Um Xirê-Pajelança pelo Bem-Viver

Por que a luta das mulheres negras é uma luta de todes? E por que quando uma mulher negra se movimenta, o mundo se move com ela?
7 minutos de leitura
24.07.2020

Essas são perguntas que norteiam e provocam esse ensaio, carta, texto, desabafo. Quem vê, no mês de julho, as capas das revistas, sites anunciando colunistas negras e espaços sendo ocupados por negras, não imagina que isso é fruto da luta dos movimentos de mulheres negras. Sim, devemos falar e pensá-los no plural para darmos conta da diversidade do que é ser e compreender-se mulher negra no Brasil. Devemos olhar para esses espaços ocupados e entender que não são portas que se abrem em vão. Todo lugar que se abre para que mulheres negras os ocupem se tornam espaços de luta. E é preciso rever-se estruturalmente para que mais e mais negras estejam nele.

Julho não é um mês qualquer. É um mês onde articulações poderosas de nós, mulheres negras, ganham o mundo em forma de arte, festivais, encontros, marcha! Julho é mês sete, número sagrado, número que manifesta a força dos caminhos. E de quem nos guarda nas encruzas e nos dá força para chegarmos até aqui.

De Luiza, aquela do crânio que sobreviveu ao incêndio no Museu Nacional, passando por Luiza Mahin, Teresa de Benguela, Xica Manicongo, Maria Felipa, Esperanza Garcia, Carolina Maria de Jesus… chegando em Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra… aprendendo com Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo, Jurema Werneck, Helena Theodoro… e acompanhando a caminhada das de agora: Bianca Santana, Renata Martins, Érica Malunguinho, Maria Clara Araújo, Nega Duda, Beth Beli, Wannia Santana. Claudinha Alexandre, Priscila Obaci, Juliana Gonçalves, Neon Cunha, Carmen Faustino, Angélica Ferrarez, Marilea Almeida, Jaque Fernandes… e relembrando os almoços familiares, onde minhas tias faziam feitiços de amor, afeto e cuidado nas panelas… Nossos passos vêm de longe e os feminismos negros nascem nos quintais, nos terreiros e ganham o asfalto.

Ilustração de mulheres negras conversando

Por que o Dia da Mulher Negra

Nessa caminhada por construir, reconstituir e preencher as lacunas, os esvaziamentos, as distorções da história hegemônica “brancocêntrica” é que novos marcos são criados, reorganizando a estrutura e o poder vigentes. Promulgada no dia 2 de junho de 2014, a Lei nº 12.987, institui o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, ou, em alguns casos, Dia da Mulher Afrolatina Caribenha.

Há quem se pergunte a importância de se criar uma data como essa, há quem defenda que somos todos humanos e que não se deve distinguir nossas humanidades por meio de datas, afinal não existe o dia do homem branco ou o dia da branquitude… será?

Embora o Tempo na ancestralidade seja algo fluído – passado/presente/futuro são fluxos indissociáveis –, em uma sociedade colonizada que vive à sombra de um passado escravagista não assumido, de uma racialização incompreendida e um racismo estrutural bem fundamentado, as datas, os marcos e nomeação deles pensando o protagonismo histórico dos grupos subalternizados, se faz necessário. E são frutos de muita luta dos movimentos sociais, nesse caso, do movimento negro. E vale sempre ressaltar que a data de 13 de maio [Lei Áurea] não representa a nossa luta e busca incessante pelo direito de sermos quem somos: pretxs.

25 de julho é um data que marca as trajetórias, as atuações e os caminhos que as coletividades de mulheres negras, sobretudo na diáspora latino-americana, promovem. Não por acaso, é neste dia que mulheres negras e indígenas saem em Marcha e ocupam as avenidas dos principais centros urbanos do país. Já se perguntou para onde marcham as mulheres negras e indígena no dia 25 de julho?

Dia da Mulher Negra e ocupações nas redes

Ainda que nesse 2020 a Marcha das Mulheres Negras e Indígenas não ocupe as ruas com os corpos, cantos e rezos, há de ter uma ocupação simbólica nas redes sociais. Há de se estranhar se ao longo dos próximos dias, na sua timeline não passar nenhum post divulgando a programação do Julho das Pretas. Há de se estranhar se no dia 25 de julho, você não ler nenhum artigo escrito por uma pensadora negra sobre esta data tão emblemática às lutas por igualdade.

Movidas pelo BEM-VIVER, mulheres negras indígenas constroem e caminham nessa Marcha culminância das diversas ações e lutas que acontecem no antes e depois de julho. BEM-VIVER, duas palavras que precisam ser grafadas em letras garrafais para se registrar em nossas retinas e despertar um novo paradigma de vida e de formas de viver em sociedade. De reestabelecer as comunidades e conectar-nos à corresponsabilidade pelo mundo que vivemos.

BEM-VIVER, conceito apreendido e incorporado ao movimento de mulheres negras brasileiras a partir do encontro com os saberes dos povos indígenas. É dessa intersecção ancestral que fortalecemos nossos passos e vislumbramos horizontes possíveis. Um horizonte conectado e integrado com o direito a EXISTIR. Nossos passos em marcha, em samba, em toré, em ijexá… nosso caminhar clama pelo direito às nossas existências: futuras – presentes – passadas. 

Ilustração de mulheres negras marchando

A luta é coletiva e é preciso sonhar

As pautas, os debates e as reflexões propostas pelas diversas coletividades que compõem a programação do “Julho das Pretas” dão o tom de que a sociedade na qual as mulheres negras estão dispostas a construir e destruir e reconstruir não se dará com ícones, ídolos e individualmente. 

A nossa luta é coletiva. Lutamos uma luta que se dá na base, no chão de terra batida dos quintais e ganha as ruas, as redes e os imaginários. É necessário sonhar. Ainda que os tempos turvem nossos olhos e nos fazem ver o dia e noite adentrar pela fresta da janela, sem que o vento toque nossa pele, é preciso sonhar e lutar. É preciso que os corpos hegemônicos se disponibilizem a rever os espaços que vêm ocupando e se permitam o deslocamento.

Todo 25 de julho, mulheres negras e indígenas deslocam-se e evocam dizeres em praça pública, evocam palavras de ordem e realinho do tempo. É preciso abrir os cinco sentidos para ouvir e entender o ritmo desses passos. Dona Ivone Lara já conclamou que é preciso pisar nesse chão devagarinho. Se achegar na luta e reorganizar o imaginário para novos referenciais e novas possibilidades de CO-VIVER.

É preciso responder com o corpo e escuta: quem vem quando o movimento de mulheres negras e indígenas chamam?

Boa Marcha!


Maitê Freitas é jornalista. Mãe. Gestora Cultural. Ensaísta. Mestre em Estudos Culturais. Doutoranda em Mudança Social e Participação Política. Trabalha com narrativas e protagonismo de mulheres negras no audiovisual, no samba e na literatura. Idealizadora da editora Oralituras, da coleção Sambas Escritos, da plataforma Samba Sampa e colabora com o projeto Empoderadas.

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