A Dança em Comunhão com o Divino

As danças circulares unem pessoas em torno da vida, de seus mistérios e do amor pelo projeto coletivo humano

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Lua no alto; fogo no chão batido. Ao redor dele, homens e mulheres dão as mãos e dançam em círculo. Desde tempos longínquos, a humanidade se une para reverenciar a vida e suas passagens: nascimentos, casamentos, mortes, plantios, colheitas, batalhas, chegadas e partidas das estações do ano.

O que vemos hoje em praças e parques com o nome de danças circulares é, portanto, a memória viva dos nossos ancestrais. O movimento dos povos nas mais distintas culturas. A vontade de se ligar ao próximo e de comungar com o divino.

Origens da dança circular

Bernhard Wosien (1908-1986), bailarino e coreógrafo polonês, amante dos símbolos, dos mitos e do folclore, recolheu essas manifestações em aldeias e vilarejos nos anos 1950 e 60. Como ele dizia, a melhor maneira de se compreender o mundo é por meio de uma “marcha viva”.

O movimento conjunto, em estado de presença, era fonte de cura para Wosien. Percepção que encantou os residentes da Comunidade Espiritual de Findhorn, no norte da Escócia, no ano de 1976.  Data que marca o nascimento da dança circular, com base na pesquisa do bailarino polonês.

Cada coreografia reverbera uma intenção, seja abençoar o planeta, agradecer por aquilo que recebemos diariamente, seja reverenciar os quatro elementos: terra, fogo, água e ar.

E muitas outras temáticas que dialogam com o acervo imagético universal. Algumas são reproduções fiéis de danças tradicionais; outras, criações contemporâneas.  Em ambos os casos, a origem e a autoria das sequências devem ser mencionadas aos presentes com o intuito de reforçar a preciosidade desse material.

Uma dança para todos

As danças circulares são para todos. Não há pré-requisito algum para começar. Não importam idade, gênero, aptidão física, experiência prévia. A focalizadora vai ensinando os passos e conduzindo o grupo, como um organismo vivo. 

Cada parte se reporta ao todo; o todo, responde às partes. Há harmonia. Quando se vê, corpo, alma e roda são uma coisa só.

Marli Lamanauskas, 75 anos, diz que suas vivências nos círculos dançantes sempre foram experiências ricas de significado. “A entrega na hora da dança me leva a encontrar meu Eu, às vezes tão esquecido e negligenciado”, revela. 

A conexão com seu mundo interno ultrapassa as resistências mentais, se desdobrando em sensações de liberdade e fluidez. Pode fechar os olhos por instantes e fruir esse estado de bem-aventurança.

Ao abri-los, mira seus pares, jovens, adultos, idosos. Estão todos ali, celebrando a vida ppor meio da dança. “Conviver nesses momentos com diferentes faixas de idade só tem me enriquecido, pois além de me trazerem recordações felizes, também me fazem perceber meu caminhar nesta existência”, reconhece, apaziguada.

A dança circular convida para a paz

“Acredito que o principal objetivo das danças circulares seja a paz, a comunhão.  Poder estar com o outro em sua diversidade e respeitar sua essência”, sublinha Factima el Samra, arteterapeuta, dançarina e focalizadora de danças circulares.

Quem entra na roda se abre para vivenciar uma cultura diferente da sua. Não há muros de espécie alguma. Apenas o desejo de partilhar sentimentos, sensações e conhecimentos. Experiência direta do estar junto. Sem mediação das palavras. “No círculo, lançamos um olhar sobre todos, mas respeitando a unicidade de cada ser, com o intuito de se criar um mundo mais acolhedor e amoroso”, esclarece Factima.

Na dança circular, celebramos a paz, a comunhão. O valor de estar com o outro em sua diversidade e essência. Foto:  Johnston, Frances Benjamin, 1864-1952 / Acervo da Library of Congress, USA

Girar e crescer: a energia da colaboração em movimento

A roda é o lugar da igualdade e do respeito. Faz ruir a hierarquia, dissolve a competição e o julgamento. As energias ali disponíveis convergem para o cooperar, o aceitar e o confiar. Em si e no outro. No gesto fundamental de apoiar e ser apoiado. Com graça e potência, as danças circulares renovam a fé no projeto coletivo humano.

Mas o Eu também se alarga. Entra em meditação. Silencia o íntimo. Toca sua centelha divina. À medida que a alma se expressa, amplia-se a percepção de si mesmo, da vida ao lado, do todo que pulsa, dos tropeços e acertos. 

Como diz Maria Gabriele Wosien, filha do precursor e pesquisadora das danças sagradas: ”O passo é a medida para o nosso caminho de vida – e por meio de cada passo que nós fazemos, cumpre-se o nosso destino”. 

Nesse sentido, o vir a ser impulsiona a roda. Pronta para incluir novas mãos. Até, um dia, abraçar o mundo. ▲

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