O Folclore Está Vivo

Há quem veja o Folclore, comemorado em 22 de agosto, como exotismos e lendas mas, na verdade, ele está vivo e é real. E nos ajuda a olhar para o futuro sem deixar os nossos saberes ancestrais para trás
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21.08.2020

O que vem à sua cabeça quando você pensa em folclore? Saci, caipora, festas tradicionais..? Sim, todos esses são elementos folclóricos. Mas você sabia que coisas tão habituais quanto um cumprimento, uma torta feita por sua família, um chá de ervas contra resfriado e até mesmo seus sonhos podem fazer parte do folclore? 

Te pergunto porque, para mim, essa dimensão não estava clara até me deparar com o episódio “É Tudo Folclore”, do podcast Folclore BR. Com a participação de estudiosos e artistas, o programa cita a definição presente na Carta do Folclore Brasileiro. Segundo o documento, chancelado pela Unesco, o folclore reúne os modos de sentir, de pensar e de agir de um povo baseados na tradição e que caracterizam sua identidade.

Tudo isso? Pois é. Para entender melhor o que é folclore, sua relação com a ancestralidade, mergulhei nesse universo e conversei com o jornalista e pesquisador Andriolli Costa, do projeto Colecionador de Sacis.

Folclore é lembrança que carrega afeto

“Apesar de muita gente ter o pensamento de que o folclore se restringe a mitos e lendas, na verdade, ele é muito mais amplo”, diz Andriolli, que destrincha a definição do termo a seguir. “A palavra ‘tradição’ fala sobre algo transmitido de geração a geração. Essas raízes vão formar a ‘identidade cultural’, que é como um povo se identifica no mundo externo”, observa. 

E está no afeto o grande eixo dessa identidade. Reproduzir pratos típicos, gestos e elementos oníricos é uma forma – nada racional ou lógica – de nos reconectar com algo maior, que veio antes de nós. São atos que nos permitem existir no aqui-agora, nos sentir pertencentes em qualquer espaço-tempo. Como exemplo, Andriolli cita a sopa paraguaia, uma torta salgada de milho e queijo, prato clássico do Paraguai, de onde vem sua avó materna. “Independente de onde eu esteja, faço esse prato para compartilhar com as pessoas queridas os afetos que eu já experimentei através dele. E para que elas saibam um pouco mais sobre mim”, conta.

Reparar como o Folclore está presente no nosso dia a dia também nos enriquece. “Festas de São João, comidas típicas de vários lugares, o hábito de tomar chimarrão… Cantigas de roda (como corre cotia, passa anel), benzimentos, chás de quebra pedra e até simpatias, como colocar vassoura atrás da porta para a visita ir embora ou virar o santo… Isso tudo são tradições folclóricas”, observa.

Também o movimento de chacoalhar os dedos depois de bater a mão tem uma dimensão folclórica, de acordo com o folclorista Câmara Cascudo. Andriolli lembra que esse gesto não tem um motivo ou um sentido lógico, mas é algo que as pessoas fazem há séculos porque, de um lugar interno, ele nos conecta e nos alivia. Assim como os mitos, um dos braços do folclore, são narrativas ancestrais que orientam nossos medos, sonhos e esperanças.

É hora de atualizar o que é Folclore

Ampliar o conceito de folclore é uma missão que atravessa Andriolli desde cedo, quando começou a ter contato com a narrativa oral de lendas e mitos pelos seus avós, moradores do interior do Mato Grosso do Sul. “Meu pai, acadêmico, nunca tratou com desdém as histórias que eles contavam e, sim, como respeito”, diz.  “Mas, na faculdade, vi que nem todo mundo tinha o mesmo entendimento. Muita gente achava que saci era bobagem, coisa de gente sem estudo e sem conhecimento. Eu achava isso um absurdo e comecei a pesquisar o tema em 2008”, conta ele, que está no pós-doutorado e estuda como adaptar lendas do folclore para jogos analógicos sem usar elementos racistas ou machistas.

Ainda há uma tendência a se pensar que o folclore está lá longe, no passado, como uma peça exposta em um museu. Ou até mesmo que ele é feito de mentiras e de exotismos. Mas, na verdade, o folclore é real e está vivo. Faz parte do nosso dia a dia e se atualiza com o tempo. 

“Gosto de dizer que o folclore é um caminhar para o futuro numa estrada construída pelo passado”, diz. “Nessa construção, algo acaba ficando pelo caminho. E quando aquilo não faz mais sentido, desaparece. É o caso de muitas histórias contadas no contexto da escravidão.”

Não que o racismo tenha desaparecido da nossa sociedade, mas, conforme alguns conceitos deixam de ter lugar no contemporâneo, aos poucos, lendas, mitos e hábitos vão sendo atualizados de forma orgânica, pelo maior criador e transformador do folclore: o povo.

Vassouras penduradas atrás da porta - Foto: Loiro Cunha para o projeto Vale do Ribeira, pelo Instituto A Gente Transforma
As simpatias, como colocar uma vassoura atrás da porta para a visita ir embora, por exemplo, também fazem parte do que é o nosso Folclore. Na imagem, as vassouras do Quilombo Ivaporunduva, que fazem parte do Projeto Vale do Ribeira, do Instituto A Gente Transforma. Foto: Loiro Cunha

Para se reconhecer no coletivo

Como aprendemos na escola, a palavra folclore vem da junção das palavras em inglês “folk” (povo) e “lore” (conhecimento). Ou seja, saberes do povo. É por isso que Andriolli e outros estudiosos insistem no uso do termo e não aceitam substituí-lo por cultura popular, por exemplo. “A gente tende a pensar muito o indivíduo e o folclore nos convida a pensar o coletivo: o que o povo faz, o que o povo sente”, observa. 

“A certeza de uma pessoa de que todas as suas ações são baseadas no seus próprios pensamentos e desejos cai por terra quando ela percebe que muito do que faz não é só porque ela quer, mas porque outras pessoas fizeram e ela repete sem nem perceber. Essa consciência é capaz de romper muitas coisas dentro”, diz Andriolli.  

Assim, pensar o folclore também é se repensar. E se repensar como ser coletivo. “Quando a gente consegue se reconhecer no outro, isso muda completamente a nossa forma de estar no mundo: de individual para coletiva. É esse o caminho que a gente precisa seguir hoje.”

Folclore também é resistência

Em 2019, na procissão de Corpus Christi de Ouro Preto, em Minas Gerais, um típico tapete de serragem, que retrata figuras religiosas e políticas, trazia a imagem de Marielle Franco. Como se sabe, a suspeita é de que Marielle, socióloga e política brasileira, mulher negra e periférica, tenha sido assassinada por um policial militar em um crime premeditado – e político – que segue inconcluso e causa indignação no Brasil e no mundo.

Mas nem todo mundo entende que o folclore é uma forma de expressão legítima e que se atualiza. Membros da Polícia Militar chutaram o tapete com a justificativa de que a figura de Marielle não fazia parte do folclore regional. “Esses tapetes sempre foram usados com fundo político, para criticar a presidência e políticas de saúde, por exemplo… Dentro de uma prática religiosa e folclórica há espaço para o povo se manifestar”, argumenta Andriolli. Ele cita o jornalista Luiz Beltrão, criador do estudo de folkcomunicação, segundo o qual o folclore é o jornalismo de povo. “Assim, censurar um tapete é como censurar a edição de um jornal. É uma grande violência contra o povo.” 

Para afastar esse e outros tipos de opressão, é preciso tomar consciência da influência do folclore em nossas vidas e de sua potência. Preservar e atualizar o folclore é garantir que suas histórias, gestos e sonhos cheguem a mais corpos e neles se traduzam. Nos mantendo vivos e conectados. Só um futuro que carrega a ancestralidade e seus saberes é um futuro que não deixar nada nem ninguém para trás. Afinal, o folclore é essa mensagem do passado sobre o presente e para o futuro. É como estar em devir e, a cada passo, se tornar o povo que queremos ser.

O poder de (re)contar histórias

Para uma reconexão com as nossas histórias coletivas, Andriolli nos convida a lançar sementes do folclore no dia a dia. Veja:

1. Busque onde está o folclore em seu cotidiano. Em que objetos, gestos, sons, saberes, sabores, modos de vestir e de falar ele está presente? Talvez algumas dessas coisas te despertem a curiosidade.

2. Ligue para os seus familiares. Especialmente anciãs e anciãos, e aproveite para matar as saudades e investigar essas origens. Você pode até puxar papo por temas mais corriqueiros. Por exemplo: onde sua avó nasceu ou como o casal que te criou se conheceu. “Quando você vai puxando essas histórias, vão vindo narrativas folclóricas que fazem parte da vida dessas pessoas.”

3. Passe adiante o que descobriu. Afinal, “as histórias são feitas para serem contadas e recontadas. É o gérmen da curiosidade, da inspiração, que vai fazer com que as histórias persistam e, nós, persistimos junto com elas.”

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