Dia do Artesão: O Tesouro de Várzea Queimada

Uma homenagem às mulheres e homens desse povoado no semiárido nordestino que, em meio à seca e à falta de quase tudo, preservam um fazer manual carregado de valores
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Guarde essa frase: “Não é simplesmente uma peça bonita que vai enfeitar a casa. É um objeto carregado de saber, de memória. Uma pessoa que faz um trabalho manual está mexendo com as mãos, com o coração e com a memória afetiva, numa relação com a ancestralidade. Então, esse objeto que ela está fazendo vem carregado de toda essa energia”. Quem costuma pronunciá-la é Marcelo Rosenbaum, designer, articulador social e criador do projeto A Gente Transforma, que usa o design como ferramenta de transformação. 

O conceito está atrelado, principalmente, ao saber fazer de comunidades do Brasil profundo, pouco visto e conhecido. Marcelo busca tirar o pó desses conhecimentos ancestrais e dar maior autonomia e visibilidade às comunidades para que elas mesmas consigam gerar mais renda. Uma dessas comunidades está no Piauí, no povoado de Várzea Queimada, onde há 8 anos uma intervenção do projeto A Gente Transforma vem despertando a revalorização dos artesãos e a descoberta do imenso potencial local. 

Mas antes de saber mais sobre o projeto, um pouco das origens de Várzea Queimada.

No coração do sertão, Várzea Queimada 

Essa história começou a ser trançada há 200 anos no semiárido nordestino. Mais exatamente na chapada do Araripe, fronteira de Pernambuco com o Piauí, a 27 quilômetros do município de Jaicós. Lá, o vaqueiro errante João Raimundo Barbosa conheceu e se casou com Joana, filha do coronel proprietário daquelas paragens. Ninguém sabe dizer quantos filhos tiveram. Conta a lenda que o vaqueiro teve também um amor proibido com a mais bela índia da região, Maricó. Fato é que famílias foram crescendo.

Um dos netos de João Raimundo com Joana, o João da Cruz Barbosa, herdou as terras. Ele fundou o povoado de Várzea Queimada quando começou a dar partes do terreno para quem quisesse construir morada e por fim doou um quinhão para a igreja e outro para a escola. João, casado com dona Zefa, teve 15 filhos, 45 netos e 13 bisnetos.

Hoje são cerca de 1000 pessoas no povoado, todas parentes entre si, e, graças à intervenção do projeto A Gente Transforma, vivendo de uma agricultura de subsistência que já flerta com a agrofloresta, do artesanato da palha de carnaúba e da borracha e de um algo a mais que se desenha a seguir.

Com quantas palhas se conta uma história?

Na vegetação do sertão, uma árvore interrompe a paisagem rasteira e se destaca: a carnaúba. Mesmo sem chuva, ela insiste em nascer e cresce em tronco ereto e alto se abrindo em leques de longas folhas verdes no topo. 

Árvore que só existe no Brasil, mais especificamente na caatinga, a carnaúba é a principal matéria-prima do artesanato local. De suas folhas vêm a palha que as artesãs usam para fazer esteiras, chapéus, cestos e os hoje famosos bogoiós.

Um artesanato que só se faz lá  

“O bogoió é um tipo de cesto com gola que só existe em Várzea Queimada. Era um cesto usado para guardar toda a despensa. Conforme os alimentos iam sendo consumidos, a gola dobrava e o cesto diminuía”, conta Marcelo. “Mais curioso é que chegamos em Várzea Queimada em 2012, entendemos que o nome do cesto era bogoió e assim ficou. Mas quatro anos depois, numa das muitas visitas que fiz ao povoado, me contaram que o nome certo do cesto era bornó. Só que tinham ficado com vergonha de me corrigir naquela época e deixaram passar “bogoió”. Foi uma risada geral, mas foi assim que aquele cesto ficou conhecido”, conta Marcelo.

Feito de longas fitas de carnaúba tramadas, depois costuradas umas às outras com um fio de coroá, planta que também dá por ali, esse utilitário estava abandonado fazia muito tempo. Durante a consultoria do projeto, uma equipe de 50 profissionais, entre designers e universitários, ficou na comunidade observando, aprendendo e, vez ou outra, relendo e redesenhando o trabalho dos artesãos.

O futuro está no passado

Dessas passagens, uma em especial ilustra o que aconteceria depois com a comunidade. “Quando o antigo bogoió foi encontrado na casa de dona Chica, em 2012, as artesãs perceberam que o futuro estava no passado. Ou melhor, que o futuro estava no conhecimento, na ancestralidade, na cultura, na fé e na resistência apresentada pelo artesanato”, relata o livro Várzea Queimada. Espírito, Matéria e Inspiração, editado ao final do projeto.

“Depois de alguns dias de investigação dos saberes locais, percebemos o cesto que as avós faziam com a palha de carnaúba e entendemos que ali havia uma arqueologia afetiva. Aí fizemos uma intervenção, dando novas proporções ao cesto, mas, acima de tudo, mostrando à comunidade que o que as avós faziam tinha valor”, conta Marcelo. 

Dar esse retorno para a comunidade fez toda a diferença. Assim como sugerir aos artesãos que, mais do que sandálias – feitas de sobras de pneus estourados que encontravam na rodovia próxima –, usassem a borracha para outras finalidades. Estava aberta a janela das possibilidades.

Várzea Queimada tem bastante carnaúba, fé, hospitalidade e musicalidade. Conectar a comunidade com esse potencial e o capital que pode derivar disso deu muito mais força a eles.

Novos mundos para Várzea Queimada

“O Marcelo (Rosenbaum) nos despertou, fez com que a gente renascesse de nós mesmos, valorizasse nossa arte e tivesse esperança e garra. Nossas peças ganharam valor e isso possibilitou uma renda maior porque temos um outro mercado”, diz Marcilene Barbosa, presidente da Associação das Mulheres Artesãs de Várzea Queimada.

Segundo ela, “antes do projeto, uma artesã ganhava uma faixa de 300 reais por ano. Com a vinda do Marcelo à comunidade, essa renda triplicou, às vezes mais do que triplicou. Por isso, quem trabalha com artesanato não se deslocou mais daqui, não mudou de cidade nem de estado à procura de oportunidade. O trançado traz renda e o povo já pode permanecer aqui”, diz a artesã que, no passado, chegou a viver um período em São Paulo fugindo da seca.

Há melhorias dentro da casa dos sertanejos. “Agora as casas têm porta, janela, piso, banheiro, mesa. Ou seja, várias coisas que se precisava num lar, mas que a gente não tinha e não teria como comprar se não tivesse acontecido esse projeto e expandido nosso artesanato para fora. Agora a gente produz com destino certo e o capital volta”, diz ela. 

Marcilene, como outras pessoas da comunidade, ainda consegue um dinheiro extra porque adaptou sua casa de forma a torná-la uma pousada caseira (outra derivação do projeto A Gente Transforma é o turismo de propósito, uma parceria com o Projeto Garupa e a Fundação Casa Grande, que leva pessoas interessadas em conhecer o artesanato e o modo de vida de Várzea Queimada).

Outros fios desse trançado

“Numa dessas imersões de turistas interessados em trocar aprendizados com a comunidade se deu o start para a agrofloresta, uma forma de cultivo que está trazendo maior abundância e sombra para a região e que já foi implantada em duas ações bem representativas”, alegra-se Marcelo, que esteve na comunidade em dezembro. 

Ao turismo de propósito, à agrofloresta e ao artesanato bem estabelecido (que hoje, por sua conta, atrai lojas e designers que querem desenvolver novos produtos em parceria com os sábios artesãos locais), mais uma atividade baseada no extrativismo está em vias de se concretizar: a exploração do pó de carnaúba.

“O pó liberado pelo olho da carnaúba é um produto de valor mundial usado pela indústria de cosméticos, alimentícia e automobilística. E apenas três empresas brasileiras fazem o seu beneficiamento porque a planta só existe no Brasil. Saber que o pó tem tanto valor e que as pessoas que moram lá vivem tão esquecidas me causa muita inquietação e, por isso, há um ano e meio venho tentando articular essas duas pontas para que o pó de carnaúba vire uma fonte de renda também para a comunidade”, diz o multivisionário Marcelo.

Momento de reparação para Várzea Queimada

O sertanejo é antes de tudo um forte. É um povo sofrido. Pela natureza e cultura que representa, é também um gigante.  

“Eu acho que os designers que vão lá precisam fazer uma reparação: não chegar anulando os saberes e conhecimentos locais. Não adianta ir lá e esperar apenas mão de obra. Não adianta chegar lá e pedir para fazerem um jogo americano para uma determinada sala de jantar. Essa relação designer-artesão precisa levar em conta o conhecimento ancestral presente ali. Essas pessoas são sábias”, enfatiza Marcelo. 

Enquanto as mulheres trançam em um espaço construído pelo projeto A Gente Transforma, e que recebeu o sugestivo nome de Toca das Possibilidades, os homens transformam o pneu dos brutos em acessórios. Joias para o corpo e para a casa feitas de borracha. Impossível não se impactar pelo enlace da brutalidade com a gentileza. Várzea Queimada, de tanta aridez, desabrocha. Ainda mais bela porque precisa superar a dificuldade.

Agora, se você puder voltar à frase que abre essa reportagem, talvez consiga sentir mais forte o valor de algo feito por algumas determinadas mãos. ▲

Inspiração

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