Saiba Escutar

A sabedoria tupi nos ensina a desenvolver a escuta de nós mesmos e do outro para que haja conexão verdadeira entre os seres 
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Vivemos o fenômeno coletivo da “desescutação”. Muita vontade de falar, quase nenhuma de escutar. O interlocutor mal termina a frase e já avançamos com um palpite, conclusão, discordância ou com um depoimento que supera a vivência do outro. Saber escutar, então, parece um enorme desafio.

Pois foi esse preocupante diagnóstico que motivou o palhaço e educador, Claudio Thebas, e o psicanalista, Christian Dunker, a aprofundarem a reflexão sobre a importância de verdadeiramente nos escutarmos no livro O Palhaço e o Psicanalista – Como Escutar os Outros Pode Transformar Vidas (Editora Planeta)

Num bate-papo online, ao mesmo tempo sensível, perspicaz e divertido, Claudio foi ao cerne da questão. Para o especialista em Pedagogia da Cooperação e fundador do Laboratório de Escuta e Convivência (LEC), a escuta começa em nós. E ela nasce da presença.

“O estado profundo de conexão consigo mesmo, estar inteiro no aqui e agora, é o que permite que a gente escute verdadeiramente o outro”, diz Thebas.

Temos, de cara, dois obstáculos. De um lado, a pressa que nos “sequestra” de nós mesmos e dificulta a aproximação com o nosso íntimo e, de outro, uma cultura que supervaloriza aquele que detém a palavra, e não o saber escutar.

“Então, fica a sensação de que quem sabe fala, quem não sabe escuta. E não percebemos o quanto o escutar é proponente também”, observa o educador.

Saber escutar é um ato criativo e cooperativo

Como os autores explicam no livro, por exemplo, saber escutar é um ato criativo, é dispensar o script e se abrir para o inesperado, para compor com o outro num jogo de improviso, com idas e vindas, somas, descobertas e ampliações de sentido.

“A escuta mais profunda e verdadeira requer que transitemos do modo competição para o modo cooperação”, propõe o estudioso.

Na boa escuta, as duas partes saem transformadas pela experiência da partilha. Ninguém quer ganhar nada porque não há disputa. E o bonito dessa história é que a qualquer momento podemos nos tornar melhores “escutadores”, como bons anfitriões, atentos às reais necessidades e desejos dos nossos hóspedes.

Ensinamentos ancestrais para aprimorar a escuta

No livro, os autores partilham um saber precioso e ancestral, transmitido de geração em geração pela etnia tupi.

Esta tradição considera sete formas distintas e complementares de escutar. Elas estão presentes em todos nós, embora cada um nasça com um aspecto mais desenvolvido do que outro.

Pois faz parte da criação dos pequenos estimular a prática da escuta de si e do outro como um processo contínuo de aprimoramento. Isso acontece por meio das trocas cotidianas em comunidade, da transmissão de histórias e da formulação de perguntas.

“A regra geral pode ser chamada de ‘perspectivismo’, ou seja, minha escuta deve reconhecer a perspectiva do outro na qual estou incluído. Ser visto e reconhecer minha posição no olhar do outro e, a partir disso, concluir qual a perspectiva que me cabe”, ensinam os autores.

Os sete tipos de escuta, segundo a sabedoria tupi

Conheça, a seguir, as sete formas de escuta reconhecidas e praticadas pela etnia tupi:

Ouvido esquerdo
(Kat’Mie)

Escuta associada à energia feminina, tida como passiva, apreciativa ou sem filtros, no sentido de maior acolhimento e abertura, pois não seleciona ou dirige a fala do outro. É o ouvido de quem gosta de “assuntar”.

Ouvido direito
(WaK’Mie)

É um modo de escuta associada ao masculino, não como gênero, mas como atitude propositiva, ativa e impulsiva.

Ouvido terra

Forma de escuta baseada no corpo e na receptividade global, mais tátil e concreta do que a que se pratica com os ouvidos. Percebe o ambiente com ênfase em suas pequenas diferenças.

Ouvido água

É o saber ouvir dos pescadores de afetos, emoções e sentimentos. Ela flui como a água, ora formando cascatas, ora em corredeiras intensas, ou ainda em vagarosa morosidade e até mesmo formando lagoas ou poças pantanosas.

Ouvido ar

É a escuta reflexiva ou filosófica, encontrada nos curadores de alma. Disposta a acolher aquilo que é mais reflexivo ou argumentativo construindo cenários e futuros possíveis assim como histórias imprevistas.

Ouvido fogo

Ouvir intuitivo ligado às narrativas imagéticas. É uma forma de escuta que convida para a ação, para a decisão, assim como para a solidariedade e comunidade entre as pessoas em torno de uma história ou de um sentido comum. Ela se faz valer de paisagens e cenários sonoros que aguçam a curiosidade em busca das possibilidades escondidas de uma determinada situação ou pessoa.

Todos os ouvidos integrados

escuta ampla e totalmente integrada, acessada por poucos, envolve coordenar os sucessivos movimentos cooperativos e competitivos, em um esforço simultâneo de acolher e transformar a situação pela ação conjunta dos participantes.

Que você possa se inspirar nesses ensinamentos e transformar sua forma de se escutar e, a partir daí, recepcionar o que chega do outro com genuíno interesse e não julgamento. Um saber ouvir a si e ao outro, afinal, pode ser transformador.


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