O Que Oxum nos Ensina

Oxum é a orixá identificada com a fertilidade e a capacidade de enxergar o futuro. Com respeito às tradições, transforma as estruturas do poder e da riqueza
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06.11.2020

Era um sábado, final de tarde, quando os atabaques soaram anunciando a travessia. Para mim, candomblé é travessia: uma jornada com cantos, batuques, dança, comida e indumentárias majestosas. Lembro como se fosse hoje: vestida de branco e amarelo, balaio na cabeça cheio de flores, Oxum se apresentou e dançou no xirè. Ela estava linda: era Osun que se apresentava diante de todos. Muitas palmas para a dona da casa. Ora Iê Iê ô! 

Nascida em São Paulo, Iya Wanda d’Osun cresceu no bairro Parque Peruche, filha de Sebastião Onofre de Oliveira e Isabel Maria da Conceição de Oliveira, a “Iya Katessu”, como é conhecida. Pergunto à Iya Wanda como ela conheceu o candomblé: “a história é longa”, ela me diz, enquanto aguardo, curiosa, para ouvir o que Iya tem para contar.  As histórias das mais velhas trazem um senso de pertencimento ao movimento do Tempo. 

“Eu me iniciei na Goméia e me tornei o braço direito da minha mãe em tudo no religioso: de pintar o terreiro, cortar as bandeirinhas para enfeitar o barracão e cuidar do Orixá dela, Omolú”, ela me diz, em um áudio, enquanto está no ponto de ônibus à espera da sua linha. Depois da iniciação, dona Isabel passa a ser chamada de Mãe Katessú do terreiro de São Lázaro.

O primeiro contato com o candomblé

“Meu primeiro contato com a religião foi desde que me conheço por gente.  A minha mãe era madrinha de umbanda junto com as irmãs dela. Eu cresci no meio da umbanda e, em 1962, minha mãe se iniciou no candomblé com o seu João da Goméia (sacerdote do candomblé angola, que viveu entre 1914 e 1971). Em 1964, eu me iniciei com 14 anos na mesma casa. Olha só, eu desci do metrô estou indo para o ponto do ônibus, assim que eu chegar em casa te aviso. Beijos”, e então eu aguardo por mais mensagens de Iya. 

A conversa com Iya Wanda d’Osun aconteceu ao longo dos dias. Fomos fluindo de acordo com o tempo de nossos cotidianos. Entre uma saída na rua para resolver suas coisas, ela me respondia e em alguns momentos me alertava: “agora vou pegar o ônibus, assim que eu chegar em casa, continuo”. Enquanto aguardava por suas respostas, entre uma louça e uma brincadeira com a minha filha, recordava do quanto Osun me surpreende. Lembrei da vez que estava caminhando em São Luiz do Maranhão e me perguntava “cadê os encantos? Onde estão os encantados dessa terra?”, e parei diante de uma imagem de Osun e ali, diante dela vestida de amarelo como a Iaba, pedi a bença.

A história do candomblé em São Paulo

A história de Iya Wanda e sua trajetória remonta a tradição do candomblé em São Paulo. Ali, na zona norte de São Paulo, de acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), é de 1962 a data do primeiro terreiro aberto na região, o Terreiro de Candomblé de Santa Bárbara, dirigido por Mam’etu Manaundê (1926-2004). Aos pés e sob a serra onde hoje encontramos os bairros da Casa Verde, Vila Nova Cachoeirinha, Brasilândia e Taipas, a concentração de negros vindos de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco fez com que este bairros se tornassem “pequenas Áfricas” em solo paulista. Não por acaso, são regiões de concentração de escolas de samba. 

Localizada na zona norte de São Paulo, próximo ao terminal Casa Verde, o Ilê Mi Osun Muiywa é um espaço de resistência dos saberes culturais e sociais que as religiões de matriz africana possibilitam. Por meio do candomblé e do culto aos Orixás, dezenas de pessoas, homens, mulheres, crianças e jovens, têm suas vidas transformadas ao cultuar a ancestralidade.

“Oxum se apresentou na minha vida quando eu tinha oito anos. Eu tinha muito sonhos com águas caindo por cima de mim e flores que me batiam. Eu sempre tive um contato muito grande com a religiosidade, com a nossa cultura, com as casas de candomblé de São Paulo. E essa casa foi uma das primeiras da cidade. Minha mãe, Katessú, era [filha] de Omolú mesmo. Ela gostava de ajudar as pessoas, era muito generosa. Abria as portas do terreiro para outros que por algum motivo precisavam de ajuda”. Em meados de 1960, mãe e filha se iniciam no candomblé e, a pedido do Caboclo Sete Estrelas, abrem a Casa de São Lázaro para oferecer cuidados e acolhimento aos que necessitavam. 

O que Oxum nos ensina

Pergunto à Iya Wanda o que Oxum ensina. “A resposta é longa. Mas o que Oxum me ensina é ter compreensão com as pessoas. Ser generosa, ser justa e ser uma boa Iya. Ser companheira, parceira de seus filhos. Mas não deixo de “luchar” a orelha do filho quando tem necessidade… os filhos de santo são iguais filhos carnais”, ela diz. Iya Wanda é mãe sanguínea de Andreia e Ângelo, e os dois ajudam a preservar a casa e os ensinos herdados. 

Quem já esteve na presença de Iya Wanda d’Osun pode ter a experiência de ser observado por seu olhar doce e certeiro. O tempero de seu acarajé faz jus aos contos que narram que quando Osun cozinha, ela encanta os Orixás. Mãe Wanda, como costuma ser chamada, é herdeira e responsável por um matriarcado ancestral de sua mãe Iya Katessu que, na década de 1940, comprou um terreno no Parque Peruche e construiu sua casa para viver com os quatro filhos uma maternidade solo.

Oxum: a orixá da fertilidade e das visões de futuro

O  Ilê Mi Osun Muiywa é este espaço de cura e de cuidado aos que são iniciados e aos não iniciados. A casa simples denuncia, nas paredes e no teto, a passagem do tempo. Enquanto aguardo Iya Wanda, consulto a tese de doutorado “Samba segundo as Ialodês” escrita pela intelectual, médica e ativista Jurema Werneck: “segundo algumas das tradições afrobrasileiras do Candomblé especialmente conhecidas pela transmissão oral de lendas contadas no cotidiano das comunidades religiosas, Ialodê é um dos títulos dados a Oxum e a Nanã.”

E prossegue: “Oxum é a orixá feminina identificada com a fertilidade e a capacidade de enxergar o futuro; com as águas doces dos rios e das cachoeiras; com a riqueza, o ouro e a cor amarela. Oxum é a mulher que, através do trabalho, do respeito às tradições e da luta, foi capaz de reverter as estruturas de poder e riqueza e apropriar-se de fatias consideráveis deste poder e desta riqueza.”

Oxum, guardiã da gestação e dona das águas

Ao lado da velha Nanã, Oxum guarda segredos e inicia as mulheres. Guardiã da gestação, Oxum é dona das águas doces, dos rios, cachoeiras. Portanto, ela guarda o fluido essencial para vida. Sem água não há vida. Sem Oxum não há vida.  São muitos os ensinos que Oxum traz, mas para mim, quando ela se instaura no caminho, ela convoca: o autocuidado, o afeto e o estado de presença de saber se olhar em seu espelho para ver além de si. “É do ouro de Oxum que é feita a armadura que cobre meu corpo” proclama Maria Bethânia, na canção Carta de Amor. Sim, é preciso revestir-se neste ouro para preservar a sabedoria que Oxum traz: um corpo gerador de vida e fluxo de suas águas. Ora Iê Iê ô!

Ao chegar em casa, Iya Wanda continua a conversa e conta quando, em 1980, trabalhou na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e participou da criação do Projeto Zumbi, idealizado pelo cineasta Ari Cândido. “Este projeto tomou conta de São Paulo.  Pois foi a oportunidade que tivemos de mostrar a nossa religiosidade e a cultura do candomblé. Foi neste período que criamos o Afoxé Omo Dada e encenamos Xangô e suas três mulheres no Teatro Municipal, fizemos uma missa Afro em frente à Catedral da Praça da Sé e montamos um grupo de dança chamado Omo Fei Xaió (Os filhos da Alegria e da Felicidade).”  

Crimes de racismo e intolerância religiosa

Iya Wanda além dos compromissos religiosos, transformou sua trajetória em um espaço de articulação política pela liberdade religiosa, direitos dos povos de terreiros e da comunidade negra. Aliás, em 1970, ela passa a participar das reunião do Movimento Negro Unificado e a construir uma consciência política do que é ser negra neste país. Em 2018, Iya Wanda, encorajada por sua comunidade, candidatou-se a deputada estadual. “Fui colocada na política por pessoas que achavam que eu tinha potencial para ser uma representante das mulheres negras e o mais importante: ser legítima representante dos Povos de Matriz Africana para sair em defesa dos direitos da nossa tradição”. 

De acordo com pesquisa do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, em 2019 o número de denúncias de intolerância religiosa aumentou em 56%, dos quais 61% são casos contra as religiões de matriz africana. A despeito dos aumentos de casos de crime de racismo religioso, o Ilê Mi Osun Muiywa mantém suas colunas em pé e atentas aos movimentos políticos e mudanças sociais. 

Um ataque ao que não se conhece

“Eu acho que existe uma ignorância nas pessoas que atacam aquilo que elas não  conhece e não compreendem. Então, é mais fácil atacar. Mas, se você prestar atenção, todos gostam da cultura negra: dança o afoxé, desfila nas Escolas de Sambas, pratica a capoeira, gosta da dança afro… usurpam de tudo aquilo que lhe é interessante, lucram com a nossa cultura, mas não lutam pela preservação dela. Não respeitam”.

Integrando a programação oficial do carnaval paulista, o Afoxé Omo Dada foi fundado em em setembro de 1980; é um dos mais antigos da cidade. Afoxé é um cortejo que fazemos para levar boas energias para as pessoas que estão participando do Carnaval. Antes de ir para a avenida, nós rezamos, cantamos, oferendamos e agradamos o dono da festa de rua”. 

Oxum e Exu, duas forças que acalantam

Como não amar Exu e o Oxum? Me pergunto. Duas forças, presenças e manifestações ancestrais que acalantam, ensinam e guiam a alma pelos caminhos, preservando a existência. Durante a pandemia, seus filhos mais jovens iniciaram uma campanha para arrecadar recursos e reforçar o espaço que, para além do candomblé, também serve como sede de um dos principais afoxés de São Paulo: o Afoxé Omo Dada. E, diga-se de passagem: acompanhar os ensaios e preparos para saída do Afoxé no Carnaval… é uma alegria ímpar. Ver o cortejo ocupar a rua do sambódromo do Anhembi e ali devotar, por minutos, a liberdade da fé e o culto do orixá, é um feito único.

“Essa vaquinha é por uma causa nobre. A construção desse Ilê é de 1955. Os quartos de santo, o roncó, estão com a laje comprometida. É uma construção antiga, os ferros estão aparecendo por causa de uma infiltração tempos atrás que mandei consertar. Mas, agora, precisamos da ajuda de todos que acreditam e respeitam os orixás para ajudar nessa reforma. Então, os filhos da casa se reuniram e acharam por bem fazer essa vaquinha em respeito a Mãe Katessú, fundadora e ancestral dessa casa”.

Grata aos caminhos que sempre me levaram a conhecer Iyas, como Iya Wanda, convido quem se preocupa com a liberdade, a pluralidade e a diversidade religiosa a contribuir com a campanha de arrecadação para reforma do Ilê Mi Osun Muiywa, aqui.  Que Oxum seja por nós e nos traga os fluxos necessários para seguir! Ora Iê Iê Ô!

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