Guardiões de Sementes: Anjos da Natureza

A preservação de sementes originais resiste ao monopólio das multinacionais e vai além. É sobre o resgate de saberes comunitários
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Sementes são como embriões do nosso futuro. Mas também nos conectam com o passado, pois viajaram pelo tempo acompanhando os processos mais profundos da terra. “Ainda que se conheça muito sobre a origem do trigo, conhecendo os seus ancestrais há 7 milhões de anos, por exemplo, ainda não sabemos ao certo se na sua “domesticação” foram os seres humanos que o levaram  consigo ao se deslocarem, ou foi o trigo que levou-nos para os lugares onde ele melhor se adaptaria”, reflete o agrônomo e agricultor biodinâmico Nelson Jacomel Junior, da Redes Semente Livre.

“A criação da agricultura é uma iniciativa humana que se conta milhares de anos. Por um tempo nós tivemos uma percepção especial de onde vivíamos, uma relação especial com a Divindade. Para trazer uma data, há uma haste de trigo datada com 14 mil anos”, lembra ele.

Vale recordar que a partir do advento da agricultura moderna, fruto do período pós Segunda Guerra Mundial, uma mudança no uso de variedades de sementes, em que os agricultores passaram a assimilar o desenvolvimento pela crescente indústria, passou a ser observada. De lá para cá, com muito desenvolvimento urbano e rural depois, o resultado: quase perdemos a riqueza e originalidade das nossas sementes.

Quem são os Guardiões das Sementes

Não fossem verdadeiros anjos da guarda da natureza, que de geração em geração, desde tempos imemoriais, se comprometem em preservá-las, teríamos perdido um tesouro inteiro de diversidade. “A semente carrega em si o macrocosmo e o microcosmo”, resume Nelson.

É neste contexto que surge a figura dos Guardiões de Sementes. A prática milenar de preservar e trocar sementes crioulas, originais, sem “veneno” ou modificação não natural, na verdade, é ancestral. São agricultores, gente simples, que carrega na essência esta  responsabilidade.  

E graças a esses guardiões temos uma variedade de sementes preservada, frente ao monopólio alimentar ao qual somos submetidos. É uma resistência aos transgênicos e modificações alimentares. 

É que, na prática, preservam-se todos os tipos de grãos puros e partes de plantas capazes de serem propagadas, e que representem alguma importância, seja utilitário ou não. “Há uma infinidade de espécies e variedades em mãos de guardiões, as que se usam na alimentação, as não convencionais, as paisagísticas, as de florestas, e outras. É impossível enumerar”, explica Nelson.

Usa-se o nome “crioula” para uma espécie qualquer de planta, com a intenção de afirmar que ela é conhecida em um lugar em particular.  Foto: Jen Theodore

A semente crioula

Usa-se o nome “crioula” para uma espécie qualquer de planta, com a intenção de afirmar que ela é conhecida em um lugar em particular.  Tem feijão milho e arroz, mas tem também semente de hortaliças e plantas medicinais.

Diferente da transgenia, que é um processo caro e feito em laboratório, a sementes crioulas, pelas mãos dos agricultores, envolve uma mutação natural. Não à toa os guardiões de sementes são considerados o front da resistência contra o monopólio da indústria dos transgênicos. 

Conforme dados do Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração (ETC), as maiores empresas que atuam no ramo de alimentos controlam 60% do mercado de sementes e cerca de 70% do mercado de insumos como pesticidas e agrotóxicos

Agricultura popular e ancestralidade nas mãos dos guardiões de sementes

A agricultura familiar e os movimentos populares têm um papel de impacto na preservação da nossa biodiversidade, porque tratam de pautas agroecológicas, como a preservação das sementes, com um olhar que vai para além da segurança alimentar.

“É uma prática ancestral, mas nunca esteve tanto em evidência porque é um momento de urgência devido ao que estamos passando: a grande indústria querendo monopolizar nossa liberdade de consumo, a crise climática…Tudo está relacionado”, explica Marli Souza Fagundes, do coordenadora do MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores, na região da Bahia, mas que atua em mais de dezenove estados.

“A função dos guardiões de sementes é sobre soberania alimentar, ancestralidade e bem-viver das comunidades. É resistir a este modelo de produção capitalista, a qual chamamos de agronegócio, que envolve a negociação dos bens da natureza e utilização deles somente visando lucro e, pior, sem dialogar com a diversidade”, afirma ela

Preservar as sementes é um trabalho que tem sido feito a muitas mãos, por pessoas que cuidam da nossa terra e dos alimentos. Foto: jeshoots.com

Marli conta que, neste contexto, as mulheres das comunidades têm um papel de protagonistas e vêm liderando muitos encontros.  “Elas têm na essência que não é apenas uma questão de sobrevivência e plantar o que comer. Mas é também pensando nas gerações que nem mesmo conheceremos. É sobre futuro”, diz. 

A função dos guardiões de sementes é sobre soberania alimentar, ancestralidade e bem-viver das comunidades.

Para o guardião Evandro Teles de Paiva, “os guardiões de sementes precisam estabelecer uma relação de  confiança entre eles, porque lidam com troca a doação. Não pode haver espaço para o egoísmo”, diz ele, que vive na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais.

As sementes crioulas estão protegidas em cada canto do Brasil. Mas curiosos e entusiastas de plantão podem encontrá-las em banco de sementes tradicionais na maioria dos assentamentos e comunidades camponesas. E também eventos e encontros onde agricultores partilham saberes e sementes. Um movimento antigo, mas cada vez mais atual, de preservação da nossa história e da nossa terra.

Foto de capa: Etty Fidele

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