Cabelos como Caminho para a Liberdade

Para se ajudarem na luta contra a escravidão, mulheres negras trançavam nas cabeças, umas das outras, rotas de fuga para os quilombos; filme Irun Orí documenta essas histórias orais
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23.07.2020

Do idioma milenar yorùbá, falado em diversas regiões da Nigéria, Benin e em outros países africanos, a palavra Irun significa cabelo e Orí, cabeça. Juntas, formam o nome do filme Irun Orí, prestes a ser lançado de forma independente e autoral pela diretora, roteirista e fotógrafa nordestina Juh Almeida, que pesquisa há anos sobre identidade e resistência negra atrelada ao cabelo. Com imagens feitas no Brasil e em Moçambique, a obra aborda uma história oral, passada de geração em geração entre famílias que sofreram com o regime de escravidão, em que mulheres trançavam mapas nos cabelos umas das outras para não se perderem nos caminhos de fuga para os quilombos. 

Em formato de documentário ensaístico, Irun Orí traz não só a luta pela liberdade e sobrevivência, mas também o poder de comunicação e de união atribuído ao cabelo dessas mulheres. Na semana em que celebramos o Dia Internacional da Mulher Afro-Latina, Americana e Caribenha e também o Dia Nacional da Teresa de Benguela e da Mulher Negra, conversamos com Juh Almeida sobre seu novo, profundo e importante trabalho.

Quando e como surgiu seu projeto de montagem do filme?  

Juh Almeida: Ele começou em 2018 com um piloto chamado “o que meu cabelo tem pra te dizer”. Eram pílulas documentais onde mulheres negras contavam suas experiências a partir dos seus cabelos, sejam elas de construção da identidade, desvencilhamento do embranquecimento social ou de situações de racismo a qual foram submetidas. No final das entrevistas, eu ainda não me sentia satisfeita e quis avançar um pouco nesse debate. Cabelo é algo que estudo há um tempo e que sempre me interessou.

Então resolvi me aprofundar mais nas pesquisas e cheguei na história oral em que se conta que, com o cruel processo de escravidão das sociedades africanas, o cabelo exerceu a importante função de condutor de mensagens como parte de um complexo sistema de linguagem. Nele, as mulheres trançavam mapas nos cabelos umas das outras para não se perderem nos caminhos de fuga para os quilombos, e foi a partir daí que surgiu Irun Orí, uma pesquisa dentro de outra pesquisa. Então fiz algumas imagens no Brasil e, depois, completei com imagens feitas em Moçambique.

Mulher negra com pente no cabelo. Foto: Juh Almeida

E como você conseguiu chegar nessa história, que é oral, sobre os cabelos e além deles? 

Juh Almeida: Desde que eu comecei a pesquisar cinema negro, a entender minha árvore genealógica e a estudar meus antepassados, de onde eu vim, para poder me entender neste mundo de hoje, eu pude observar que nem todas as nossas histórias foram documentadas ou escritas em livros de história e artigos acadêmicos. E descobri que muitas das nossas narrativas são passadas de forma oral pelas relações mais velhas. Eu tenho estudado muito sobre isso, tanto que o meu primeiro filme, chamado Náufraga, trata de uma história dos meus antepassados que vieram por navio negreiro para serem escravizados. Quando viram aquela condição, decidiram se jogar ao mar, porque o mar seria o acalanto e o refúgio para não terem o seu nome mudado e sua religião tirada.

Nessas minhas pesquisas, surgiu também o mapa nos cabelos que davam um suporte para os nossos antepassados se apoiarem coletivamente para chegarem ao quilombo em segurança, que era o lugar de encontro e de refúgio. E eu, enquanto criadora de imagem, me vi nesse lugar de responsabilidade em trazer à tona essas histórias que não estão nos livros. Essas histórias não têm data ou comprovação, mas eu acredito que, se estão aí, é porque existiram e foram contadas de uma pessoa até outra. Elas chegaram até a mim. E é por isso que eu fiz este filme. Para ter esse documento.

E além de documentar a história, o que você busca despertar com ela, entre nós? 

Juh Almeida: Eu sempre faço essa pergunta para mim mesma quando estou imersa em algum projeto autoral. “O que esse filme desperta em mim?”, “o que estou querendo dizer com ele, afinal?”. Irun Orí, para mim, é antes de tudo uma convocação à comunidade negra ao aquilombamento, ao pensar coletivo, ao alinhamento de debates. Eu acredito na comunicação como ferramenta crucial para construção e progresso. E o que seria essa história, se não nossos ancestrais nos ensinando sobre identidade e a importância de sermos aliados, e de como nossos cabelos fazem parte desse movimento e nos ensina sobre nos reconhecermos e nos apoiarmos?

Há muitos filmes sobre cabelo e identidade negra por aí, principalmente dentro do circuito de cinema negro pelo qual estou inclusa, e sei do risco que corri ao escrever mais um, mas acredito na potência dele. Irun Orí vai muito além do cabelo. Essa é a premissa, mas ele mexe com memórias, com árvore genealógica, com passado, com futuro e, acima de tudo, com ancestralidade. E se esse filme mexeu com coisas dentro de mim, eu espero que ele alcance as pessoas também, principalmente as mulheres negras como eu.

4 mulheres negras com tranças no cabelo, vistas de cima. Foto: Juh Almeida

Que memórias e histórias você traz que honram essa ancestralidade, honram o cabelo?

Juh Almeida: Para nós, pessoas negras, o cabelo é uma arma muito poderosa de identidade. É como a gente se afirma no mundo. Por experiência própria e escutando amigos e pessoas próximas a mim, vejo que o debate sobre o cabelo é algo muito importante e tem um impacto direto de representação. Em Maputo, no Moçambique, conheci o Salão da Constance, que é a parte documental que aparece no filme. Constance diz que foi mexendo no cabelo de outras pessoas que ela encontrou sua forma de resistir, de construir quem ela é e quem é sua própria família. Cabelo, para ela, é sustento. E também é resistência. Com isso, eu criei uma conexão sobre como Brasil e África estão entrelaçados também nos nossos cabelos. Porque lá, eu, que sou baiana, consegui enxergar a Bahia nos cabelos das mulheres que eu via na rua.

Qual a importância de trazer esta relação com o passado para os dias de hoje?

Juh Almeida: Eu acho que honrar a ancestralidade é se entender nesse mundo. Entender que estamos aqui com um propósito. Entender que tiveram pessoas que perderam a vida lutando por ser negro no Brasil, onde fomos atravessados pelo processo de escravidão, de apagamento histórico, de embranquecimento social. É como se hoje fôssemos a resposta desses ancestrais que não conseguiram ficar vivos e que morreram lutando. Acho que a nossa vida e a nossa existência é uma potência, são os galhos desta árvore genealógica e o que ficou dos nossos ancestrais.

Então precisamos nos colocar no mundo e continuar lutando, porque ainda existe o genocídio da população negra e ainda existe um apagamento. Acho que honrar essa ancestralidade é ter a responsabilidade de falar e de se posicionar. E a forma que eu escolhi transitar neste mundo é através das minhas imagens. Porque, mais que a minha fala, acho que as minhas imagens tentam trazer isso. E tentam também seguir na contramão do que a gente vê atrelado às imagens das pessoas negras. É uma desconstrução. Então, hoje, honro minha ancestralidade descolonizando esse imaginário que foi criado em cima da pele negra.

Menina negra com tranças no cabelo. Foto: Juh Almeida

Qual sua relação pessoal com o filme?  Tem histórias com seus cabelos?

Juh Almeida: Aprendi na prática, desde cedo, que meus cabelos chegavam antes de mim nos lugares, e nem sempre de uma forma agradável. Cabelo era algo que me inquietava desde minha infância. Aliás, as primeiras situações de racismo que passei foram por conta do meu cabelo. Por ser negra de pele clara e ter uma certa passividade, meu cabelo virou alvo. E eu o experimentei de diversas formas: black power grande e cheio, curto, colorido, dreads, etc., mas em nenhuma das vezes eu fui poupada. Bom, eu precisava fazer algo a respeito e aí está: Irun Orí é uma resposta, é uma resistência.

Tem previsão de lançamento? Onde podemos nos informar sobre isso nos próximos meses?

Juh Almeida: No início da pandemia, revisitei o filme e acabei colocando-o de novo em processo de montagem, com prazo para terminar em setembro. O lançamento está previsto para ser em janeiro de 2021. E como eu quero que circule em festivais, escolas, cineclubes e oficinas, estou sem pressa. Mas em janeiro estará pronto para rodar o mundo. Quem quiser acompanhar o processo, pode seguir meu perfil no Instagram (@juh_fotografia) e na plataforma Vimeo (Juh Almeida).

Mulher negra com pente no cabelo, se olhando no espelho. Foto: Juh Almeida

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