Bumba Meu Boi: Brincadeira que Alimenta a Alma

Representando o ciclo de morte e de ressurreição, esse patrimônio cultural ensina sobre a formação da sociedade brasileira e mantém acesa a chama de comunidades tradicionais
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No dia 29 de junho, o Largo de São Pedro, em São Luís do Maranhão, se alegra com cores e sons. Fitas, lantejoulas, tecidos estampados e bordados enfeitam os brincantes, jeito gostoso de falar dos participantes do Bumba Meu Boi. Eles dançam coreografias, encenam e cantam. O som fica por conta das matracas, pandeirões, maracás e tambores que fazem tremer o chão e aquecem o coração. O dia é feriado no Estado e comove toda a gente. 

“Esse é o dia mais marcante. É a brincadeira toda, gente de todo lugar…”, me conta, saudoso, Mestre Castro, do Boi de Pindaré, um dos cinco sotaques (ou estilos) dessa manifestação cultural no Maranhão. Ele é nascido no Quilombo Bacurizeiro, na Baixada Maranhense, onde o convívio com o boi vem do berço. Aos 74 anos, se lembra de quando o desafiaram a fazer sua primeira toada (uma canção para o boi) aos 9 anos de idade. 

“Eu tinha uma matraca – dois pedaços de madeira, que a gente bate um no outro. Toquei e cantei. Os olheiros – que buscam talentos no boi como os que buscam no futebol – se admiraram e viram meu futuro como cantador”, conta. Hoje já são 52 anos no Boi de Pindaré. Pioneiro no sotaque de mesmo nome, o grupo foi fundado em 1960. No estilo Pindaré, conhecido também como Baixada, matracas e pandeiros dão o tom, e o personagem mascarado Cazumbá se encarrega da diversão.

Preconceito e perseguição ao Bumba Meu Boi

“Antes a polícia vinha, tinha horário para o boi brincar. Depois do sucesso do Coxinho, a cultura alavancou legal”, me diz Mestre Castro, sobre a importância do Pindaré para a aceitação do boi em todos os espaços sociais. A toada “Urrou do Boi”, lançada em 1970 por Mestre Coxinho, grande cantador do Pindaré, é considerada o Hino Cultural e Folclórico do Maranhão desde 1991.

De origem popular, a manifestação cultural sofreu perseguições policiais e da elite e chegou a ser proibida de 1861 a 1868. Mas muita coisa mudou e, em 2019, ela passou a ser considerada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, ao lado da capoeira e do frevo.

Raízes, lendas e legados do Bumba Meu Boi

O Bumba Meu Boi surgiu de uma lenda que envolve as três raças formadoras da sociedade brasileira: branca (europeia), indígena e negra (africana). A história diz assim: o negro Pai Francisco, que cuida do rebanho em uma fazenda, recebe um pedido de Mãe Catirina, sua esposa grávida. Ela deseja comer a língua do boi mais estimado pelo patrão branco. Francisco fica, então, diante de um conflito: ser fiel ao dono do boi ou ao desejo da sua esposa.

“Esse é um dilema clássico de grupos negros rurais que, até hoje, trabalham em terras de supostos donos”, me explica Luciana Carvalho, doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. “O dilema consiste em garantir sua reprodução física e simbólica, material e cultural, versus manter obediência ao ‘patrão’ em situações sempre desfavoráveis”, diz ela, que é autora da tese “A graça de contar: narrativas de um Pai Francisco no Bumba Meu Boi do Maranhão”.

Sabe como é desejo de grávida… Se não atender, o rebento sai com a cara do desejo frustrado, segundo a crença popular. Assim, Pai Francisco corta a língua do boi e Catirina mata a vontade. O boi é encontrado muito doente, deixando o patrão furioso. Para contornar a situação, Pai Francisco chama um médico, que não dá jeito. Só o pajé de uma tribo indígena consegue ressuscitar o boi. Repleto de enfeites, o animal ganha uma festa com a participação de todos. 

Boi Pindaré em cerimônia do Bumba Meu Boi
Representação do Boi Pindaré. Foto: Pablo Monteiro
Mestre Castro fala sobre a cerimônia do Bumba Meu Boi
Mestre Castro. Foto: Pablo Monteiro
Crianças assistem a cerimônia do Bumba Meu Boi
Crianças assistindo à cerimônia do Bumba Meu Boi. Foto: Ingrid Barros

Bumba Meu Boi e sua crítica social

Ao encenar a lenda e transformá-la em ritual, as comunidades populares não deixam essa história morrer e se tornam seus protagonistas, além de fazerem uma sutil crítica social. Mas isso incomodou bastante a burguesia. “Até pouco tempo atrás precisava de autorização para o boi brincar”, diz Ester Marques, pesquisadora de cultura popular e professora da Universidade Federal do Maranhão. “Era considerado coisa de bêbado, de preto, de pobre.”

Os grupos, vindos da periferia, eram proibidos de pisar na área central e paravam no bairro João Paulo. Ano após ano, o local se tornou um ponto de encontro de muitos grupos no dia 30 de junho. É o dia de São Marçal, que se tornou o Dia Nacional do Bumba Meu Boi.

Hoje, a manifestação tem representantes de classes mais altas e inclui concursos das índias e dos vaqueiros mais sarados, o que “autorizou” sua entrada no circuito turístico oficial da cidade. As comunidades tradicionais – algumas delas que mantêm grupos de bois há mais de cem anos – passaram a se apresentar nos centros urbanos, em outros Estados e até fora do Brasil, espalhando a cultura maranhense aos quatro ventos.

Deusa Deméter e os ciclos da terra

O dia 29 de junho marcou também o nascimento da mãe de Ester, em Guimarães, no interior do estado. “Minha avó entrou em trabalho de parto e, ao invés de trazer uma parteira, meu avô chamou um grupo de boi”, lembra ela, entre risos. “Minha mãe era alucinada pelo Bumba Meu Boi, uma grande folclorista da cidade. E eu me tornei pesquisadora.”

Além de acadêmica, Ester também é brincante. Ela diz que, quando começou a brincar no boi, era bastante incomum a participação de mulheres, que hoje presidem e são mestras de muitos grupos. Outra grande mudança dessa manifestação cultural ao longo dos anos.

Mas o boi não se vive só de junho. Os ensaios começam no Sábado de Aleluia – logo depois da Sexta-feira Santa, em abril. É quando o tema do ano é escolhido e as novas toadas e encenações são colocadas em prática. No dia 24 de junho, dia de São João, vem o batismo do boi, quando a carcaça feita de camurça ou de couro, e toda enfeitada, recebe a bênção de uma autoridade do grupo ou de uma religião – católica, protestante ou de matriz africana, como a umbanda, o candomblé e as encantarias. Batizado, o boi pode sair às ruas para brincar até o fim do mês.

O boi representa o renascimento

Mas algumas outras apresentações mais esporádicas acontecem até setembro, quando é encenada a morte do boi. “É um sacrifício. O boi tem que morrer para renascer no ano seguinte”, me explica Ester. Ela diz que Mário de Andrade, famoso escritor brasileiro, que era também folclorista, comparava esse rito ao de Deméter, deusa grega dos grãos e da agricultura, responsável pelo ciclo de vida e de morte da terra. É a metáfora da jornada dos animais, dentre eles, nós, humanos, neste solo. Nossas despedidas e nossa renovação.

Por isso, depois da morte do boi, os grupos desmontam tudo e começam a preparar a festa do próximo ano, com roupas e cantos novos. “O Bumba Meu Boi dá vida às comunidades – é lugar de encontro e de trabalho, cria relações afetivas e de parentesco. Junho é o ápice, mas isso acontece o ano todo”, me conta Ester.

Remédio para os dias, alimento para a alma

Este ano, diante do isolamento imposto pelo novo coronavírus, o Bumba Meu Boi não vai sair para brincar. Para manter a tradição viva, os grupos fizeram o batismo com a presença de poucas pessoas e os cuidados necessários. Alguns estão fazendo lives para compartilhar essa cultura com o público nesses novos tempos.

“Tenho mais de 70 anos brincando e só isso que parou o boi”, me diz, com pesar, Mestre Castro, que adora uma boa prosa e levar o Pindaré para brincar Brasil afora. Ele me diz que o boi faz parte da cultura de sua gente, é sua religião e sua alegria, e que, sem festa, parece que a vida não está acontecendo direito. “Sem boi, fico com banzo, a saudade que matava os negros da África quando chegavam aqui. O boi é minha alimentação, meu remédio.”

A mãe de Mestre Castro foi brincar em outro plano quando ele tinha 9 anos de idade, na época em que a febre amarela matava. “Hoje tem vacina. Essa doença também vai ter vacina. Que é para o povo ter a liberdade de voltar a brincar”, diz, com a esperança de voltar a tomar seu remédio, um alimento para sua alma e para a dos que brincam juntos no desejo de morrer e renascer como um boi, em toda a sua força, ano após ano.

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