Uma Terra em Silêncio: É Preciso Honrar a Morte

No mês em que celebramos Pachamama, nossa Mãe Terra, e que os terreiros se curvam ao Obaluaye, o orixá-curandeiro, é preciso lembrar que ritualizar o fim é preservar memórias e ancestralidades
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19.08.2020

Flores, comidas, bebida, abraços, consolo… histórias. Me recordo daquele samba “quando eu morrer me enterrem na lapinha”, eu sempre brinco que quando eu morrer, vou querer amigas minhas na função das velhas carpideiras, um bom samba, muita comida e cachaça. Você já se perguntou sobre como quer seu rito de passagem? Como vai celebrar a morte?

Peço licença ao sistema de crenças e fé de cada leitor(a). Esta carta não pretende reforçar ou impingir crenças, mas refletir sobre o como vivemos e desnaturalizamos a Morte, para reverenciar um modelo de sociedade que abrevia as vidas. Não falarei da agência do Estado genocida e do modelo de segurança pública que assassina a cada 23 minutos um jovem negro; não falarei das lideranças indígenas assassinadas por grileiros; também não falarei das mulheres assassinadas por feminicídio. E não falarei em necropolítica – termo cunhado por Achile Mbembe –,  por mais que este conceito explique e ilustre didaticamente a naturalidade com que o “novo normal” se instaura e se normatiza ao vermos imagens de covas sendo abertas nos cemitérios municipais. 

Não, eu não falarei dessa morte ocidental colonialista e capitalista. Falarei sobre o luto e a necessidade de ritualizarmos as mortes que nos circundam. Honrar uma a uma, conhecidas e desconhecidas. Ainda que o conforto de minha casa me possibilita ter o que eu preciso para passar esse tempo-confinamento com saúde e sanidade, nada disso pode ofuscar o descaso e o impacto da ausência de políticas públicas que priorizem a Vida e respeitem a Morte, o Luto; a necessidade de nos engajarmos coletivamente em ritualizar as mortes e nos solidarizarmos ao luto das famílias que não conhecemos.

A morte e a memória da existência

De uns tempos para cá, passei a recordar dos ritos fúnebres em que estive. E para essa carta, evocarei a lembrança o meu primeiro rito de passagem. A morte de meu avô paterno Raimundo Rosa me levou pela primeira vez a um cemitério: um campo verde, muitas flores e silêncio. Naquele ambiente, o espaço mais estranho e impessoal era a sala do velório: tudo branco, asséptico. A frieza daquele ambiente, era quebrado pela presença da família reunida. Embora não estivéssemos diante das panelas de feijoada, haviam risadas e muitas histórias. Um momento singelo para preces, a espera pelo meu tio Benê que estava trabalhando e precisava chegar para o sepultamento. 

Mais de duas décadas se passaram e hoje compreendo a magia preta que minha família estava fazendo ao aguardar o irmão-filho para se despedir. Em Moçambique, meu segundo território afetivo, durante sete dias, a família se reúne para cantar, comer, rezar e contar histórias; este período é de suma importância para que todos que tiveram vínculo com quem faleceu possa prestar suas homenagens e, sobretudo, amparar e encontrar amparo entre os seus e a família. Após esse período de sete dias, o corpo é sepultado. Lá no fundo e nas memórias mais ancestrais, minha Tia Teresa, matriarca da família, sabia que era preciso orquestrar o Tempo para que todas as presenças pudessem estar na despedida.

Lembro da sensação de ver o caixão descendo e a terra vermelha-marrom sendo lançada sobre ele: ora por pás, ora por mãos que, emocionadas, pegavam um punhado e ofertavam. Ao lado da minha mãe, eu fiquei até o último segundo.

Agosto, mês de mortes, doenças e curas

Já parou para pensar que agosto é um mês curioso? Mês de muitas mortes, doenças e curas? Mês em que América Latina-andina se curva e oferta alimentos à Pachamama, mês em que os terreiros de matriz afroreligiosas se curvam e ofertam o banquete a Obaluaye, “Orixá-curandeiro, Orixá-doença” como ensina Pai Sidnei Nogueira.

Retomo a imagem da terra vermelha sendo lançada sobre o caixão de meu avô. O Silêncio, as lágrimas e algumas risadas tímidas que lembravam a beleza daquele senhor que adorava as plantas e passear com os netos. Meu avô era um preto-velho que se anunciava com um som, cantarolava e mastigava as palavras, um jeito de rezar e bendizer os seus.

Quando ele morreu, um ônibus foi emprestado pela viação do bairro, para levar as famílias que, naquela época, não dispunham de carro. Sepultamento ou excursão? Não importa, havia uma despedida coletiva acontecendo. Hoje, percebo que naquele ônibus o gurufim da família estava sendo feito; nosso velório e luto em festa pela memória de quem partiu.

Como ritualizamos a vida e a morte hoje?

Os ritos fúnebres são “como espaço para nos afinarmos à vida, uma harmonia melódica das existências e das vidas. Evitam a desarmonização e dispersão da memória existencial”, me ensinou o babalorixá Sidnei Nogueira. 

Hoje, agosto de 2020, nada disso tem sido possível. E, mais grave do que as mortes naturalizadas nas atuais circunstâncias, é a impossibilidade de desagravar coletivamente as vidas abreviadas pela negligência do Estado. As máscaras da indiferença e letargia histórica já não servem mais. Tem muita gente morrendo. Tem gente pobre preta, tem gente indígena morrendo, a história e as estatísticas mostram isso. Não é possível falar de “novo normal” diante de um Estado genocida, indiferente e desumano.

Me pergunto: quando foi que acreditamos que ficar mudos diante da Morte seria uma forma de cuidar de nossa ancestralidade? Será que somos uma sociedade-luto violentamente, seletivamente, embranquecidamente emudecida diante dessas mortes? 

Precisamos reivindicar políticas e um projeto de sociedade que respeite a Vida em todas as suas fases – incluindo o seu estágio de Morte e do Luto. Talvez, essa tal descolonização tão defendida nos círculos progressistas precise voltar os olhos para a compreensão que o ocidente eurocentrado colonial impôs sobre a Morte. Olhar para o como lidamos com Ela pode nos fazer entender o como temos lidado com a vida, com o Viver.

É preciso ritualizar o vazio que o presente nos traz


A imagem da terra vermelha com covas abertas toma o nosso olhar e a impossibilidade das famílias se despedirem dos seus nos comove. É preciso ritualizar os vazios que o presente nos traz, seja meditando, seja acendendo uma vela, ofertando pipoca no altar… É preciso encontrar formas de se conectar à ancestralidade e se mobilizar diante dos enredos que nos atravessam.

Se, ancestralmente, lá no fundo de nosso inconsciente não colonizado, a Terra, nossa Pachamama, é um ser vivo que merece ser presenteado, por que razão deixamos que as nossas escolhas ofertem tantas marcas de violência, omissão e exploração? 

Penso nos diversos mitos africanos e ameríndios que falam que a humanidade surgiu da Terra, esse elemento mater-matéria que oferece tudo o que precisamos para viver. Só encontro uma resposta cabível para os tempos que vivemos. Um princípio ético presente em diversos projetos de revalorização identitária de países latinos-americanos. Onde a humanidade é devolvida para o seu devido lugar: como parte integrante desse sistema vivo que é a terra, a humanidade como húmus, nos fazendo recordar que somos seres-terra. Um jeito de entender e compor uma sociedade, onde a vida (em todas as suas formas) é o centro.

Ilustração de Omolu, entidade de origem africana que tem o corpo coberto de palha
Omolu, aquele que tem o corpo coberto de palha. Sua presença é cura e é preciso sair desse estado de cegueira que não nos coloca na realidade

Um resgate da autoestima e tradições ancestrais

A Terra, Pachamama, é colocada no centro da Constituição e em seu nome, por ela, países como Equador e Bolívia devolveram às comunidades tradicionais a autoestima e o valor das tradições ancestrais. Humanos que somos, precisamos reaprender com os povos tradicionais e originários que somos parte desse corpo-vivo que é a Terra. Ela nos acolhe e nos dá a colheita para o viver. 

Que aproveitemos a passagem desse Tempo-Agosto, para compreender que a doença dessa sociedade se manifesta no esquecimento e na desigualdade entre as vidas. Nas violências que 53% da população enfrenta e a luta por sobrevivência desses grupos subalternizados. 

Eu aprendi com Omolu, aquele que tem o corpo coberto de palha, que a sua presença é cura, que a sua manifestação e expressão trazem a cura. Não podemos continuar vivendo um estado de cegueira que só se permite ver e viver branco. 

Um minuto de silêncio não dão conta de velar e honrar as tantas vidas abreviadas historicamente, cotidianamente. Aos vivos: que a vida possa ser mais coletiva daqui em diante. O Luto é verbo que evoca o coletivo.

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