A voz da liberdade religiosa

Neste #MêsdaMulher, nosso primeiro perfil é da Mãe de Santo Carmem de Oxum, que trabalha pela convivência pacífica entre todas as fés

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Ela é mulher, negra e sacerdotisa de uma religião de matriz africana, o candomblé. Tem orgulho da sua indumentária. Leva um turbante na cabeça e cordões sobre o peito. Assim se mostra ao mundo, que, em resposta, escancara sua face mais cruel. O preconceito, a discriminação e a violência. 

Mãe Carmem de Oxum, mineira, 68 anos, lidera, há 42 anos, o terreiro Ilê Olá Omí Asé Opô Araká, localizado em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Ao longo da sua história, o centro religioso, tombado tanto pelo município quanto pelo Estado, já iniciou mais de 800 filhos de santo. 

Apesar do reconhecimento público e oficial, não raro a religiosa é barrada em espaços aonde tenta levar acolhimento e força espiritual a quem sofre, como pessoas hospitalizadas e detentos. Por ser quem é e por representar uma fé pouco compreendida pela sociedade brasileira, não é bem-vista nem bem-vinda em muitos locais, como farmácias e supermercados.

“Ser de uma religião de matriz africana é um grande desafio, porque a discriminação vem junto com o racismo. Temos que ser muito resistentes e persistentes em relação a tudo”, desabafa, ela que já foi presa algumas vezes dentro da casa de candomblé e proibida de exercer seu papel espiritual na comunidade.

Representante da Cultura de Paz e Liberdade de Crença

O coração dessa Mãe, iniciada de Oxum, divindade do amor e da fertilidade, endureceu por obra da ignorância e do desrespeito? Jamais! A líder espiritual é membro do Fórum Inter-Religioso para uma Cultura de Paz e Liberdade de Crença da Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, composto de mais de 140 segmentos religiosos e criado para combater a intolerância religiosa e disseminar a convivência harmoniosa entre as diferentes fés. 

“Precisamos mostrar para as pessoas que as religiões de matriz africana não são cultos ou seitas e sim religiões que agregam famílias e todos aqueles que chegam. Nós só temos o interesse único e absoluto de acolhimento”, enfatiza.

Uma nova vida no candomblé

A missão na espiritualidade lhe chegou pelo tranco da doença. Aos 19 anos, os pulmões adoeceram e ela passou seis meses no hospital. Um dia, o médico chamou sua família para dizer o que ninguém deseja ouvir: nada mais pode ser feito, melhor buscar auxílio nas instâncias superiores. 

Desenganada pela ciência, ela procurou uma Mãe de Santo. Sua família não tinha vínculos com a tradição dos orixás. Mesmo assim, no candomblé encontrou o suporte de que necessitava. Estava diante do seu próprio futuro. 

Na ocasião, apenas seguiu as orientações da sacerdotisa. Passou 21 dias na clausura para ser iniciada. O cabelo foi raspado, dormia no chão, comia com as mãos e usava urinol. No recolhimento, foi se despindo das vaidades mundanas, desenvolvendo a mediunidade e aprendendo a linguagem iorubá. Renasceu. 

A verdadeira espiritualidade é inclusiva e amorosa

De jovem iniciada à velha sábia, Mãe Carmem tem se fiado na força transformadora do amor. Acredita que o carinho e a dedicação com que leva adiante o legado ancestral do candomblé só podem gerar frutos vigorosos. Entre tanta aspereza, ela avança, no Axé. Deve ser por isso que afirma com serenidade: “As dificuldades me fortalecem”.

Mulher de fibra e de fé, crê que a discriminação e o desrespeito terão fim. E vê a comunhão entre as diferentes crenças como algo bom e belo. “É preciso respeitar a religião do outro, respeitar quem acredita e quem não acredita também. É um direito de cada um”.

As dificuldades me fortalecem

O que é ser mulher hoje? 

Sou uma mulher negra, mãe, avó e bisavó, além de sacerdotisa. Minha visão da mulher hoje no mundo é a de um ser forte e corajoso, que tem uma posição social e cultural empoderada, com sua postura, sua visão e sua inteligência.

O que espera para o futuro das mulheres? 

O nosso futuro é hoje, é o presente. Claro que há sofrimento. Mas a tendência é a de liderarmos, nos qualificarmos e nos capacitarmos cada vez mais nas mais diferentes colocações.

O que gostaria de falar para elas?

Que as mulheres se posicionem a todo momento e mostrem o que são. Não temos que nos calar para nada.  ▲

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