Mulheres que Tecem Tradição e Amor

A arte de fiar e tecer fios de algodão enche de significado a vida das tecelãs de Tocoiós, mulheres do Vale do Jequitinhonha que respeitam a natureza e encontram na vida a inspiração para criar
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O algodão ajuda a tecer a história das mulheres de Francisco Badaró, cidade localizada no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Não se sabe exatamente quando tudo começou, mas a rotina repetida por gerações de tecelãs de Tocoiós vem de longe.

Antigamente, assim que os maridos saíam de casa para fazer a colheita de cana-de-açúcar, café e algodão, que era o forte da região, todas se punham a fiar a fibra natural. Como não havia um local apropriado para o trabalho, suas próprias casas viravam pequenas tecelagens improvisadas.  

Nas mãos hábeis das mineiras descendentes de negros e índios, o algodão se transformava em roupas que vestiam as famílias e peças caprichadas que enfeitavam seus lares, além das que eram vendidas ou trocadas entre elas por um item de maior necessidade.

Essa história de luta, coragem e preservação de uma tradição que atravessa o tempo é narrada por Maria Emília Alves da Silva. “As mulheres faziam o tecido da camisa e da capa que os maridos usavam na lavoura e do embornal para carregar o milho, o feijão, o arroz, a farinha. Tudo era feito de algodão”, conta Mila, como é conhecida. 

Tecer, um saber ancestral

Pois Mila é parte dessa história. Aos sete anos, aprendeu a arte de tecer os fios de algodão com a bisavó, as avós e as tias, já que a mãe cuidava de oito filhos e não tinha tempo de ensinar. Como morava numa comunidade rural distante, onde não teria condições de realizar o sonho de estudar, mudou-se para Francisco Badaró.

Além de tecer os fios de algodão com perfeição, descobriu na escola que também tinha afinidade com o mundo das letras. Por isso, depois de se casar, resolveu dar aulas no município. Mesmo ocupada com a vida que havia construído, Mila nunca se desligou do ofício que aprendeu quando criança. 

Não coube em si de alegria quando o prefeito do município ofereceu um espaço exclusivo para as fiandeiras, que criaram uma associação em 1987. “Ela foi fundada com o objetivo de estimular o trabalho das mulheres associadas, de buscar uma solução para elas que não tinham dinheiro para comprar nada”, lembra.

Mila viu, além disso, o trabalho que era feito com todas as dificuldades imagináveis virar uma fonte de renda e de autoestima de suas companheiras. Ao se aposentar, aos 42 anos, voltou a se dedicar ao primeiro trabalho. E lá se vão 25 anos. Durante um período, ela foi diretora da Comunidade de Tecelãs de Tocoiós, mas atualmente ocupa o posto de tecelã. 

Mila tem sua história misturada a das tecelãs: uma vida dedicada ao tear e à arte de fiar e tecer em coletivo.
Foto: Erika-Riani

Respeito ao que a Terra oferece

O tempo trouxe mudanças para a comunidade remanescente de quilombos, que no passado tinha poucas casas e hoje é o endereço de aproximadamente 480 famílias. As fiandeiras e tecelãs de Tocoiós, que antes trabalhavam num local onde não havia água nem energia elétrica e o telhado vivia saindo do lugar, há pouco mais de dois anos ganharam de uma marca de roupas um galpão com tudo o que precisam para produzir sua arte. Agora são seis teares, banheiro, cozinha com fogão à lenha, fornalha para fazer o tingimento dos fios e uma pequena lojinha.

Mas o dia a dia dessas mulheres, que tem entre 22 e 78 anos, permanece o mesmo. Elas fazem tudo como antigamente, como se estivessem seguindo uma receita de família passada de mães para filhas, de avós para netas. Conhecem o tempo da natureza e o jeito certo de conduzir cada etapa. Como preparar a terra, plantar o algodão, separar a fibra das sementes, fiar, tingir, tecer os fios e fazer deles um retrato das raízes e tradições desse recanto de Minas Gerais. 

É um trabalho feito com esmero, delicadeza e respeito pelos recursos naturais. Até a tinta que colore os fios de algodão são extraídas de árvores como a mangueiras, tingui, aroeira, angico, da casca da cebola, do fruto do jenipapo e de flores. Do galpão saem redes, tecidos para roupas, tapetes, colchas, capas de almofadas e sofás, cortinas e caminhos de mesa. Para as peças ficarem ainda mais bonitas, algumas recebem acabamento em crochê, ponto de cruz, macramê e pintura à mão.

Fios de algodão natural e padrões de cores naturais para tingimento dos fios / Foto da esquerda: Erika-Riani / Foto da direita: Mariana Berutto

A inspiração vem da realidade

Enquanto conversam sobre a vida, relembram histórias de seus pais e avós e cantam cantigas de roda para resgatar a infância, as mulheres deixam a imaginação voar. “A inspiração para produzir as peças sai de dentro da gente mesmo. Nós nunca fizemos um curso de design. Faço o desenho das casinhas como era antigamente aqui em Tocoiós e coloco flores ao redor delas. Tudo isso vem da nossa realidade”, detalha Mila. 

As fiandeiras e tecelãs respeitam o tempo da criatividade e fabricam suas peças com todo o primor. Depois de prontas, elas são vendidas em feiras, fora as que são encomendadas por clientes de várias cidades do país. E o próximo destino dos produtos será a Suíça.

A ideia de vê-los cruzando as fronteiras acalenta as cerca de 70 mulheres que trabalham na Comunidade de Tecelãs de Tocoiós, que estão acostumadas a conviver com toda sorte de dificuldades. Uma delas é o clima cada vez mais quente da região, que impede a fartura de algodão que havia anos atrás. Agora, parte da matéria-prima precisa vir de fora. 

O desafio do coronavírus para as tecelãs de Tocoiós

Esse ano, com a pandemia do novo coronavírus, a situação ficou ainda mais complicada. Além de vender pouco, pararam de trabalhar para proteger umas às outras. O máximo que estão fazendo é retirar o pigmento de cascas de árvores para aplicar em fios e tecidos. “Como na mata o ambiente é menos aglomerado, a gente está fazendo isso. Ontem mesmo eu tingi uns oito quilos de fios. Quando Deus abençoar e tudo voltar ao normal, já teremos esses fios preparados para recomeçar o nosso trabalho”, diz Mila. 

A tecelã torce para que isso aconteça o mais rápido possível, já que muitas mulheres dependem do dinheiro obtido com esse trabalho para viver. E na cidade os empregos são raros. Elas se viram como podem e ajudam na lavoura, colhem verduras e milho, preparam a farinha e fazem rapadura. Mas quando não vendem os produtos, ficam desanimadas. Mila tenta encorajá-las, pois sabe que juntas elas têm condições de colher todos os seus sonhos. 

As mãos que tecem se inspiram na história de mulheres carregadas de saberes ancestrais. Fotos: Erika Riani

A força vem do coletivo

Essa mulher forte, amorosa e apaixonada pelo que faz também se ancorou na Comunidade de Tecelãs de Tocoiós quando passou pelo momento mais doloroso de sua vida: a perda da filha, aos 27 anos, em um acidente de carro, em São Paulo. “Nesse dia, o mundo deixou de existir. Fiquei uns dois ou três meses sem fazer nada. Foi através de Deus e da associação que saí dessa. Esse trabalho, além de ser um complemento para a minha família, é também uma terapia para o corpo e a mente”, relata Mila.

Pois é fazendo, tingindo e tecendo fios de algodão que a vida das mulheres desse pedaço do Vale do Jequitinhonha ganha sentido. “Com esse trabalho a gente adquire experiência, aprende respeito e valoriza a vida. Vê que não são só as outras profissões que têm valor. A nossa também tem. Quando uma pessoa lá de fora vem e compra as nossas peças, sentimos essa valorização. E a gente valoriza umas as outras também. Trabalhamos com muito amor”, declara Mila. Esse sentimento é o que sustenta o ânimo de mulheres para vencer os desafios de cada dia. ▲

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