As Bruxas Vivem Entre Nós (E Talvez Você Seja Uma Delas)

Mulheres foram acusadas de feitiçaria por defenderem a liberdade e por seus saberes de cura. Saiba quem são as bruxas hoje e resgate aquela que te habita
9 minutos de leitura
28.10.2020

Se você se perguntar se conhece uma bruxa, é possível que inicialmente a resposta seja não. Isso porque nosso imaginário coletivo é condicionado a pensar que bruxas são senhoras de narizes pontudos com verrugas, que criam gatos pretos, dão gargalhadas maléficas e voam em suas vassouras. Na Galícia espanhola costuma-se dizer a frase: “no lo creo en brujas, pero que las hay, las hay”, o que significa que sim, as bruxas existem, e provavelmente nenhuma delas teve esse aspecto horripilante em tempo algum.

É arquetípica a maneira de retratar as bruxas como detentoras de enormes e inesperados poderes, contra os quais nenhuma pessoa normal poderia se defender. O significado da figura da bruxa, como o de qualquer outro símbolo, varia com a história. Símbolos que se criam com base no medo e tecem caminhos que se encontram até nos tempos mais avançados. 

“Os hereges ou pagãos só foram considerados perigosos a partir do momento em que a Inquisição se tornou uma febre, um pânico geral e que perdura até hoje nas mentes mais ignorantes que ainda acreditam na figura da bruxa má”, explora Jéssica Paixão, sacerdotisa e fundadora da escola Templo da Deusa, onde se ensina a Wicca, vertente da bruxaria natural e a filosofia da bruxaria moderna, para se relacionar com o mundo mágico e não mágico.

Bruxaria: ensinamentos passados de geração em geração

A sacerdotisa explica que, na Idade Média, a bruxaria era passada de geração para geração. Resgatar essa simplicidade faz parte do que ensinam as bruxas modernas, com práticas valiosas como cozinhar com responsabilidade pelo alimento, ter entendimento sobre as energias que o universo nos provê e, principalmente, o respeito pela natureza e pelo sagrado feminino.

 “Precisamos ter uma visualização básica e racional do mundo. As pessoas têm dificuldade de enxergar o divino por trás do sagrado feminino porque estão acostumadas com um único Deus. Mas, se somos filhos de Deus, onde está a mãe? Se precisamos de duo em tudo na natureza, é porque o sagrado feminino existe, não só no contexto espiritual. É um sagrado que habita dentro de todos nós”, observa Jéssica.

As bruxas eram donas de seus próprios corpos

Com o avanço do cristianismo como religião estatal, o clero reconheceu o poder que o desejo sexual conferiu às mulheres e tentou de todas as maneiras exorcizá-lo. A liberdade sexual e corporal só era admitida em seitas hereges – ou seja, toda mulher que tentou controlar sua função reprodutiva ao longo de muitos séculos foi criminalizada como bruxa, caçada e queimada na fogueira. 

Foi em meados do século XIV que as acusações avançaram para campos como “culto a animais”, “rituais orgiásticos”, “sacrifícios de crianças” e “adoração ao diabo”. É nítido que a caça às bruxas aprofundou a divisão entre homens e mulheres, vinculou o medo ao poder do corpo feminino e destruiu um universo de práticas e crenças. Além de gerar uma psicose em massa por meio de inúmeras abominações.

É hora de ancorar a energia do feminino

Mariana Cogswell, facilitadora, comunicadora e criadora de círculos para mulheres, elucida que desde que se instituiu a era da posse, as mulheres tornaram subordinadas, marcadas e o ventre passou a ser uma “propriedade”, por interesses sócio-políticos e econômicos. “Pela simbologia da religião, é preciso desconectar o corpo feminino da psiquê e da alma. E, assim, estimular emoções que derrubam a autoestima, a sensação de bem-estar e a confiança. O medo, a ameaça e a culpa fazem parte de um sistema de repressão e a mulher se torna soldada do que a oprime”, esclarece.

Entretanto, Mariana explica que ainda que a linguagem feminina tenha sido reduzida e fragmentada enquanto o homem determinou ser o detentor da norma, da lei e da forma, onde tudo o que não se enquadrava nisso precisava ser extinto, podemos nos reencontrar com nossas raízes e aprendermos com nossos ciclos. “A mulher oscila, a mulher é cambiante, serpenteante, labiríntica, a mulher opera no caos. Nosso trabalho é energético, é natural que sejamos instáveis, nossa base firme é o corpo. Podemos ancorar essa energia no momento em que escolhermos voltar a sentir, abrindo disponibilidade para todos os encontros da vida e para sustentar as experiências”.

A reconexão com a natureza e sua magia

A bruxa das histórias populares nada mais é que uma feiticeira intimamente conectada com os poderes da natureza e atributos conferidos ao seu espírito, como a figura da mulher selvagem, indomável e que acumula inúmeros saberes. A premissa da magia é a de que o mundo está vivo, que é imprevisível e que existe uma força por trás de todas as coisas: água, ar, terra, substâncias e palavras. Sim, pois tudo no universo está interligado.

“A bruxa ou a mulher medicina usa seus saberes intuitivos ou sistêmicos para curar, encantar, atrair, repelir sem explicações. A sabedoria holística estuda inúmeras técnicas que podem ser científicas ou não, que serão usadas para: ajudar o paciente a encontrar sua cura, elevar sua frequência vibratória com técnicas específicas, ajudá-lo a co-criar o que deseja e ensinar a silenciar a mente para que os pensamentos obsessivos possam ser controlados”, explica Jorene Ferro, terapeuta corporal e holística, nascida no dia dedicado às bruxas.

As bruxas atuais são mulheres medicina

Jorene descobriu ainda criança sua expansão e conexão com o cosmos, mas também percebeu logo que espiritualidade sem autoconhecimento é uma grande armadilha do Ego. De bruxas, as mulheres se transformaram em guardiãs dos saberes naturais, mulheres medicina, terapeutas holísticas que acolhem seus semelhantes e entendem que para tudo existe um porquê. 

“É muito importante que todos voltem à naturalidade, principalmente as mulheres com seus ritos de passagem, voltar para suas rodas de aprendizados. Temos muito que aprender umas com as outras, pois é na troca que engrandecemos os saberes e que ficamos mais fortes para olhar para a vida”, finaliza a terapeuta.

Há muitos caminhos para a realidade. O que difere se a bruxaria é boa ou má é o cruzamento de crenças ao redor das culturas. Nossos corpos, partes integrais da natureza, nos dão pistas de como a alma se comunica com o todo – e sempre há algo de sagrado por trás da magia. Celebrar esse dia é cultuar o que há de divino em todos nós.

Um ritual para celebrar o dia das bruxas

Jorene Ferro preparou um ritual para nos conectarmos ainda mais com esse portal do divino que nos habita. Deixe o sentir se aproximar e se expandir. E honre sua bruxa interior, unida com todas as que vieram antes de nós. Feliz Sabbat!

Itens para o ritual de Dia das Bruxas Modernas

Para esse ritual você vai precisar de:

/ Vela roxa para queimar padrões de comportamentos antigos e aspectos negativos da sua personalidade

/ Papel branco e lápis para escrever o que quer queimar.

/ Vela branca para pedir à Deusa a transmutação da sua própria escuridão (simbolizando o Fogo)

/ Incenso de sua preferência (simbolizando o Ar)

/ Vasinho de planta (simbolizando a Terra)

/ Vasilha com água filtrada( simbolizando a Água)

/ Jóia que queira usar em dias auspiciosos ou para sua proteção

/ Perfume que irá usar o ano todo ou em momentos que você precisa de força

/ 2 maçãs para serem oferecidas à Deusa

/ 1 taça de vinho tinto ou suco de uva com uma pitada de canela

/ Frutas secas ou pães para comer pós-ritual

Como fazer seu ritual

1 Encontre um lugar tranquilo e seguro para fazer seu Altar com os elementos que propomos. Deixe tudo reservado para não interromper o ritual para buscar algo que esqueceu. 

2 Arrume-se e sinta-se linda, com sua joia escolhida. Faça um exercício de respiração, inspirando e expirando vagarosamente durante 3 minutos. Clame pela Deusa Mãe, para que seja abençoada. Clame pela Deusa Anciã, para que venha te ajudar. 

3 Escreva no papel os padrões de comportamentos antigos e aspectos da sua personalidade negativos que queira queimar, para ajudar a transmutá-los. Acenda o incenso e chame pelo elemento Ar. Acenda sua vela roxa e ofereça à Deusa Anciã. E, então, queime o papel bem devagar, dizendo em voz baixa o que deseja transformar. Sopre as cinzas pela janela.

4 Depois, acenda sua vela branca e chame pelo Fogo. Ofereça-o à Deusa Mãe, para abençoar seu momento e peça uma guiança para que o novo chegue e se instale de acordo com o seu merecimento divino. 

5 Quando terminar, faça um brinde às Deusas e tome 3 goles da sua bebida. Coma devagar suas frutas secas ou seus pães consagrados no Altar durante o ritual. Ofereça a Água, o vaso com planta e as maçãs às duas grandes Senhoras, a Deusa Mãe e a Anciã.

6 A água você coloca em sua garrafa ou filtro para beber depois. Deixe a planta no seu altar e coloque as maçãs numa praça ou jardim.

7 Agradeça aos seus protetores e amparadores espirituais e às Deusas e finalize com outra sequência de meditação.

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