O Tempo para Respeitar a Terra Acabou

Na Semana dos Povos Indígenas, Ailton Krenak, um dos principais ativistas do país coloca em evidência as graves consequências – incluindo o coronavírus – geradas pelo capitalismo sobre a humanidade e o meio ambiente
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Ailton Krenak não nega a realidade. É muito desperto. Talvez porque os seus quase 40 anos de ativismo e luta pela causa indígena não permitam qualquer tipo de alienação. Ou porque o vasto conhecimento adquirido, que o faz escritor, jornalista, ativista e líder do seu povo, deixe ele bem consciente dos estragos criados pelo colonialismo e neoliberalismo. Por fim, talvez também, porque como indígena do povo Krenak, sua forma de viver seja bem diferente da dos não indígenas.

“Os brancos precisam aprender a pisar suavemente na Terra”, diz ele nesta entrevista. Autor de O Lugar Onde a Terra Descansa (ed. Eco Rio), Encontros (ed. Azougue) e o mais recente, Ideias para Adiar o Fim do Mundo (ed. Companhia das Letras), vive na aldeia Krenak, nas margens do rio Doce, em Minas Gerais. Fundou em 1988 a União das Nações Indígenas, e, em 1989, o movimento Aliança dos Povos da Floresta. Atualmente, dirige o Núcleo de Cultura Indígena, na Serra do Cipó, MG. Em 2016, recebeu o título de Professor Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde leciona. Abaixo, suas palavras acordam o ser que está adormecido em decorrência do ter.

Quais são hoje as questões mais importantes da causa indígena?

Ailton Krenak: Eu não consigo eleger um tema específico nessa longa jornada de lutas para tentar esclarecer o equívoco que é a colonização e as consequências disso nos povos originários. Nos últimos anos, o que tem aparecido é que esses povos não têm mesmo um lugar no mundo. A tragédia que nós estamos vivendo agora, do planeta inteiro assolado por um vírus, tem sido denunciada também como uma espécie de fim desse mundo colonial, que insiste em dominar o planeta inteiro. A marca dessa década é desses povos levantarem a voz e botar em questão o processo de colonização global que resultou nessa tragédia que nós vivemos hoje, que é o planeta em crise.

O que os não indígenas têm a aprender com os povos indígenas sobre preservação do meio ambiente e sobre a vida, o viver?

Ailton Krenak: Eu acredito que os não indígenas não têm mais tempo para aprender nada com os povos indígenas. Acabou o tempo. Esse coronavírus, a covid-19, significativamente tem o número 19. Em 2019, o último relatório de mudanças climáticas disse que nós perdemos o prazo de diminuir a velocidade da predação do planeta, com os oceanos cheios de lixo, com a floresta sendo extinta e os povos originários sofrendo genocídio geral. Se nós estamos numa espécie de último front, de última batalha dessa civilização que acha que pode comer o planeta e depois ir para Marte, nós não temos mais nada para ensinar. Eu acho que acabou o tempo. 

Uma triste realidade…

Ailton Krenak: Eu também acho. Mas a gente tem que ter maturidade para entender que, se 400 e tantos anos não foram o suficiente para ser ouvido, nós vamos precisar de mais o quê? 40 anos? O relatório do painel do clima diz que não temos 40 anos. Diz que em 2035 a gente vai fritar porque o planeta vai ter aquecido cerca de 1,5 graus. No verão, as pessoas vão morrer na rua, aliás, no verão do ano passado, as pessoas morreram. Teve avião que não conseguiu decolar porque ficou grudado na pista de tão quente. Não é brincadeira.

Nós estamos numa espécie de mudança do paradigma civilizatório e as pessoas não querem aprender. Se quisessem aprender, a gente não estava nessa tragédia que a gente está dentro dela agora e eu não tenho muita ideia de como nós vamos sair disso. Os humanos são só um mínimo organismo vivo da vida. A vida é muito mais, ela transcende e atravessa tudo. A vida está nas montanhas, nas florestas, nos rios, no espaço. Ela está nos organismos que nós não enxergamos, inclusive nesse vírus que está andando por aí. 

Como os povos indígenas estão passando por este momento?

Ailton Krenak: Estão respeitando, na medida do possível, o isolamento. A maioria fechando suas aldeias para visitantes de fora e convocando os parentes que estão em trânsito a respeitar a quarentena, por exemplo. Quem está em circulação, antes de voltar para a sua aldeia, que fique um tempo de resguardo para só depois poder ser reintroduzido na vida com a comunidade sem o risco de contágio. O que os pajés falam é que essa doença não pode ser curada pela medicina que os nossos antepassados deixaram. Ela vai ter que ser combatida com os recursos dos brancos, com a medicina ocidental.

Criou-se, inclusive, um termo que é muito comum a maioria dos nossos povos dizer, que é: isso é uma doença dos brancos. O próprio pajé yanomami Davi Kopenawa, no livro dele A Queda do Céu (ed. Companhia das Letras), fala que os xamãs e os pajés lutam para manter os céus suspensos, mas os brancos mexem na natureza de uma maneira tão inconsequente que algumas energias saem de dentro do organismo da Terra. 

Para você, essa pandemia do coronavírus tem a ver com o quê?

Ailton Krenak: A Terra está, de alguma maneira, reagindo ao organismo humano, como se o organismo humano fosse o vetor dessa doença. Não são os animais, não é um pássaro, uma onça, um peixe. São os humanos que, viajando de avião, de navio e circulando no mundo, estão espalhando essa doença. Então é o ser humano que é a doença. Eu acho até muito curioso a linguagem das mídias dizendo: “vamos combater o coronavírus”. Isso dá lugar a uma outra ideia estúpida que nós vamos, então, combater as pessoas porque nós é que estamos criando esse caos. A gente alcançou um ponto de desequilíbrio agora que o planeta está cuspindo a gente daqui.

Qual é a sua avaliação sobre o governo atual?

Ailton Krenak: Antes de termos esse evento que tornou nós todos vulneráveis, os únicos vulneráveis eram os povos indígenas afetados pela palavra desse presidente da República que dizia que a gente era inútil, preguiçoso, que ficávamos à toa nos territórios, que vivíamos em grandes territórios cheios de riquezas e que não fazíamos nada porque somos incapazes. Isso é uma convocação a um genocídio, isso é um crime que deveria ter um julgamento num tribunal internacional, mas, como vivemos num mundo totalmente avacalhado, não existe mais tribunal internacional nenhum.

Esse sujeito vai continuar provocando crise, só que agora não só mais dirigida aos indígenas, mas contra todo mundo. Dois anos atrás, quando eu estava numa viagem, me perguntaram: “O que vai acontecer com o Brasil quando esse homem estiver na presidência da República?”. Eu disse: “Olha, há 500 anos o povo indígena enfrenta violências de toda ordem. Eu não sei como os brancos vão sobreviver a esse sujeito”.

Nesta Semana dos Povos Indígenas, qual consciência precisamos ganhar sobre esses povos?

Ailton Krenak: Talvez, de uma maneira bem simples, lembrar que sempre foram percebidos como atrasados, mas, na verdade, eles estavam somente cumprindo um roteiro próprio que é o de pisar suavemente na Terra. Se os brancos aprendessem a pisar suavemente na Terra, a gente não estaria vivendo a crise que nós estamos vivendo agora. Eu acho que é a maneira mais simples de ajudar a compreender a diferença entre a vida dos índios e dos não indígenas. O povo indígena concebe a vida na terra como uma dádiva, como um dom, que a gente deve fruir esse dom da maneira mais respeitosa com todas as formas de vida que viajam junto com a gente. O não-indígena acha que pode incidir sobre a vida na terra e governar a terra. A gente está vendo que a gente não governa nada.

Você pode falar um pouco mais sobre esse pisar suavemente?

Ailton Krenak: Você já viu em algum lugar, onde um povo indígena tem a governança do território, a construção de fábricas lá dentro? Você já viu eles construindo hidrelétricas, rodovias, abrindo mineração, realizando atividades que danam a atmosfera e o meio ambiente?

Não. 

Ailton Krenak: Digamos que esse é um jeito suave de pisar na terra. Me ocorreu de dizer que não tenho certeza se as pessoas com quem eu estou falando no mês de março vão estar vivas no mês de abril. Mas, por outro lado, eu já fui treinado, há muito tempo, a acreditar que quando a gente se despede hoje, a gente se despede um do outro com a confiança que a gente esteve integralmente um com o outro, mas sem nenhuma certeza se a gente vai se encontrar amanhã de novo. Essa modernidade faz com que todos fiquem muito convencidos: “tchau, te vejo depois”.

É um convencimento tão escandaloso, ninguém tem certeza que eu te vejo depois. Fazer festa quando se encontra, celebrar quando se encontra, é o verdadeiro sentido da vida. Não é depois, é quando se encontra. A ideia de futuro é uma ficção. O futuro é uma invenção. Só existe o agora. Nosso querido Daniel Munduruku, que tem uma vasta obra publicada, num dos textos ele diz que o presente tem esse nome de presente porque é a única coisa que existe, o agora.

O presente é um presente. Que bonito!

Ailton Krenak: Eu também acho muito bonito. É uma poética da existência. ▲

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