Célia Xakriabá: Curar a Terra é Curar a Nós Mesmos

Nesta entrevista, a indígena, professora e ativista reflete sobre o período em que vivemos. E fala como nós somos a extensão do corpo da terra: Se ela está adoecida, o nosso corpo também está
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04.09.2020

Professora, ativista, poeta, mulher, indígena, pioneira. São muitos os jeitos de estar no mundo de Célia Xakriabá, 31 anos. Essa que luta pelo direito de seus parentes ao território, visto por ela como uma extensão do próprio corpo. “Nossos biomas são a porta de entrada e de saída do mundo”, diz. “São eles que geram vida e a permanência da vida na terra.”

Como a mulher, a terra tem útero, afirma. E, se a terra sofre, nosso corpo também adoece. Mirando a cura, Célia segue a luta. Pela natureza. Pelo direito de existir, na raiz, na carne e no espírito, dos povos originários. E de toda a humanidade, afinal, “quem não tem tempo, de certa forma, também está aprisionado”, ela diz. 

De peito aberto, Célia abre caminho para que pessoas indígenas ocupem não apenas seus territórios, mas também outros lugares, com a ciência e a política. Do seu povo, os Xakriabá, do norte de Minas Gerais, é a primeira a concluir um mestrado e a fazer doutorado. Também foi a primeira a assumir um cargo público, na Secretaria de Educação de Minas Gerais.

Neste 5 de setembro, Dia Internacional da Mulher Indígena, Célia compartilha com YAM sua visão, força e poesia.

O que é ser mulher indígena hoje?

Célia Xakriabá: É nascer fazendo resistência. Nascer entendendo que a nossa mãe, a nossa avó, a terra, está sendo ameaçada. Que o nosso útero está sendo contaminado. Ser mulher indígena é, sobretudo, nascer nessa resistência de luta sem ter tempo nem medo. Diante de um genocídio de mais de cinco séculos, que nunca termina, ser mulher indígena e estar na luta não é exatamente uma escolha pelo ativismo, mas é um ato de resistência. Quando temos que escolher entre ter medo e continuar lutando pela vida, a luta pela vida é o que move essa resistência de ser mulher indígena.

Em uma entrevista, você disse que a Amazônia é a vagina do mundo. Você pode falar mais sobre essa relação entre o feminino e a natureza?

Célia Xakriabá: Falei sobre a Amazônia, mas vale para outros biomas também. Eu sou do bioma do Cerrado. Eles são a porta de entrada e de saída do mundo quando entendemos os nossos biomas como útero. São eles que geram vida e a permanência da vida na terra. Mesmo depois de nascermos, só podemos continuar respirando se esse útero estiver sendo reabastecido. Nossa existência depende de manter viva essa relação do útero, da porta de entrada e de saída. É a relação do sagrado feminino. Para nós, não existe vida se não tiver a garantia do nosso território. A primeira pessoa que o governo atacou foi uma mulher. Foi a terra. E quando ataca a terra atinge todo o útero das mulheres indígenas e da humanidade. Nós somos a extensão do corpo da terra. Se ela está adoecida o nosso corpo também está.

Como o feminismo se insere hoje nas culturas indígenas?

Célia Xakriabá: Existem algumas mulheres indígenas que se colocam no lugar de feminista, mas eu digo que não dá para ser feminista sozinha, no individual. Para mim, a luta vem do coletivo. Então, a luta das mulheres indígenas surge antes do movimento feminista. Eu não me considero nesse lugar porque, para mim, mais importante do que o conceito, da vertente, é a luta coletiva, que parte do chão, do território. Fico refletindo sobre isso porque quando a gente pergunta para as mulheres mais velhas, parteiras e benzedeiras, elas não se sentem nesse lugar do conceito. Porque não é uma coisa que nasce de dentro. E eu acredito muito nas coisas que nascem de dentro porque existe muita guerra dos conceitos.

É importante entender o movimento das mulheres indígenas como essa pluralidade porque nós somos 305 povos com culturas diferentes. Nessas organizações sociais diferentes, há línguas diversas e mulheres que vivem tradições variadas. Colocar todas essas 350 diversidades dentro dessa vertente sem entender uma luta que nasce de dentro há mais de cinco séculos é correr o risco de reproduzir algumas matrizes colonizadoras. Por isso, é importante entender as matrizes das mães que nascem desse outro lugar, mas que continuam fazendo luta, e respeitando essa luta plural.

De que forma o patriarcado e o capitalismo nos afastam da conexão com a terra e com o encantamento da vida?

Célia Xakriabá: Não se pode curar o mal com a mesma enfermidade. Não se cura o mal com a mesma “patriz” colonizadora, que vem do patriarcado. O século 21 é de muitas outras coisas. Principalmente das mulheres, mulheres indígenas. É urgente ter essas redes de mulheres da diversidade. Nosso inimigo é o mesmo e, em certo momento, não tem porque a luta ser diferente. Uma mulher entende a terra, entende o corpo de outra mulher, e entende a democracia, que também é feminina. Precisamos retomar a megafonização das nossas vozes plurais.

Como você vê a situação atual, com um massacre contra os povos originários em curso e a pandemia?

Célia Xakriabá: O plano do governo brasileiro para o povo indígena é o do aceleramento do genocídio. Para grande parte da sociedade, pode não significar o extermínio da totalidade, mas, para nós, indígenas, são 756 indígenas mortos, sendo 170 anciões, vitimizados pela Covid-19. Não é somente o corpo que está morrendo, mas é uma mão de sabedoria que deixa de sustentar o nosso maracá. Já são mais de 20 mil indígenas contaminados, mais de 156 povos atingidos. Nós temos medo dessa cegueira monocular, essa cegueira social, que normaliza as mortes indígenas. Dizendo que nós somos 1% da população brasileira. Ao mesmo tempo esse quase 1% de indígenas na população brasileira, somado aos 5% dos povos indígenas na população do mundo, protegemos 82% da biodiversidades do mundo. 

Aquelas pessoas que ainda não entenderam o significado, a importância dos povos indígenas, e que conseguirem sobreviver a essa guerra respiratória, vão ter que enfrentar um segundo momento das mudanças climáticas. O planeta vai ter febre, vai entrar em convulsão. Mas, se matar os povos indígenas, vai ter matado o principal princípio ativo da humanidade. Porque a nossa luta é pela cura dos pulmões, não apenas os que fazem parte do nosso corpo, mas o pulmão da terra também.

O que é o tempo para você?

Célia Xakriabá: É a liberdade sem fronteiras. Como um rio de água corrente. Não corrente que prende. Corrente que corre livre. Por exemplo, a luta climática é uma luta contra o tempo. A luta para conseguir esse princípio ativo e combater a Covid-19 é uma luta contra o tempo. A luta contra o racismo é uma luta contra o tempo. E a luta contra qualquer forma de violência é uma luta contra o tempo. Mas as pessoas não levam a sério que a luta contra a colonização é a luta contra o tempo. Por isso, eu digo que, muito mais que uma luta contra o tempo, é uma luta pela retomada do tempo. Quem não tem tempo, de certa forma, também está aprisionado.

Qual é o maior desafio indígena hoje? 

Célia Xakriabá: Existir sem estar marcado para morrer porque, a cada vez que a sociedade e as leis calam, as balas do genocídio e do racismo falam.

O que você vislumbra para o futuro dos povos indígenas? Ainda dá tempo de reverter esse massacre e garantir vida e cura?

Célia Xakriabá: Vislumbro o existir. Para nós, indígenas, existir é sinônimo de continuar vivos, não somente o corpo, mas, principalmente, a nossa identidade. Quando matam o nosso modo de vida já nos mataram duas vezes: pelo genocídio e pelo etnocídio. Ainda dá tempo porque a terra está fazendo esse chamamento. Precisa escutar o clamor dos povos indígenas. Aquele que não se sentir sensibilizado, não ouvir o nosso chamado, porque não está sujeito a morrer pelos conflitos coloniais, como nós estamos, vai morrer pelo veneno que chega na mesa. Para a cura da terra, nós estamos fazendo um chamado agora, no dia 5 de setembro, Dia Internacional das Mulheres Indígenas.

É um encontro global, juntando todas as mulheres indígenas do mundo. Nós entendemos que curar a terra, é curar o alimento, as sementes, o fruto, o rio, a cabeça, o pensamento, o espírito… Curar a própria humanidade. A luta não é só para estar vivo, mas para manter o espírito vivo. As pessoas pensam que quem tem fome é só aquele que, por uma desigualdade social, não tem o que comer. Mas, para nós, tem fome também aqueles que estão escassos de espírito, da conexão, dessa relação que se dá com o território.

"Nós entendemos que curar a terra é curar a própria humanidade." - Célia Xakriabá

Como as pessoas não-indígenas podem ajudar a melhorar o presente e o futuro dos povos originários?

Célia Xakriabá: Não nos matando. Não é somente o Estado brasileiro que mata os povos indígenas. Matar a nossa narrativa também é um jeito de matar. Está na moda falar de necropolítica. Uma das primeira necropolíticas foi nos matar nesse projeto de 520 anos da invasão do Brasil. E segue nos matando na própria educação, ao continuar reproduzindo que quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral, essa fake news. Todo mundo deve levar essa responsabilidade, esse compromisso, de que muito maior do que a dívida externa, é a dívida histórica conosco, povos indígenas.  Para isso, além de fazer esse enfrentamento da luta, em defesa dos territórios, para garantir a respiração do mundo, porque o pulmão do mundo é indígena, precisa também, principalmente, entender a urgência de corpos indígenas ocuparem outros espaços para além do chão do território. 

Não dá para dizer que é a favor dos povos indígenas se continuar votando em bancada de deputado e senador ruralista. Não dá para dizer que é a favor dos povos indígenas sem questionar o privilégio, sem fazer a pergunta: em quantos candidatos ou candidatas indígenas vocês já votaram em toda sua trajetória de vida e se estão dispostos a votar. 

Eleger presença indígena é saldar essa dívida externa nessa sub representatividade histórica e, para nós, indígenas, a principal democracia é a demarcação dos territórios indígenas. Para mim, quem tem território, tem lugar para onde voltar. Quem tem lugar para onde voltar, tem colo e tem cura. Aquele que não tiver lugar para onde voltar, pode ter o melhor princípio ativo, que não vai sentir curada. Nossa luta não é só pelo princípio ativo que está sendo elaborado no laboratório mas por reativar o princípio de humanidade.

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