Uma Reverência à Cultura Africana

Resgatar tradições africanas e afro-brasileiras é honrar a nossa história e criar condições para uma humanidade justa

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Uma grande ciranda é formada por onde passa a dupla de arte-educadoras Ana Caroline da Silva e Amanda Cristina da Silva de Jesus. Nas rodas, histórias se fundem com brincadeiras, culinárias e atividades lúdicas que exploram a ancestralidade negra e suas influências nos dias de hoje.

“É nossa forma de partilhar, afetar e construir perspectivas de valorização dessa cultura, ainda pouco reconhecida e respeitada no Brasil, entre crianças e educadores”, explica Ana. Ao lado da irmã, ela conduz o coletivo Dudú Badé, cujo nome foi inspirado na primeira caça ao tesouro do projeto.

“Significa caçar em bando preto”, conta. E o objetivo disso tudo não poderia ser mais valioso: fazer com que as crianças negras saibam de onde vêm e, sobretudo, se orgulhem de ser quem são.

Fortalecer a cultura e a identidade negra

Atuar na infância, aliás, para fortalecer a identidade e a autoestima da negritude no Brasil e no mundo é fundamental também na visão da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma das escritoras mais influentes do nosso tempo.

Em seus livros, ela sustenta uma importante postura política dando visibilidade para mulheres negras e africanas. Mas nem sempre foi assim: na sua infância, Chimamanda só lia livros britânicos e americanos e, aos sete anos, quando começou a escrever, só relatava os tipos de história que conhecia.

“Todos os meus personagens eram brancos, de olhos azuis, brincavam na neve e comiam maçãs”, diz ela no TED Talks, lembrando da época em que acreditava que os livros tinham de ser estrangeiros por sua própria natureza – uma percepção que mudou ao descobrir livros africanos.

“Não havia muitos disponíveis, mas percebi que pessoas como eu, meninas com pele cor de chocolate, cujo cabelo crespo não dava para fazer rabo-de-cavalo, também poderiam existir na literatura”, conta.

Abandonar os estereótipos sobre a África

A escritora também critica os estereótipos negativos que muitas pessoas fazem da África. Para ela, é comum que relacionem o continente à fome, à pobreza e à AIDS, fazendo dessa versão a única história desse povo. 

“Insistir apenas nessas histórias negativas é superficializar um povo e negligenciar as outras histórias que o formam”, diz. E criar estereótipos é perpetuar estigmas que não condizem com a realidade completa de um lugar e de um povo com tanta cultura, riqueza e histórias potentes e ricas para compartilhar.

A África é a nossa casa ancestral

É no Brasil onde está a maior população de origem africana fora da África e, por isso, a cultura negra é um elemento essencial para a formação e valorização da nossa identidade desde o século 16.

Na Bahia, por exemplo, quase todos os pratos típicos vieram do continente africano, como vatapá, caruru e acarajé. Entre as músicas, o samba e o maracatu vieram de lá, junto de instrumentos como afoxé, agogô e cuíca.

Além disso, a tradição também se manifesta em religiões, roupas, artes, esportes, cabelos e até nas palavras do povo brasileiro. No entanto, foi somente no século 20 que os rituais africanos começaram a ser aceitos. Antes disso, eram proibidos, considerados o retrato de uma cultura atrasada.

“Por mais de 300 anos, o trabalho escravo foi o pilar da economia brasileira, sustentando a produção de riquezas para famílias”, lembra Selma Moreira, diretora executiva do Fundo Baobá, que mobiliza pessoas e recursos, no Brasil e no exterior, para apoiar projetos pró-equidade racial.

“Faz 131 anos que a Lei Áurea foi assinada e, mesmo assim, não houve nenhuma política de reparação, até os anos 90, voltada à população negra”, observa Selma.  Discutir o racismo estrutural infiltrado na nossa cultura e no nosso dia a dia é urgente para construir um presente digno e de igualdade.

Olhar para o presente

E as consequências de um passado ainda conduzem a desigualdade nos dias de hoje: 55,8% dos brasileiros são negros e “esse número não reflete a presença dessa população no ensino superior, mercado de trabalho ou cargos de liderança na política”, diz Selma.

Infelizmente ainda falta muito para o Brasil alcançar a equidade racial e a consciência negra entre nós. “Mas é fato que as ações afirmativas são um importante instrumento para mudar esse cenário”, acredita.

Por isso, a cada dia, reverenciar essa cultura tão rica, forte e resistente que veio da África e construiu nosso país é honrar a humanidade adormecida que nos habita. ▲

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