Festas Juninas: Herança dos tempos pagãos

O solstício de inverno se mescla às homenagens aos santos católicos, perpetuando a conexão ancestral com os ciclos da natureza. Saiba como se conectar aos ciclos e desfrutar desse tempo
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“São João, acende a fogueira do meu coração”. A cantoria da minha avó tocava meus ouvidos de menina atenta à letra das músicas que ressoavam pela casa no mês de junho. Àquela altura, não sabia que as festas juninas ecoavam um tempo muito, mas muito anterior às memórias da roça que minha avó partilhava conosco.

Sim, os homenageados nas quermesses em todo o Brasil são santos católicos – Antônio, João e Pedro -, mas o espírito das festas juninas é pagão e seus símbolos se perpetuam até hoje quase em segredo. Podem ganhar outras roupagens, mas sua essência permanece intocada.

“Nenhum ser humano vive sem cerimônias. A natureza mostra isso. O amanhecer demarca o começo do dia, o entardecer aponta a chegada da noite para que possamos nos preparar para dormir. Dias e noites, vida e morte, primaveras e outonos”, poetisa José Henrique Fonseca, professor da Escola Internacional de Filosofia Nova Acrópole, numa live sobre o tema. 

Segundo o estudioso, quando nos apropriamos dos significados dessas celebrações, expandimos nosso olhar e escapamos da mera repetição superficial dos costumes. “Isso porque a cerimônia integra razão e emoção e nos conecta com as tradições ancestrais para percebermos que o que acontece fora, na natureza, também acontece dentro de nós”, explica Fonseca.

Os antigos festejavam as estações do ano e a renovação da vida

Como sabemos, tudo o que a humanidade já criou engrossa o caldo do inconsciente coletivo. Nosso ser, ávido por sentido, se nutre desse imaginário atemporal onde as mais diversas culturas se entrelaçam, revelando a beleza profunda e criativa da alma humana.

É nesse território dos ritos, encenados e reencenados todos os anos, que celtas, druidas, gregos e romanos celebravam as estações da natureza, o caráter cíclico do tempo, a possibilidade renovada ano após ano de plantar, colher e, assim, perpetuar a vida.

Nesse calendário festivo, havia os solstícios de verão e inverno (o dia mais longo e o mais curto do ano, respectivamente) e os equinócios de outono e primavera (quando o dia e a noite têm a mesma duração). Fenômenos desencadeados pelo movimento da Terra em torno do Sol. Cada qual com seus simbolismos e lições particulares a serem assimiladas e aprofundadas a cada novo giro.

Primavera, tempo de despertar, renascer; verão, hora de realizar, exteriorizar; outono; momento de saborear os frutos e desapegar; inverno, parada para o recolhimento, voltar-se para dentro do casulo e aguardar o ciclo vindouro com mais sabedoria.

“Como os dias são curtos no inverno, sobra muito tempo para refletir, para pensar na transcendência das coisas, meditar. Todo biólogo sabe que esse recolhimento do inverno é necessário para a vida renascer adiante”, afirma o professor.

Resquícios pagãos se mantêm vivos nas festas juninas

É nesse ponto da conversa que podemos então fundir o solstício de inverno no hemisfério sul e as festas juninas. Como os antigos, dançamos ao redor da fogueira, preparamos quitutes à base de milho e batata-doce, alimentos armazenados no outono. Ainda comemoramos a possibilidade de se formar casais, aquecidos pela chama do amor, e espantamos sentimentos negativos com fogos de artifício.

Sem saber, repetimos gincanas e brincadeiras antiquíssimas. Sabe aquele trecho da música: “Pula a fogueira, cuidado para não se queimar”? Pois então, eis aí um vestígio longínquo que permanece vivo. “Os celtas pulavam fogueiras numa festa comemorada em junho, chamada Litha, celebração do solstício de verão no hemisfério norte. Também faziam magias e adivinhações e danças de pares de jovens em torno de um mastro com fitas”, conta o professor.

Desse jeito colorido e animado, mesclando a essência pagã aos costumes de portugueses, indígenas e africanos, nós, brasileiros, honramos os meses frios que nos espreitam como um convite para viver em verdadeira intimidade com a gente mesmo.

São João simboliza nossa essência luminosa

Agora, se abaixarmos o volume das sanfonas e o fuzuê das quermesses, poderemos acessar a camada espiritual das festas juninas. Segundo Fonseca, elas também são a lembrança de que somos divinos, eternos e sagrados. De que temos uma fogueira dentro de nós. Uma essência luminosa. 

“O inverno, período em que está situado o São João, é tempo de meditação, de abandonar o apego à matéria e se aproximar do caminho do espírito. Em outras palavras, a consciência sobe da matéria para o espírito. Isso significa sabedoria”, ele esclarece.

A análise de outro estudioso, o teólogo e terapeuta Jean-Yves Leloup, nos conduz na mesma direção, aliás. “No Evangelho de João, ele diz que a luz habita todos os homens vindos ao mundo. E todos os homens que procuram a luz, que procuram a fonte da vida, podem encontrá-la”.

 Por isso, se tiver a oportunidade de contemplar uma fogueira nesse junho festivo, nem que seja na sua imaginação, ouça os ecos pagãos e enxergue na chama ardente a luz da verdade: a verdade do seu coração. Bem acesa, como quer São João. 

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