Precisamos Falar Sobre Cocô: A Relação entre Bactérias, Intestino e Saúde

A nutricionista e terapeuta ayurveda, Laura Pires, explica a importância do nosso sistema digestivo para a saúde – e como hábitos simples da rotina equilibram (ou desequilibram) a nossa microbiota
5 minutos de leitura
23.11.2021

A literatura moderna relacionada às ciências biológicas mostra que existem mais de 100 trilhões de bactérias vivendo no intestino humano. Se compararmos com o número de células em nosso corpo – que chega a cerca de 10 trilhões – podemos dizer que a maior parte do nosso espaço corporal é compartilhado com mais de 4 mil espécies de bactérias. Esse número nos faz um alerta importante: se quisermos ser mais saudáveis, precisamos olhar mais para o nosso organismo, entendendo como ele funciona. Inclusive, olhar para o nosso cocô.

Laura Pires, nutricionista e terapeuta ayurveda, trouxe o tema do coco para o Festival Path Amazônia de 2021. Laura, que também é professora no curso YAM Ayurveda: Ciência da Vida, Alimento para a Alma, explica que o sistema digestivo afeta não só o corpo, mas também a mente. Cuidar da digestão significa prevenir doenças.

“O que acontece é que vários fatores relacionados à vida cotidiana vão interferir nessa população bacteriana”, diz Laura.  Ela explica que existem bactérias descritas como boas e as descritas como não boas, ambas convivendo em harmonia com nosso sistema. Mas, dependendo do nosso comportamento, da nossa rotina e do que comemos, essa colonização de bactérias pode mudar. Até a via de nascimento influencia nisso. 

“A ciência moderna já sabe que pessoas nascidas de cesariana têm uma microbiota diferente daquelas que nascem de parto natural. Então isso faz com que a gente também tenha um modelo de desenvolvimento do nosso sistema em relação a nossa imunidade,  o auxílio na nossa digestão com influência dessa microbiota intestinal”, explica a nutricionista.

Boa alimentação e bactérias em harmonia


Além disso, Laura Pires também conta que nossa alimentação na primeira infância e principalmente ao longo de toda a nossa vida vai influenciar na qualidade dessa microbiota. “Se a gente começa a mudar os hábitos de forma mais positiva para saúde, os microrganismos vão se adaptando e consequentemente influenciam de forma positiva a nossa saúde”, conta Laura Pires.

A prática regular de atividade física é fundamental para que essa microbiota seja mais saudável. Além disso, o processo natural de envelhecimento e o uso de remédios também podem influenciar estas bactérias. O que Laura Pires quer dizer com tudo isso é que a nossa saúde e comportamentos durante toda a vida estão relacionados a estas bactérias. E que precisamos aprender a conviver melhor com elas, inclusive observando os sinais do corpo. “Alterações e influências na nossa microbiota intestinal afetam todo nosso sistema. E os sinais e sintomas desse desequilíbrio aparecerão não só no nosso trato gastrointestinal, mas na nossa pele, no nosso cabelo, nas unhas”, explica.

Laura sugere que comecemos a nos observar, percebendo sintomas como azia em algum momento do  dia,  prisão de ventre, gases, barriga inchada, desconforto antes, durante e depois das refeições, entre outros sinais. “É muito importante que por meio do autocuidado e da auto observação a gente comece a perceber esses sintomas. Porque, se eles não são cuidados e manejados de forma adequada, depois de um tempo eles começam a agravar e depois a cronificar, favorecendo que doenças se estabeleçam no nosso sistema”, observa. 

Tabela de tipos de cocô

Qual a qualidade do seu cocô?

A qualidade das fezes pode indicar problemas e dar pistas para um caminho de tratamento. Através da escala de Bristol (que demonstra como referência a qualidade das fezes humana), Laura Pires exemplifica como identificar os sintomas e agir diretamente na causa. Essa escala separa a aparência das fezes em 7 níveis de qualidade: desde pequenos fragmentos ao formato de tiras grandes. Nosso cocô deve variar entre o tipo 1 e 3 para ser considerado como um sintoma de intestino funcionando bem. 

Aliás, ficar enfezado tem mesmo a ver com cocô. “Um intestino equilibrado melhora o nosso humor e também influencia na absorção de várias vitaminas”, completa Laura Pires.  Essa é uma das premissas da Ayurveda: boa digestão dos alimentos significa melhora na absorção de seus nutrientes. Por isso, hábitos responsáveis têm um grande impacto nisso. Comer e logo após dormir, por exemplo, deveria ser proibido. O ideal seria que a última refeição do dia acontecesse de 2 a 3 horas antes de se deitar, para que a digestão possa acontecer de maneira mais adequada. “Assim, digerimos o alimento de forma eficiente e também temos um sono reparador”, observa. 

Laura Pires observa que, se já sabemos que um alimento ou um hábito não nos faz bem, devemos tratá-lo como exceção ou, melhor ainda, mudarmos esse hábito. “Antes de querer fórmulas, ervas, mágicas que vão melhorar nossa microbiótica, a gente precisa se alimentar com alimentos prébióticos” diz Laura, que recomenda fibras e água como agentes fundamentais no bom funcionamento do intestino. E, sobretudo, um olhar cuidadoso com a nossa própria existência.  ▲