Um Salve ao Pajé Yawa!

Para honrar o Dia Internacional dos Povos Indígenas, YAM reverencia o legado de luz e amor do Pajé Yawarani, líder espiritual dos Yawanawá. Ele partiu em 2018, mas sua sabedoria continua transformando vidas
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08.08.2020

A passagem dele por esta Terra durou 106 rotações em torno do sol. Deitado na rede, enquanto cantava e contava histórias, Yawa virou silêncio. Era manhã. Um dos últimos anciãos do povo Yawanawá, o Pajé Yawarani, regressou para sua verdadeira casa, a morada espiritual, em 28 de março de 2018, deixando um legado de luz e amor que YAM tem a honra de reverenciar nesta homenagem.

“É o tempo do homem voltar para sua origem. Para a terra. O nosso coração. Olhar a terra. Saber amar uns aos outros, saber se respeitar. Buscar alianças, se solidarizar”, disseminava Yawa, como era carinhosamente chamado por sua gente, que vive e cuida da Floresta Amazônica, às margens do Rio Gregório, na divisa com o Peru. Sábio e doce como poucos, o maior líder espiritual do Acre em seus últimos anos de vida dizia que ainda lhe faltava muito a aprender.

Yawa foi testemunha da história do Acre. Viveu o contato com os brancos que chegaram ali para a exploração da borracha e subjugaram os Yawanawá para dar vazão à sua ganância sem alma. Também assistiu sua cultura ancestral ser violada por missionários evangélicos americanos, que, tomados pela sanha colonialista, impuseram sua religião aos povos nativos, demonizando as medicinas e as cerimônias enraizadas no espírito indígena. 

Direção: Marcos Lopes

Yawa e a valorização dos saberes ancestrais

Mas um povo que respeita seus velhos e zela pela memória encontra guarida nas histórias que, quanto mais gastas pela oralidade, mais vivas se mantêm. Yawa era guardião da sabedoria dos seus ancestrais e se esmerava em transmitir conhecimento para os mais jovens. Ele sabia da importância de se perpetuar os saberes tradicionais. Narrava lendas, orientava rituais, corrigia o andamento dos cantos. Era ouvido com um respeito raro de se ver na sociedade contemporânea. 

Graças a Yawa e aos demais anciãos da aldeia, esse legado inestimável pôde ser resgatado a partir dos anos 1980, quando os Yawanawá expulsaram os invasores do seu território e reassumiram a autonomia sobre sua existência debaixo do sol e das estrelas. De lá pra cá, a cultura desse povo se fortalece dia após dia, paralelamente à luta cotidiana pela sobrevivência em seu território original e pela preservação de sua identidade.

Índigenas da tribo Yawanawá em ritual

O essencial está na terra e no espírito

Yawa fez morada no coração de muitas pessoas, dentro e fora da aldeia. Uma delas é o fotógrafo e diretor cinematográfico paulista, Marcos Lopes (@marcoslopes.ml), que o conheceu em 2009, em meio às suas buscas espirituais. A imersão no coração da mata, acolhido por um povo feliz por viver em abundância e partilhar o que sabe, foi um divisor de águas, ele reconhece com devoção.

“Voltei à essência da vida, à terra. Pude sentir todo o amor e o respeito pela floresta, onde a vida renasce, todos os dias, mais verde. Riqueza natural que cura através de suas raízes. Sabedoria ancestral que nos conecta com toda a força da natureza, da terra e dos animais. O sopro do pajé me fez espantar o medo, fazendo crer que ainda há tempo. Que a preservação da floresta e os ensinamentos desta cultura podem nos ajudar a curar o planeta”, declara Marcos.

Nos anos seguintes, ele retornou para os festivais xamânicos em que os Yawanawá recebem visitantes brasileiros e estrangeiros. Queria aprofundar cada vez mais a conexão com a natureza e com a espiritualidade indígena. Os registros fotográficos dessas visitas deram origem à uma exposição, em 2012, na Rio +20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada no Rio de Janeiro, e depois viajaram para o exterior. Agora, a exposição está sendo relançada no Instagram: @Yawanocoracaodomundo

Pajé Yawarani em ritual Yawanawá

Honrar o passado para viver o futuro

Com esse povo festivo, hospitaleiro e espiritualizado, Marcos aprendeu a ver a vida sob outra lente, mais simples e essencial. E muito distante da superficialidade e do consumismo desenfreado dos grandes centros. Ele fala de Yawa, símbolo da amorosidade dessa comunidade nativa, com carinho de neto. E uma gratidão sem tamanho. 

“Sempre vou me lembrar da alegria imensa no coração do Yawa. Centenário, ele cantava e dançava a noite toda nos rituais com uma energia inacreditável”, lembra o fotógrafo. Marcos, inclusive, guarda como um tesouro o conselho-chave que, certa vez, recebeu do ancião. “Se você quer que a doença não te pegue, pratique o bem, seja feliz, tenha amor no coração e alegria”.

Pajé Yawarani com menino Yawanawá

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