O Inverno Nos Convida a Cultivar a Vida Interior

No recolhimento dos meses frios podemos nos escutar com mais nitidez e nutrir o que nos pede para vir à luz. Afinal, quem não quer desabrochar na primavera?
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28.06.2022

Às 6h14 o inverno chegaria ao Hemisfério Sul. Avisaram os meteorologistas. Ele se infiltraria pelo vão da porta, pelas frestas da janela ou pelos poros da alvenaria? Pensei. Quando adentrasse a casa e me encontrasse no mais fundo dos sonos, teria que deixar seu convite nas mãos do meu inconsciente. Paciência. Uma vez acordada, ciente de que já estava nos braços da estação que me embalaria em cobertas felpudas pelo próximo trimestre, decifraria a mensagem inscrita na psique e traduzida pelo coração: “É tempo de acalentar o que ainda não nasceu”. Imagino que você também deve ter se dado conta disso à sua maneira. Do contrário, aproveite para fazer isso agora ou, no máximo, na próxima ventania.

Sei que a paisagem lá fora parece inerte, que as coisas aparentam estar congeladas de frio, de preguiça, de desânimo até. Mas não caia nessa, pois a natureza não falha. No subterrâneo, bem longe do mundo das aparências, as sementes vivem o tempo da incubação. E que tempo precioso este! Com elas podemos compreender que, à medida que a temperatura despenca, descemos para o reino da interioridade, lá onde é possível cultivar a vida íntima da alma, aquela que ninguém vê, que não se ostenta nem se comprova por meio de gráficos e estatísticas. Mas que nos anima como uma fogueira particular e sagrada. Só nossa. 

Então, diante da lareira, aconchegados numa cadeira de balanço, com meias de lã e um chazinho companheiro, podemos embalar e aguardar, embalar e aguardar o que nos for mais caro: anseios, sonhos, projetos, curas…o que desejamos ver germinar na primavera. 

Semente germinando

Precisamos silenciar para nos ouvir em profundidade

Quer uma trilha sonora de fundo? Silêncio. Não há outra mais apropriada. Porque é a partir dele que a gente pode começar a se ouvir. “Do ponto de vista espiritual, esta é uma época de regeneração, purificação e recolhimento. Quando refletimos sobre nosso caminho e fazemos as correções necessárias na trajetória para seguirmos na direção certa. O momento de vislumbrar o futuro, meditando e confiando nas orientações da nossa voz interior. É a incubação”, delineia a médica, psicoterapeuta e consteladora sistêmica Cristiane Marino.

Tudo aquilo que ansiamos ver desabrochar na vida, mas que ainda não veio à luz, carece de nutrição, explica Cristiane. Então, no resguardo dos tempos quietos, convém acarinhar os sonhos com uma mão e, com a outra, reunir forças, habilidades ou compreensões para que eles ganhem a forma do real no por vir. “Nossas sementes são estímulos para o nosso crescimento, porque, para que alcancemos determinado objetivo, precisamos nos transformar para estarmos à altura de chegar lá”, ela clareia. Mas sem afobação, é preciso ressaltar. Invernar pede calma. E bastante contemplação.

Nesta temporada, algumas perguntas podem fertilizar aqueles cantinhos que não costumamos visitar na pressa dos dias: O que eu preciso despertar em mim para que meu anseio seja realidade? Que habilidades eu preciso nutrir, aprimorar ou construir para que eu caminhe na direção do meu propósito, do meu sonho? O que venho fazendo me fortalece ou me enfraquece? Coloca-me na direção do que eu desejo ou me desvia dele? 

Flor rosa

Os sentimentos se descongelam quando acolhidos

Daí é só aguardar, pois revelações se colocarão a caminho da consciência. Sim, a alma gosta de ser acordada pelas nossas indagações, de nos ver inteiramente disponíveis à sondagem interior. Ela quer nos ouvir e nos guiar em meio ao que emergir, sejam mágoas, medos, dores, tristezas. Pode ser que tudo isso aperte, revire, machuque um pouco, pois, como lembra a psicoterapeuta Neiva Bohnenberger, “os invernos nos desafiam a enfrentar a dolorosa nudez”. Tal qual a árvore que espantou suas folhas no outono, agora podemos enxergar nossa estrutura, nossas raízes, nossa história com mais nitidez. De onde e de quem viemos? Como somos? O que amamos? O que nos deixa aflitos ou medrosos? Do que abdicamos e em nome de quê?

“São sentimentos que guardamos e que, no tempo, resfriaram, congelaram, endureceram e que agora, na luz e no calor do acolhimento, têm a possibilidade do derretimento, trazendo de volta a confiança, a alegria, a beleza e o Amor”, vislumbra Neiva. Sempre o amor, isso mesmo. Sem ele como poderíamos acolher a nossa humanidade imperfeita como ela é e nos permitir o riso, o bem-querer, o perdão, apesar de tudo? “A pulsação do coração nos ensina que estamos nesta existência para a alegria da Alma”, acredita a psicoterapeuta.

Ela, que é gaúcha, lembra da criança que ela foi e do que aprendeu nos campos gelados do sul. “Corria pelo gramado branco e liso de geada, a espalhar o vapor que virava bruma, sentir o nariz ou não sentir o nariz, mãos e pés que doíam de congelada e correr e apreciar o ajuntamento familiar ao redor do fogão e assim sentir o calor”, resgata do baú das memórias felizes. Porque os pequenos encontros nos ajudam a atravessar o frio. 

Nas horas mais escuras, temos onde nos escorar. Nem que seja na  simples constatação de que inverno nenhum dura para sempre. “Tudo se torna novo quando o gelo se desfaz, a indiferença acaba e surgem as escolhas”, reforça Neiva. Quem pensa que o cultivo interior está mais para os lados da passividade, se engana. “Cair em si”, como ela diz, dá trabalho, por vezes, assusta, mas a gratificação da vida nova traz sentido para cada passo. “É tempo de selecionar, enfrentar os desafios, escolher as condições, aceitar o convite de não olhar para trás, fazer a travessia e olhar a estação seguinte”, encoraja a psicoterapeuta.

Brotos saindo da terra

O corpo sabe nos embalar; confie em sua sabedoria

O físico também está atento aos apelos do inverno. Nesta estação, explica a terapeuta corporal, professora de dança e reeducadora do movimento, Nara Vieira, os músculos da frente e do centro do corpo são mais solicitados. Por que justo eles? Porque, veja só, a natureza nos quer enrodilhados, aconchegados em nossos casulos. “Posições de enrolamento recuperam o primeiro estágio do nosso crescimento, que é a posição fetal. Arredondam o corpo, descansam costas e vísceras, simulam um retorno ao útero, nutrem e amenizam as novas adaptações que cada estação anuncia. Repare como os animais, em sua maioria, também o fazem. Representa um voltar para si”, ela explica, permitindo, assim, que a gente se encante pela sabedoria entranhada em nossos corpos.

Este também é o momento de cuidarmos dos rins, ela avisa. “Eles são os órgãos da vitalidade, da coragem, colaborando com a missão desta estrutura psicocomportamental que representa nossa ânsia por consciência, conhecimento, um olhar alongado que deseja o porvir, que, se bem ajustado, tem toda a chance de conquistar”.

Mas não se alarme caso se sinta em descompasso com a natureza, com seu corpo, com sua alma, que, ao fim e ao começo, são a mesmíssima coisa. Podemos resgatar essa conexão devagarzinho, de escuta em escuta, de carinho em carinho, confiando no poder do que é simples. Como propõe Nara: “Se a pele, periférica, pede mais agasalhos, a ‘casinha do interior’ pede aconchego, caldos quentes, livros, amarelo do sol, estudos adiados, escuros iluminados, vazios ávidos para serem preenchidos”, ela poetiza. 

Os extrovertidos têm a maravilhosa oportunidade de descobrirem o prazer de “agasalharem-se em si mesmos, brincando com bolsas de água quente, aquecedores, cachecóis, meias e arte que abre os ‘olhos dos meus olhos’”, ela propõe. Os introvertidos, por sua vez, se sentirão ainda mais em casa. A eles a terapeuta recomenda a partilha do que lhes percorre por dentro. “A escrita, a conversa, o instrumento musical, a troca energética com óleos essenciais que exalam das plantas, banhos de natureza que regulam tensões, exercícios preferidos, silêncios compartilhados, meditação em movimento”, lista Nara.

Ela fala com tanto gosto do inverno porque nasceu numa cidade muito fria, no sul de Minas. É, portanto, filha das baixas temperaturas. Suas lembranças nos levam para esse recanto gostoso de se visitar nesta época, nem que seja pegando carona na reminiscência de alguém. “No inverno, dispensávamos a mesa de refeição para comermos no quintal ensolarado. Olhos de criança, cidade tão pequenina, prato no colo, a família grande se deleitava com a simplicidade do instante-encontro-quase silêncio, agasalhada por uma natureza exuberante de montanhas azuis, sonhadoras. Ainda hoje, peço licença e vou comer no sol. Meu corpo insiste em recontar memórias aprazíveis”.