Gentileza com nosso Envelhecer

Imagine que a vida é uma festa e o envelhecimento, um convidado que merece ser recebido com o mesmo respeito e carinho que os demais
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A atriz Fernanda Montenegro acabou de lançar sua biografia. Aos 90 anos. Marina Colasanti, em 2017, ano em que completou 80 anos, publicou dois livros. Bibi Ferreira atuou e cantou até praticamente seu último suspiro aos 96 anos. O envelhecer não foi sinal vermelho para seguir vivendo.

Oscar Niemeyer, aliás, em uma entrevista que concedeu aos 98 anos, estava todo feliz falando de um projeto que ficaria pronto dali 12 anos e se dizia ‘louco’ para ver a obra pronta. O arquiteto morreu aos 104, seis anos antes de a construção terminar – saber se veria ou não a construção concluída, não o paralisou.

Duas divas do teatro, uma escritora, um arquiteto: todos igualmente longevos e criadores. A vida criativa gera movimento, que, por sua vez, gera continuidade. Isso importa. 

Da mesma forma, três amigas que parecem saber muito bem disso têm compartilhado um olhar muito mais bem-humorado sobre o envelhecer e o que pensam acerca da vida. 

Helena Wiechmann, 91 anos, Sonia Bonetti, 82, e Gilda Bandeira de Mello, 77, são as “Avós da Razão”, com canal no Youtube com quase 15 mil inscritos – e uma conta no Instagram com outros 30 mil seguidores. Numa mesa redonda, enquanto comem alguns salgadinhos e bebem seus drinks, respondem a perguntas sobre temas como descriminalização da maconha, ayahuasca, aborto e outros tantos assuntos diversos. Elas são um alerta muito bem-vindo de que o lugar apagado e sem vez que a cultura reserva para a idade precisa mesmo ser revisto. Ressignificado.

O envelhecer vai acontecendo

“Para a biologia, envelhecer é um fenômeno que começa por volta dos 30 anos”, explica a dermatologista Maria Assunta Yamanaka Nakano, professora do departamento de medicina chinesa e acupuntura da Universidade Federal de São Paulo.

“É que até aí, o corpo tem uma capacidade de regeneração tão grande que faz radicais livres, estresse, poluição – agentes agressores para nossas células – manterem-se praticamente assintomáticos. A partir dos 30, a velocidade regenerativa das nossas células diminui e fica mais difícil levar vantagem contra os fatores de envelhecimento. É uma evolução natural”, continua ela.

Tudo ocorre de maneira ainda tão sutil que nem percebemos. Como disse a escritora Marina Colasanti, “não se faz 80 anos de repente”. A idade vai acontecendo. Envelhecer é do viver.

A hora de começar a se cuidar

Preparar corpo e alma para a idade ir acontecendo de maneira gentil é obra de toda uma vida. É cuidar dos tecidos, da musculatura, do pensamento. 

 “A compreensão e a aceitação das mudanças que ocorrem no envelhecimento é a própria vida. Porque faz parte dela”, assinala Maria Assunta, que leva o culto da tranquilidade tão à sério quanto o respeito à estética e à aparência. 

A dermatologista, obviamente, sabe a importância da autoestima para envelhecer bem. E reconhece os benefícios da acupuntura, da meditação e da ioga como meios de restabelecer o fluxo de energia vital para a manutenção da saúde. 

“A acupuntura, por exemplo, é uma forma de minimizar os desgastes provocados pelo tempo, manter uma boa elasticidade da pele, reduzir inflamações”, enfatiza. “Mas, da mesma forma, ter um propósito de vida faz os anos passarem com mais significado e beleza”, acrescenta.

“Pense o que você ama fazer, o que você é bom em fazer, o que você pode ser pago para fazer e o que é bom fazer para o mundo. Isso nos mantém em sintonia com a gente mesmo, com o outro e com o meio”, diz ela.

A medicina antroposófica sobre o envelhecer

No entendimento da antroposofia, ciência médica e espiritual criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, a senha para a passagem do tempo ocorrer com amorosidade guardando uma bagagem robusta é justamente viver o que precisa ser vivido em cada etapa. 

Segundo a observação de Steiner, a vida está organizada em fases de sete anos. Esses setênios vão de 0 a 7 anos, 7 a 14, 14 a 21, 21 a 28, 28 a 35, 35 a 42, 42 a 49, 49 a 56, 56 a 63 e 63 para frente. Cada um tem seus desafios e potencialidades.

“A mulher mais velha teria, por exemplo, o conhecimento de todas as fases anteriores. Já teria passado pelo encantamento dos primeiros sete anos, a formação da identidade, as angústias da adolescência, a descoberta de um ideal na juventude, o conflito para conhecer seus próprios talentos, a descoberta de que às vezes é preciso, acima de tudo, escutar e saber acolher o outro”, exemplifica o médico Rômulo de Mello Silva, especialista no assunto. 

Dos 49 aos 56 anos, o médico antroposófico conta, acontece a idade do mestre, da expansão. É quando resgatamos nosso ideal de vida e podemos devolver o que aprendemos para o mundo. 

“Quem encontra esse ideal não fica pensando nas perdas, mas na sabedoria que os anos trazem”, filosofa Rômulo. E continua: “A partir dos 60 é importante fazer um balanço do que realizamos. E aquilo que ainda falta fazer é hora de começar”, defende. “Pode ser tocar guitarra, aprender uma nova língua, escrever um livro. O que mais provoca saúde é a intenção dos nossos atos.”

Sem ressentimentos com o tempo

Pisar na saia do tempo para mover-se junto com ele – nem muito à frente nem muito atrás, tentando segurá-lo a qualquer custo – evitaria não apenas um descompasso, mas, acredite, adoecimentos. 

“Jung diz que quando rompemos com a transcendência – o divino, o espiritual, aquilo que transcende o material – o nosso maior medo é a morte, que significa o fim de tudo. Hoje, temos cada vez mais dificuldade de lidar com o envelhecimento. E, curiosamente, com o sono, que é o irmão menor da morte porque nos conectamos apenas com o material e sentimos uma dificuldade imensa de aceitar o fluxo natural da vida”, completa o antroposófico.

Em harmonia com os anos

Para manter a vitalidade é preciso um pouco de coragem, portanto, e outra de responsabilidade. 

ayurveda, tradicional medicina indiana, propõe alimentos, exercícios e práticas cujo objetivo é restaurar o equilíbrio de corpo, mente e emoção rumo a uma longevidade de qualidade. A yoga, por exemplo, comprovadamente é uma das práticas mais reconhecidas neste sentido. 

Ainda no campo oriental, a acupuntura, como dissemos, melhora a condição geral, diminuindo as inflamações celulares que tanto levam ao envelhecimento cutâneo quanto às dores articulares. 

Já a musculação tonifica o corpo, evita lesões e garante maior autonomia; além de estudos já terem demonstrado que também melhora o funcionamento do cérebro. 

Aprender uma coisa nova, por sua vez, acende a chama das paixões que alimentam a alma.

Sim, há perdas e ganhos, sempre. Em toda fase. Mas ser gentil com o envelhecimento é ser generoso consigo mesmo. Na dúvida, pense nele como um convidado de honra, que merece estar presente na festa; ao lado da infância, da adolescência, da juventude, da maturidade. Recebê-lo com gentileza amortece o impacto da sua chegada. Afinal, ele vai entrar de qualquer maneira. Nem que seja batendo na porta com força e raiva. ▲

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