racista deste país. 

Outra versão, esta oficial e com registros nas bibliografias do samba, conta que o 2/12 foi criado a partir do I Congresso Nacional do Samba, realizado no Rio de Janeiro, 1962; no evento, o intelectual negro Edison Carneiro apresentou a Carta do Samba, cujo objetivo estava em  “coordenar medidas práticas e de fácil execução para preservar as características tradicionais do samba sem, entretanto lhe negar ou tirar espontaneidade e perspectivas de progresso” e ainda, deixar registro que homenageasse àqueles responsáveis por manter a tradição do samba viva. 

Há muitas histórias sobre esse dia, há versão que relaciona com o dia da gravação do samba “Pelo Telefone” cuja autoria registrada na Biblioteca Nacional, consta no nome de Donga e Mauro de Almeida; essa versão sempre me desperta o interesse quando referenda que o samba foi composto durante uma festa na casa de Tia Ciata… essa sim, não pode faltar quando pensamos em Samba.

Feche os olhos e pense em uma sambista mulher.

Agora, feche os olhos e pense em três sambistas mulheres negras que você já tenha escutado.

Aposto que na primeira, Clara Nunes tenha vindo com sua coroa de búzios linda e com seus cabelos soltos e um fundo azul. Nada contra. No entanto, se para segunda fechada de olhos você sentiu dificuldade de lembrar dos nomes de Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Alcione, Leci Brandão, Geovana, Tia Cida de São Mateus, Aparecida… essa dificuldade tem um por que e já sabemos o motivo, certo? 

Mulheres negras confrontando estereótipos

Há um apagamento sistêmico e epistêmico que assola a historiografia das mulheres negras nas Sambas e que reflete o quanto a sociedade tenta não enxergar essas presenças e protagonismos. Jurema Werneck afirma essa constatação em sua tese O Samba Segundo as Ialodês (2007): “com seus sambas, atitudes e performances, as mulheres negras ocupam espaços na cultura de massa pelas perspectivas que recusam e confrontam os estereótipos correntes e recolocam suas imagens a partir das experiências vividas por elas em seu cotidiano”.

Nessa perspectiva de leitura e aprendizado e conversão do samba para a Samba, se estabelece não apenas um movimento de contra-narrativa ao machismo imposto e que esconde a presença feminina ou não dá a ela seus devidos créditos e pertinência histórica, mas construimos uma espécie de Sambologia sob a ótica das mulheres negras.  

Aqui, preciso evocar um dos presentes que a encruzaSamba me deu: conhecer Helena Theodoro, professora, pensadora e umas das mulheres que abriu os caminhos acadêmicos para que mulheres negras vissem na Samba um espaço para prática científica. Tome nota de suas palavras:  “as mulheres pretas desde muito longe tem usado o canto para acompanhar suas atividades, como baianas ganhadeiras. Em Itapuã, criaram o samba de roda do mar, cantando e vendendo suas medidas do Bonfim, comida  e brejeirice. Tia Ciata trouxe o samba para a Pequena África e teve filhos sambistas. A contribuição das baianas para a economia informal  e para a criação dos mercados de ervas, frutas, tecidos e comida foi fundamental, como provam as quitandeiras de Florianópolis e Rio de Janeiro desde o século XVIII. Tivemos Carolina Maria de Jesus que vendeu mais livros do que a maioria dos escritores brasileiros, além de Menininha do Gantois se tornar conhecida via samba e religiosidade profunda. Paula do Salgueiro e as irmãs Marinho levaram o samba e seu gingado para o mundo todo. Pesquisar sobre o samba é falar do papel das mulheres na organização de seus espaços, de suas famílias e de seu e de seus afazeres, transformando, criando, alegrando e iluminando o mundo”.

O corpo da mulher preta é sagrado

Não há samba só no masculino. Não há samba sem mulher negra, preta. Para além dos lugares que o racismo tenta colocar e condicionar às corpas pretas. Sobre isso, a rainha de bateria e jornalista Evellyn Alves escreveu, em Massembas de Ialodês (Pólen/Samba Sampa): “o corpo preto da mulher no samba é sagrado, não se toca, não se mexe, não se desrespeita. É esse corpo preto suado que dança ao ritmo do atabaque, tamborim, pandeiro, caixa, surdo… Apenas ouça. Aprecie sem pressa o que ele diz. Aprecie o vento que aos giros e rodopios lhe causam arrepios” 

A Samba é fundamento. Ela-Samba traz em si e consigo fundamento que gera a vida e por isso se faz e fez uma tecnologia para constituir meios possíveis de existência através da dança, do canto, do toque, do batuque, da umbigada e do encontro. A Samba é resistência política guardada nos quintais-terreiros da Iyás, Mametus, Tias e Donas, é fundamento da magia preta que transborda para as ruas e risca o ponto nas esquinas. 

A pesquisadora Juliana Barbosa relembra um importante nome para a historiografia da samba: “Dona Zica (1913 -2003) ocupa aquele papel que mostra que o samba é uma cultura e não um gênero musical, apenas. Ela não cantou, não tocou, não dançou. Mas teve ao longo de sua história uma atuação comunitária e articulação cultural. É uma figura que merece ser destacada, mencionada e lembrada”.

Reescrevendo as presenças negras na samba

Sobre mencionar, lembrar e localizar as ausências e reescrever as presenças negras-sambas, Claudia Alexandre convoca para essa rehistoriografia praticada por mulheres negras pesquisadoras das sambas, a importância de Hilária Batista (1854-1924), a Tia Ciata, que de acordo com os registros da história do samba, realizava em sua casa rodas de samba que não eram apenas um espaço de diversão e entretenimento, mas eram espaço de disputa política e articulação social preta. 

“Eu até acho que Tia Ciata foi muito referenciada, mas ela não pode ser apenas um nome. Tenho dito que ela é vítima da história única (referência ao livro da escritora Chimamanda Adichie). Hoje fala-se de Tia Ciata, mas não do que ela representou como uma mulher negra que foi capaz de mudar um tempo e se eternizar. A ilusão de que sua história já basta tem reforçado a sua sub-representação na história do samba e, mais do que isso, já existe um discurso de que há um excesso de citações sobre sua imagem em detrimento de outras tias contemporâneas da matriarca do samba (baianas e cariocas). Enquanto isso, torna-se um falso contentamento com o pouco que se escreveu sobre Tia Ciata e nada se escreve sobre outras mulheres negras que continuam invisibilizadas e certamente não teremos mais acesso às suas memórias”, explica Claudia Alexandre.

Samba como espaço de sonho e luta

Ainda sobre não lugar mulheres negras sambistas ao esquecimento, Claudia Alexandre retoma que as “herdeiras de Ciata como Jovelina Pérola Negra (Jovelina Farias Belfort 1944-1998) segue sem chance de registro e importância. Jovelina foi um fenômeno, assim como Clementina de Jesus. Versadeira, partideira e uma Iyá cozinheira, amava o samba e suas crias! Surgiu na década de 1980, tardiamente, mas deixou sua marca. Superou um passado de luta contra a miséria, foi vendedora ambulante e abandonou o serviço de empregada “doméstica”, pra se lançar no sonho de brilhar como cantora e assim se tornou a “pérola negra”. Mulher de fé e do axé. Foi pastora e baiana da Império Serrano, sua escola do coração. Todos apreciavam seu estilo próprio, sua voz suingada, sua rapidez no improviso, sua atitude e seu bom humor. Mas apesar do sucesso se foi, no dia 2 de novembro de 1998, após sofrer um infarto, sem realizar o sonho de comprar uma casa para seus filhos”.

Para muitas mulheres negras, a Samba é um espaço de sonho e de luta. Mas sobre isso terei que falar em outro texto. Antes de encerrar, faço dois convites. No dia 2 de dezembro, dia nacional da Samba, ouça Teresa Cristina, Fabiana Cozza, Fabíola Machado, Nina Rosa, Luana Bayô, Raquel Tobias, Maíra da Rosa, Juliana Ribeiro, Roberta Oliveira, Adriana Moreira, Cris Pereira, Glória Bonfim, Nilze Carvalho… e verá que este dia e o samba, tem muito para ser A do que ser O.

As sambologias pretas femininas tecem uma teia complexa de abordagens sobre a Samba para dar conta do que é ser mulher negra em um país de proporção continental como Brasil. Para encerrar, tomo a liberdade de fazer o segundo convite: de 7 a 11 de dezembro, acontece a I Jornada Acadêmicas das Sambas, serão cinco dias de aula on-line com pesquisadoras negras que abordam a samba em seu cotidiano científico e social.   

Em todas essas sambologias negras, há uma beleza: a possibilidade de se pensar a Samba a partir de diferentes campos da ciência: a filosofia, a história, a sociologia, os estudos culturais, da linguística, do audiovisual. Uma gira, uma roda que se movimenta nos saberes orais, escritos e corporais. É um movimento que se integra a tantos outros, que ouso dizer: atravessou o Atlântico e construiu uma tecnologia fina de resistências.  

Para saber mais:
Coleção Sambas Escritos. Organização: Carmen Faustino, Maitê Freitas e Patrícia Vaz. 2018. Ed. Pólen, São Paulo. ▲