A Madona Negra e Nossa Senhora Aparecida

Entenda como esse arquétipo ligado ao feminino profundo e aos ciclos de vida, morte e renascimento se manifesta através da Padroeira do Brasil
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12.10.2020

Maio de 1978, mês das mães, fiéis reunidos na Basílica Velha, em Aparecida, interior de São Paulo, em louvor à Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Contra todas as expectativas, um jovem de 19 anos avança altar adentro, estoura o vidro do cofre que protegia a imagem setecentista da santa e, na fuga atordoada, a derruba no chão. Então, a protetora dos brasileiros católicos se quebra em mais de 200 pedaços.

Alguém extremamente preparado precisava restaurar a estatueta da Virgem Negra. Por caminhos tão incompreensíveis quanto o próprio atentado, a missão fora depositada nas mãos da artista plástica Maria Helena Chartuni. Ela, à época, trabalhava no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Maria, mãe de Jesus, apareceu para esta outra Maria num momento em que sua alma, não de todo cética, porém titubeante, urgia em saber: “Qual o sentido da minha vida?”. 

“Sozinha com ela, em meio àqueles cacos, minha vida daquele jeito também, falei pra ela: Você me colocou num problema enorme e vai ter que me ajudar”, ela conta no documentário Marias: A Fé no Feminino (Brasil, 2016, direção: Joana Mariani), que investiga a devoção à Nossa Senhora pela América Latina. 

Pois a cura de via dupla se deu lenta e intuitivamente. Algo contornava a razão e guiava a pinça da restauradora com estilhaços ínfimos até os locais certos. Em 33 dias o trabalho estava terminado. “Foi aí que minha emoção começou a se abrir. Tinha pego algo sagrado”, reconhece Maria Helena, admirada. Desde então, ela se apresenta ao mundo como uma mulher de fé, restaurada por Nossa Senhora Aparecida. A artista plástica esmiúça essa transformação no livro A História de Dois Restauros: Meu Encontro com Nossa Senhora Aparecida (Santuário).

O arquétipo da Deusa Mãe sustenta travessias penosas

Outras Marias entrevistadas ao longo do documentário relatam que encontraram na Virgem Santa sustentação espiritual para atravessar desertos, momentos em que não havia escapatória a não ser visitar o mundo dos mortos, vagar pelos porões da terra – sem garantia alguma de retorno. E, então, na hora devida, regressar à luz, renascer para uma nova compreensão de si mesmas e da vida que tinham pela frente.

A sensação de que uma força vinda das entranhas reergueu essas devotas tem relação direta, segundo a psicologia arquetípica, com o arquétipo da Madona Negra. Essa associação simbólica remonta ao culto da Deusa Mãe, a Terra, geradora e tomadora de vida, cujas representações datam desde a pré-história. 

No Egito Antigo, por exemplo, a Grande Mãe e Senhora da Magia, é Ísis. Aquela que devolve a vida ao irmão e esposo Osíris, morto e desmembrado pelo irmão Seti. E que concebe dele um filho: Hórus, a criança divina, arquétipo do Espírito, do Self. 

“A imagem de Ísis com Hórus nos braços foi reintroduzida na Europa pelos cruzados. E irrompeu no imaginário medieval, tornando-se protótipo para a iconografia das madonas europeias”, explica Eliana Athié, palestrante, escritora e estudiosa de mitologias, dedicada aos temas do feminino profundo e seu impacto nas vidas de mulheres e homens.

Ilustração da imagem da Nossa Senhora Aparecida, com raios de sol emoldurando sua cabeça

A Madona Negra nos conecta às forças da terra e à intuição

A estudiosa nos situa no limiar entre o paganismo e o cristianismo, quando a Madona Negra era cultuada por uma série de atributos. Até hoje, consciente ou inconscientemente, perdura a compreensão de que ela intervém na fertilidade – da mulher e da terra –, na sexualidade, gravidez e parto. E também na transição dos ciclos da vida, na cura e na morte. É, aliás, fonte de sabedoria intuitiva e seu poder emerge da conexão com as forças da Terra.

Não por acaso, lembra a pesquisadora, na Europa em transição do politeísmo para o monoteísmo, muitas igrejas dedicadas à Maria foram construídas sobre ruínas de santuários da Grande Mãe, Ísis incluída, ou em seus antigos espaços. “A Madona Negra encarna o feminino telúrico e ctônico, oposto-complementar ao feminino branco e europeu, celeste, perfeito e exclusivamente maternal de Maria”, analisa Eliana.

Nossa Senhora Aparecida se filia a essa linhagem de divindades mais próximas da terra do que do céu. Como os arquivos históricos narram, a estatueta da Virgem Negra foi encontrada por pescadores, em 1717, no rio Paraíba do Sul, na região do Vale do Paraíba, interior de São Paulo. Curiosamente, ela estava partida. A primeira lançada da rede resgatou o corpo da imagem de terracota com 40 cm de altura; a segunda, trouxe a cabeça. A pescaria, que, até aquele instante, minguava, tornou-se abundante. Esta foi a primeira intercessão milagrosa atribuída à santa. Incontáveis a sucederam, acreditam os fiéis.

Honrar a Virgem Negra significa resgatar o sagrado da matéria

Recapitulando o episódio histórico: A Mãe de Jesus na tradição católica, remanescente dos cultos à Deusa, feita de argila, tinha a cabeça descolada do corpo. Note como esse entrelaçamento simbólico ilustra perfeitamente as ideias da analista junguiana canadense Marion Woodman, autora de A Feminilidade Consciente (Paulus). Marion deu atenção especial ao corpo e à matéria do mundo em sua abordagem clínica.

“Marion Woodman compreendia a Virgem (una em si mesma) ou Madona Negra como uma metáfora da dimensão sagrada da matéria (Mater=Mãe). Ela personifica, não apenas representa, os valores que foram reprimidos e lançados na sombra pelo patriarcado monoteísta. Seja pela afirmação unilateral do espírito exclusivamente celeste, abstrato, sublimado, elevado. Seja na forma de uma religião que demoniza feminino e matéria – e os considera degradados e corrompidos. Ou seja pela afirmação unilateral dos valores da Razão todo-poderosa”, esclarece Eliana, que se embrenha mais um pouco nessa fascinante interpretação.

“Para Marion, a Deusa Negra, que emergiu tanto no imaginário europeu como no americano, aponta para momentos em que o sagrado na matéria se manifesta a fim de lembrar a humanidade de seu compromisso com o corpo, o pessoal e o coletivo, bem como com o corpo de nossa Mãe Terra”. Nesse sentido, a Virgem é negra não só porque espelha as forças que serpenteiam as funduras da terra, mas também por ser desconhecida da consciência.

O que podemos aprender com o arquétipo da Madona Negra

Trazendo essa conversa para a vida concreta, o que podemos aprender hoje com o arquétipo da Madona Negra, entrelaçado à imagem de Nossa Senhora Aparecida? Essas e todas as manifestações do Feminino Sagrado nos trazem um saber crucial para o futuro do planeta. 

A riqueza dessa simbologia, transposta para o cenário atual, por exemplo, indica que os múltiplos desequilíbrios registrados nos últimos tempos são sintomas de que o espírito (princípio masculino) e a matéria (princípio feminino) estão descompensados dentro e fora de nós. Especialmente uma vez que o patriarcado, sistema que nos governa e que confunde masculinidade com poder, gera identificações tanto em homens quanto em mulheres. Os efeitos disso, como sabemos, são trágicos. “Quando o espírito perde a noção de seus limites, entra em estado de hybris (desmedida). Aí, começa a destruir seu continente, seu vaso, justamente aquela que lhe concede forma e o torna mais humilde: a matéria”, interpreta Eliana. 

Não há dúvidas de que a Grande Mãe, fonte primordial de energia de vida para homens e mulheres e tudo o que tem forma e existe neste planeta, está desgostosa. A pandemia, na visão da estudiosa, pode ser decifrada como uma explosão de Gaia – que, aliás, sabe muito bem expressar sua ira quando necessário –, contra todas as violações a ela impingidas. 

Por isso, já passou da hora de assimilarmos essa reprimenda como um chacoalhão para nos lembrarmos do nosso verdadeiro tamanho, ou então, como uma súplica para que seus filhos e filhas colem urgentemente suas partes rompidas e vivam em estado de inteireza. 

Ah, a restauração é uma via dupla, não se esqueça.

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