Viva a Grande Mãe Iemanjá

Podemos presentear a Rainha do Mar, no dia 2 de fevereiro, sem poluir o oceano e as praias, elevando nossa fé e preservando a nossa grande casa
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Dois de fevereiro é Dia de Iemanjá, mãe de todos os orixás, segundo as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Este arquétipo materno, associado às águas do mundo, representa o Princípio Feminino, aquele que nutre e acolhe suas crias.

É por isso que, mesmo os que não seguem oficialmente o candomblé e a umbanda, se sentem filhos dessa Grande Mãe. E, no dia de celebrá-la, lançam ao mar seus agrados, como reza a tradição.

Mas, se Iemanjá – vinculada pelo sincretismo religioso à Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira dos pescadores – é o próprio oceano, qual o sentido de poluí-lo com presentes nada sustentáveis, como plástico, isopor e perfume? O que deveria ser uma homenagem vira desrespeito, do ponto de vista ecológico, e as praias e os animais marinhos sofrem as consequências.

“Iemanjá protege quem protege o mar”

Preocupado com a poluição na Praia do Rio Vermelho, em Salvador, que costuma receber 1,5 milhão de devotos na data festiva, o Grupo Nzinga de capoeira angola lançou, em 2007, a campanha “Iemanjá protege quem protege o mar”. A intenção era levantar a bandeira das oferendas biodegradáveis tendo em vista o impacto ambiental gerado a cada 2 de fevereiro. 

“A ideia é a de reforçar a fé e aumentar o axé, diminuindo a matéria”, explica o mestre Poloca Barreto. O trabalho de formiguinha pela comunidade completa 13 anos em 2020 e segue dissolvendo resistências, segundo ele.

Orações para honrar Iemanjá

No finalzinho de 2015, Mãe Stella de Oxóssi (1925-2018) – líder religiosa de grande influência na história do candomblé -, então Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador, trouxe uma perspectiva ainda mais ecológica para a celebração. No artigo intitulado “Presença, sim! Presente, não!”, publicado no jornal A Tarde, ela sugeriu que os fiéis substituíssem oferendas por cânticos. Assim a morada da Grande Mãe estaria a salvo da degradação.

“Quem for consciente e corajoso entenderá que os ritos podem e devem ser adaptados às transformações do planeta e da sociedade. Os ritos se fundamentam nos mitos e nestes estão guardados ensinamentos valorosos. O rito pode ser modificado, a essência dos mitos, jamais!”, ela escreveu.

Apesar de bem-intencionado, o posicionamento de Mãe Stella causou alvoroço. Nem todos estavam preparados para alterar o ritual, como ela sugeriu na época. No entanto, essa possibilidade passou a ocupar seu lugar no horizonte espiritual. Questão de tempo para que os costumes se transformem.

“Mãe Stella de Oxóssi disse que a tendência seria diminuir a materialidade do presente, o que reforçava o nosso discurso. Gerou a maior polêmica, mas o debate foi feito e não existe outro caminho a não ser aceitar essa ideia”, opina o mestre Poloca Barreto.

Ajustando o ritual com presentes biodegradáveis

Atualmente, a orientação da Associação Brasileira dos Religiosos de Umbanda, Candomblé e Jurema (ABRATU) reforça a consciência ambiental dos devotos e recomenda a entrega de presentes biodegradáveis. 

“Por reverenciarmos a natureza como força, entendemos que não podemos degradá-la e acreditamos que as ofertas podem ser ajustadas sem prejuízo nenhum à prática religiosa. Essa cultura está sendo modificada aos poucos e a cada ano fica melhor”, afirma Pai Guimarães, presidente da Associação.

A oferta, na visão dele, não pode ser suprimida, pois ela se dá num contexto de intercâmbio entre o ser humano e o sagrado. Funciona assim: O devoto oferece a energia da natureza contida na oferenda e espera que a divindade reverta aquela reverência em proteção e orientação. De acordo com o merecimento de cada um, é bom frisar. 

O religioso enfatiza ainda que todos são bem-vindos nos festejos de Iemanjá, sejam de quais religiões forem. O que as instituições ligadas ao candomblé e à umbanda condenam é a discriminação das religiões de matriz africana por questões raciais, não a simpatia do público em geral pelo rito, ainda que restrita ao evento anual.

“A divindade é livre e plural”, nos lembra Pai Guimarães.

O que oferecer à Rainha do Mar?

Oferendas biodegradáveis recomendadas: frutas, comidas sadias, flores, folha de bananeira, papel.

Oferendas a serem evitadas: presentes que contenham elementos de isopor, plásticos, vidros, espelhos, sabonetes.

Conheça o mito de Iemanjá:

“Olodumaré, o Ser Supremo, que vivia só no infinito, estava cansado da própria solidão. Decidiu pôr fim àquela situação e libertou todas as suas forças. A violência delas gerou uma enorme tormenta. As águas começaram a bater em rochas, abriram grandes cavidades nelas e foram enchendo as fendas, formando os mares e oceanos. A Terra surgiu do que sobrou da inundação.

Na superfície do mar, perto das areias, nasceu Iemanjá, vestida de azul e prata, coroada pelo arco-íris Oxumaré e cercada de algas, estrelas-do-mar, peixes e corais: ali ela fez seu reino.

E tudo o mais que existe na Terra foi criado com a ajuda dela, de seus filhos orixás e de outros orixás primordiais, como Aganju, seu irmão e mestre dos vulcões, e Ocô, que fertilizou os campos permitindo o nascimento das ervas, flores, frutos, árvores e florestas. 

Iemanjá tem grandes seios. Eles e sua vulva são considerados sagrados. De seus seios nascem rios e mares, bem como o leite que alimenta seus filhos orixás e seus filhos homens.”

Trecho do livro O Legado das Deusas – Caminhos para a Busca de uma Nova Identidade Feminina, de Cristina Balieiro (Pólen Livros)

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