Dançar Celebra o Corpo e Acorda a Alma

A dança é uma linguagem que expressamos em nossos movimentos, enquanto o corpo honra nossas raízes e serve como fonte de infinitas histórias
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12.09.2020

A dança nasceu como arte sagrada. Uma espécie de oração em que o humano se afina com a natureza, por meio dos movimentos do corpo, das batidas do coração e do ritmo do caminhar. Na dança como ritual, o Xamã se coloca em harmonia com o universo para restabelecer o equilíbrio da Terra. Na filosofia Zen, a vida é encarada como uma dança gentil, onde nos movemos de maneira integrada e espontânea. E, se até a física nos diz que não passamos de uma dança de partículas, fica ainda melhor quando nos envolvemos pelo compasso.

Como instrumento, o esqueleto lança uma ponte entre o tempo mortal e o tempo transcendental. Ou seja, sempre houve o sagrado no ato de dançar, mesmo quando seu status quo foi visto como simplesmente artístico. Para a bailarina do Balé da Cidade de São Paulo e diretora e coreógrafa do grupo VOTÚ, Jéssica Fadul, a dança é um retrato do mundo, um idioma conduzido pelos movimentos e um lugar de festa: “Acredito que enquanto dançamos, celebramos nossos corpos, nossas culturas e a conexão entre nós. Através dos séculos temos usado a dança como esse instrumento não só de entretenimento, mas também de conscientização e comunicação”.

Movimentos rumo ao autoconhecimento

A coreógrafa começou a estudar balé ainda criança. Ela explica que sua relação com os movimentos evoluiu junto com sua noção de mundo, mas que a dança ocupa o lugar de autoconhecimento: “A dança já foi ferramenta de inclusão, já foi válvula de escape, já agiu como remédio pra minha alma, já me fez sorrir, já me fez chorar. Entendi os meus limites, me apropriei das minhas potências. Aprendi a lidar com minhas diferenças e sou grata porque, sem ela, eu pouco conheceria de mim mesma”.  

O movimento sem destino certo é uma oferenda às nossas matrizes. Despertar os movimentos do corpo pode acordar outras partes adormecidas, já que todo ritual se vale de intenção. Jéssica conta que o momento de dançar é também o momento de se conectar com aquilo que se guarda nas profundezas. “Antes de começar a dançar eu me concentro no que eu quero dizer, me conecto com meu corpo e faço dele um canal enérgico para que eu possa, com seus movimentos, sussurrar todos os segredos da minha alma”.

Dança como ato de resistência

Celebrar o corpo e os rituais carregados de herança ancestral é parte da cultura a que estamos inseridos. No Brasil, entre o folclore e o erudito, a dança como conhecemos é uma fusão, essencialmente, entre indígenas, portugueses e africanos. Suas manifestações são partes essenciais da vida de um povo que se comunica com seus antepassados pela imensa carga espiritual expressa em cada movimento. 

Um exemplo disso é a dança Zulu, ritmo africano que incorpora altas doses energéticas enquanto se une à terra com os pés no chão. Nduduzo Siba, professora da plataforma Migraflix, explica que, além de celebrar o corpo, a dança Zulu é um ato de resistência. “É um coletivo de força, munição, corpo, voz e alma. Quando dançamos, nos conectamos com algo muito maior e nos comunicamos com nossos ancestrais. Todos podem praticar. Eu mesma comecei a dançar Zulu com dois anos de idade. Se você anda, você dança”, diz. 

Seja pelos movimentos ou pelo acústico tribal, a dança Zulu pode ter nuances espalhadas em ritmos como o funk, o frevo e o samba, danças brasileiras que nasceram desse encontro de culturas. Uma boa lembrança de que o ritmo alinhado ao movimento pode moldar a identidade de uma nação. 

Apesar de expressar rituais e tradições, a dança Zulu tem sido negligenciada como uma ferramenta valiosa de entendimento do passado africano e das funções políticas e históricas que representa. “Nosso Rei Shaka Zulu era um dançarino incrível e dançava antes de ir para a guerra, mostrando que podemos fazer a terra tremer só com os nossos corpos. Essa é a nossa história e a dança está em tudo o que fazemos. Quando o corpo mexe, não agradamos somente a alma, mas continuamos a história do nosso povo vivo”, explica Nduduzo.

Dança como transcendência

Transcender esse estado na dança é parte da história da professora. Em 2013, Nduduzo veio ao Brasil a passeio e, no retorno ao seu país, foi presa em São Paulo. Ficou em cárcere privado até 2017, quando descobriu junto às outras presas um novo jeito de se expressar: cantando. “O projeto Voz Própria foi coordenado pela professora da USP Carmina Juarez. Foi ela quem me ajudou a conseguir encontrar a minha voz dentro da prisão. Em liberdade, nos reunimos, formamos o grupo Mulheres Livres e passamos a cantar e contar nossas histórias, já que não podíamos mais voltar para nossas terras”.

Os anos seguintes também foram feitos de altos e baixos para Nduduzo. Entre uma viagem para a África do Sul e o retorno ao Brasil, a professora decidiu oferecer aulas de dança Zulu até que encontrou o projeto Migraflix, espaço dedicado à refugiados e imigrantes no Brasil. “No Migraflix, me juntei ao projeto Raízes na Cidade e passei a dar minhas aulas, contando a minha história, a história do meu povo e a nossa cultura”, conta Nduduzo.

A diversidade se move pela dança com facilidade, devolvendo perspectivas esquecidas ou pouco elaboradas. Somos nós que devemos reverenciar as tradições ancestrais e celebrar nossos diferentes corpos. O movimento é um convite para lembrarmos que não somos apenas um instrumento para funções básicas. E a dança é um organismo vivo, que tem capacidade de acordar o que sacode a nossa alma. Um portal para o sentir, para a liberdade e para a cura. Um despertar espontâneo e em constante movimento. ▲

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