A Humanidade Precisa se Curar

O líder indígena Biraci Júnior Yawanawá acredita que a natureza e a ancestralidade são forças de regeneração ao alcance de todos nós –e podemos despertar para este saber agora
10 minutos de leitura

Biraci Júnior Yawanawá estava com saudade do seu povo na tarde em que conversou com YAM por chamada de vídeo, diretamente do município de Tarauacá, no Acre. Fez essa confissão e sorriu. Um riso doce. 

Após cumprir um período de quarentena, o líder espiritual indígena estava prestes a regressar para a Aldeia Nova Esperança, fatia da Floresta Amazônica cortada pelo Rio Gregório, próxima à fronteira com o Peru. Seu lar. Vinha de uma temporada de quase três meses nos Estados Unidos, para onde levou os saberes ancestrais da sua gente, o povo Yawanawá, que, como ele frisa, ainda luta pela sobrevivência em seu território original. 

Nos últimos anos, tem sido assim. O filho do cacique Biraci Brasil Yawanawá se fez ponte entre mundos que precisam, mais do que nunca, conversar e se reconhecer. Mas, para entender melhor o papel de Júnior, é preciso recuar no tempo e conhecer o legado de seu pai. 

Uma jornada de renascimento coletivo

Há 50 anos, o povo Yawanawá era duplamente explorado. De um lado, viviam escravizados pelos seringueiros que ocuparam o território e se valiam da mão de obra indígena para extrair látex. Enquanto do outro, missionários evangélicos americanos impunham sua religião e demonizavam as medicinas e as cerimônias dos povos nativos. 

A reação começou a se desenhar nos anos 1980, quando jovens da tribo, enviados à cidade para estudar — entre os quais o cacique Biraci Brasil —, se aproximaram de ONGs e sertanistas que lhe ofereceram um valioso suporte. Pois cientes de seus direitos, voltaram às aldeias preparados para encerrar o ciclo criminoso da exploração.

A mobilização culminou com a demarcação da Terra Indígena Rio Gregório, em 1983. Atualmente, o território dos Yawanawá possui 198 mil hectares, onde vivem cerca de 1300 habitantes distribuídos em oito comunidades.

De lá pra cá, eles reconquistaram autonomia tanto econômica quanto espiritual. Por isso, hoje mantêm parcerias com grandes marcas, se fazem ativos em fóruns internacionais e promovem festivais xamânicos em que recebem visitantes brasileiros e estrangeiros. 

Nada disso, contudo, seria possível sem que voltassem a se ver belos no próprio espelho. “A gente tinha uma história muito antes desse povo chegar. Por que teria que acabar tudo? Não fazia sentido”, Júnior questiona.

Saberes ancestrais dos Yawanawás para o sustento da vida

Então, os anciãos foram convocados para vasculhar a memória e espantar a poeira que recobria saberes milenares. Aos poucos, foram se recordando de lendas, cantos, rituais, cerimônias, festas. “A gente tinha que recuperar esses conhecimentos para a nossa sobrevivência. Sem eles, estaríamos dizimados há muito tempo”, ressalta o líder indígena. 

Os mais velhos contam às crianças essa história para que se sintam gratas por viverem na floresta, livres e amparadas pela essência de seu povo. “Hoje a nossa luta é seguir cuidando do espaço onde vivemos. Além de aprender a ler e a escrever para falar para o mundo o que a gente pensa e compartilhar nosso conhecimento. Seria muito egoísmo ficar com tudo isso só para a gente”, pontua Júnior.

Por mais perseguidos que tenham sido nos últimos séculos, algo se manteve intacto no coração dos povos originários.  Pode se chamar de generosidade ou de uma propensão latente à partilha, já que eles desconhecem outra vida que não seja a comunitária. Triste pensar que tantos sabem tão pouco sobre a cultura indígena, cujo valor é assim traduzido por Júnior: “Abrimos a nossa casa para que as pessoas conheçam a riqueza que existe nas coisas mais simples da natureza”. 

Medicinas naturais iluminam o caminho a ser trilhado

Reconhecer nas plantas instrumentos de cura é uma faceta da simplicidade a que Júnior se refere. Além de possibilitar toda sorte de infusões e emplastos para as urgências cotidianas, as plantas cumprem um papel espiritual na vida dos Yawanawá.

Segundo a tradição desse povo, as plantas de poder, entre elas, o uni, cipó que origina o chá da ayahuasca, permitem a conexão com os ancestrais que habitam o plano espiritual e, assim, podem transmitir suas orientações de cura. “Nossas medicinas abrem canais para que possamos receber informações dos grandes mestres e sábios que se foram para o outro plano.  É uma conexão divina que se manifesta por meio de sonhos e visões”, explica Júnior.

Estamos falando de um tipo de experiência incomum para a maioria das pessoas. Tão incomum quanto incompreendida, o que dá margem ao preconceito que ainda ronda essas práticas ancestrais. Uma ritualística que, segundo o líder indígena, traz respostas e alento para muitas buscas da humanidade. Justamente por isso, conclui, tanto incômodo desperta. “Às vezes, colocamos vendas no rosto que nos fazem desacreditar do poder que temos”, filosofa.

A espiritualidade é a força que nos leva além

O que fica claro nesta conversa com Júnior é que o espírito está em constante movimento e deseja ir além do que o limita. “A espiritualidade é universal e acessível. Ela carrega informações de muitas gerações. Conseguimos acessar isso quando paramos para respirar, meditar, cantar, rezar”, enumera.

Práticas como essas, partilhadas pelas mais diversas tradições, nos dão forças para superar momentos difíceis, ensina o filho da floresta, que sente gratidão por abrir os olhos pela manhã e encontrar o sol ou a chuva. Sua alma, assim como a de seus antepassados, sabe que “as coisas mais simples conseguem nos mostrar as coisas grandiosas”. Para reconhecê-las, é preciso, principalmente, se conectar com o Grande Espírito que nos move. Ele é luz. E está em tudo. Sem fazer qualquer distinção.

A seguir, selecionamos pílulas de sabedoria para que você possa se maravilhar com a visão de mundo Yawanawá e nela encontrar forças para sua própria jornada.

A floresta é sábia

“A floresta já vivia muito tempo antes da gente. Ela tem informações do universo e do planeta de milhares e milhares de anos. Do mesmo modo, consegue nos passar essas informações.”

O homem se perdeu

“O homem é um ser muito bonito da criação e muito inteligente, mas, a partir do momento em que ele se achou superior à natureza e tentou impor seu conhecimento sobre ela, começou a criar coisas das quais nem ele próprio dá conta.”

A crise planetária nos chama a olhar

“Muitas doenças que têm afligido o homem estão dentro da própria cabeça dele, dentro dos pensamentos. Esse momento está sendo oportuno para as pessoas se reencontrarem, se reconectarem, buscando o autoconhecimento para poder repensar suas ações. O que tenho feito da minha vida e com o espaço à minha volta? Com meu lixo? O que tenho comido? O que tenho feito com meu corpo? As pessoas estão parando para refletir. Pois a grande lição é respeitar a natureza.”

A Terra pede pausa

“A Terra está precisando de um tempo para si. Durante esse período em que a humanidade deu uma parada, reduzimos a poluição do ar, a quantidade de lixo jogada nas águas. Então, a gente está dando um tempo para a Terra desse bicho perigoso que nós somos. As pessoas estão começando a despertar para isso.”

O espírito não tem cor

“Somos humanos, nosso espírito não tem cor, não tem raça. Ele é luz, é transparente. Somos todos iguais.”

Aprendizados do coletivo nos Yawanawá

“Na nossa aldeia entendemos que tudo é fonte de aprendizado. Os erros podem nos fortalecer. Nada vem para separar, mas para unir. As situações do cotidiano nos dão a oportunidade de nos colocar no lugar do outro, não julgar. Conversamos muito. O diálogo é a nossa essência.”

As histórias nos recordam a ancestralidade

“Antes do nascer do sol a liderança responsável pela aldeia tem que estar de pé para chamar todos e direcionar ensinamentos, trabalho, organização, ordem. É o momento de contar histórias que contêm ensinamentos. Se é dia de pescaria, por exemplo, os mais velhos contam histórias com a essência do pescar. E, assim, promovem o espírito de comunhão. Ao longo do dia, no trabalho, nas cerimônias, nas medicinas, paramos para ouvir os mestres falarem. As histórias nos mantêm alinhados com a nossa ancestralidade.”

Palavras são poderosas

“Ao nosso povo, o Criador deu o dom da voz, do sopro. A gente canta, reza. Para tudo o que você imaginar em cima dessa terra nós temos cantos. Desde o grãozinho de areia à infinidade do céu. Temos canto para a casa, pesca, plantas, colheitas, crescimento das crianças. Ensinamos nossas crianças cantando, nossos velhos contam histórias cantando, os pajés rezam em forma de canto. Acreditamos que a palavra é muito poderosa. Por isso, temos muito cuidado com o que falamos. Palavras são energia em movimento.”

Vídeo: Loiro Cunha

Veshataw Saiti
Biraci explica o canto: “Aquele canto é um canto de celebração. Antigamente, nossos povos se reuniam num determinado período do ano para se encontrar, comer, caçar, pescar, enfim, para festejar o encontro. Então, é um canto que narra um encontro como esse, em que dois povos se encontravam e ali bebiam caiçuma e faziam sua festa. E, dentro dessa energia, a criação de um novo povo, a partir da junção dos povos, das famílias, com suas ancestralidades e essências. Esse sentimento de união, porque um povo sozinho era fraco, mas quando ele se juntava com outro povo, quando homens e mulheres se casavam com integrantes de outro povo, eles se tornavam uma família só, mais unida, mais forte. A partir dali começava uma nova história. A recriação de dois povos.”

Akomaya
Canto de celebração e alegria, que trás a energia da abelha que transforma o pólen em mel, assim podemos transformar as energias em coisas boas e doces também com esta alegria.

Tonguerê
Canto do Beija-flor

A espiritualidade nos fortalece

“A Terra ainda vai proporcionar muitos testes. É aí que as pessoas têm que estar realmente conectadas consigo mesmas, preparadas espiritualmente e fisicamente para momentos de provação. Você só consegue se preparar se se apegar a algo que te fortaleça. E o que nos fortalece? Nossa história, nossa essência, nossa ancestralidade, nossa espiritualidade.” ▲

Inspiração

O que o YAM tem pra te dizer hoje?

Um oráculo. A seção Inspiracão propõe um jeito lúdico de revelar conhecimentos que estão presentes no nosso conteúdo. Foram selecionados pela nossa equipe e você vai descobrir aquele que tem a ver com você.

Surpreenda-se