O Alto Custo da Superprodutividade: Por Que Estamos Adoecendo

O excesso de trabalho está deixando um rastro de pessoas doentes pelo caminho. Veja como encontrar folga nessa sobrecarga e caminhar bem pela vida
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08.06.2021

Cada época sofre suas enfermidades. A deste nosso tempo é o cansaço. Estamos exaustos. Não apenas devido a uma fadiga pandêmica resultante da hipervigilância e do enfrentamento de um novo coronavírus (o Sars-Cov-2, na verdade, só evidenciou um quadro de longas jornadas de trabalho que já existia). Estamos exaustos há séculos. De tanto correr contra o relógio, de tanto melhorar a performance, de tanto superar metas.

Sociedade do Cansaço, enfim, é como nos define o título muito rico de um livro de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. Publicado originariamente em alemão, foi traduzido para o português em 2015 e desde então tem orientado teses e produzido reflexões. 

Segundo o professor Elton Corbanezi, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Mato Grosso, o livro curto de Han (80 páginas), numa época de velocidade e esgotamento, “trata de forma precisa o aspecto tenebroso da valorização de indivíduos inquietos e hiperativos, e que se arrastam no cotidiano produtivo realizando múltiplas tarefas”. 

Afinal, como chegamos a esse ponto em que parar parece simplesmente errado e leviano?

Cultura non stop

É difícil identificar um acontecimento desencadeador da sociedade que nunca descansa. Mas a revolução industrial, marco do capitalismo moderno, tem grande contribuição nessa história. “Ali, de fato, muda o modo de produção”, pontua Corbanezi. “A princípio, as máquinas possibilitariam produzir mais gastando menos tempo. Em vez de produzir para atender as nossas necessidades, a revolução tornou possível produzir em escala, para muito além do necessário”. 

Associado à tecnologia, continua o professor, a década de 1970 trouxe um contexto mundial de crise do petróleo e aumento do desemprego. E tudo imerso em um caldo de contracultura, que propunha autonomia, liberdade de pensamento e atos. “Neste cenário, surge uma nova ordem social: cada sujeito será responsável pelo próprio destino, seja de sucesso ou de fracasso. Independentemente das condições materiais, culturais, familiares e da singularidade individual, todas as pessoas teriam a mesma possibilidade de progredir. Essa lógica da autonomia, no decurso do tempo, fez com que a produtividade fosse se impregnando como uma cultura”, esclarece o sociólogo.

“Então, à medida que meu sucesso depende do meu esforço, vou trabalhar mais agora e deixar a vida para depois. Diferentemente do operário até os anos 1950 e 1960, que saía da fábrica e ia para a vida, nos anos 70 a fronteira entre tempo de trabalho e tempo livre começa a se dissolver completamente. E a vida que deveria começar ao sair do trabalho nunca começa”, detalha ele. “O cansaço estrutural chega a partir desse momento em que o desempenho é o centro da questão e nós nos tornamos os únicos responsáveis pela nossa condição e pelo nosso futuro”.

“Se depende de mim, não posso parar”. Será?

Byung-Chul Han e outros autores chamaram essa percepção de “eu posso tudo, basta querer” de autoempreendedorismo de si mesmo. Para esses “empresários de si mesmo”, só uma coisa poderia impedi-los de ser bem-sucedidos: eles mesmos.  “O lado cruel de concorrer consigo mesmo é a falta de limite. Se tenho a liberdade de conquistar qualquer sonho, seja um emprego x, um corpo y ou um relacionamento h, então, não posso parar”, traduz Denise Pará Diniz, psicóloga comportamental e coordenadora do setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Universidade Federal de São Paulo. 

Na opinião da profissional, “esse exagero de positividade acaba se tornando tóxico quando, em vez de projetos, disparamos projéteis contra nós mesmos, agredindo o corpo e a alma com uma auto exigência sem fim”. O problema é que assim estamos vivendo por cerca de 50 anos.

Mulher agachada com o rosto coberto pelos braços

Impactos da superprodutividade na vida física e mental   

Há muita dor em uma sociedade que explora a si mesma. Uma pesquisa recém concluída da Organização Mundial da Saúde constatou que o excesso de trabalho (jornadas acima de 54 horas semanais) está associado a um risco 35% maior de acidente vascular cerebral e um risco 17% maior de doença cardíaca isquêmica, na comparação com jornadas de 35 a 40 horas por semana. 

Com a pandemia, o incentivo declarado ao home office estendeu ainda mais a carga diária de trabalho, mas essa já era uma tendência nociva nos últimos anos e vem causando uma cascata de efeitos colaterais delicados.

Segundo o psicólogo social Thiago Bloss, que estuda como o indivíduo se forma na cultura em que vive, a sociedade da performance vem colapsando porque não sabe descansar. “Tanto que acontece uma contradição. Por mais esgotada que esteja, quando chega a noite, a pessoa não dorme porque o cérebro ainda está superestimulado e não sabe como desligar”, explica o psicólogo, que é também professor da Universidade Nove de Julho, em São Paulo e autor do recém-lançado O nascimento da psicologia social no Brasil (Appris editora). 

Os sintomas dessa pane pessoal, como vimos, vão muito além da insônia. Infartam ou têm um derrame cerebral, como comprovou o estudo da OMS, minam a potência individual, causam alterações de humor, dor de estômago ou cabeça, e, em grande parcela da população podem levar a quadros de depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e burnout. 

“Não à toa a indústria farmacêutica é uma das que mais lucra no mundo. Oferece drogas que são justamente voltadas, de um lado, para a manutenção e aumento de desempenho, e, de outro, para o relaxamento. Resultado, as pessoas estão cansadas, hiperestimuladas e dopadas”, pontua Bloss.

Sem pausas nem para a morte

Para se ter ideia da mão pesada imposta pela performance, um documento da Associação Psiquiátrica Americana trata da tendência de desaparecimento do luto na sociedade do desempenho.

“Enquanto no DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais), revisado em 2000, a tristeza decorrente da perda de um ente querido poderia durar até dois meses, sem configurar sintoma patológico, no DSM-5, de 2013, a tolerância é reduzida para apenas duas semanas”, diz Corbanezi, que pesquisou o assunto para sua tese de doutorado “Saúde Mental, Depressão e Capitalismo” (a ser lançada em livro, em junho próximo, pela editora Unesp). 

“Há uma espécie de sinergia entre o desenvolvimento econômico, o cultural e a perspectiva científica da psiquiatria.  Quando ela reduz o tempo de luto, deixa claro mais uma vez que o indivíduo está sendo convocado a voltar à atividade o quanto antes”, afirma o estudioso.

“Caímos novamente no universo do doping já que, para atender essa lógica da performance, que restringe o período de sofrimento, o recurso mais breve é a medicação.”

Onde buscar esperança e pausa

Antes de mais nada é preciso um apoio gentil para dar suporte a uma alma cansada. E a gentileza das gentilezas, acredite, é tentar se desconectar um pouco. 

Como diz Byung-Chul Han, “precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter”. “Precisamos de um tempo realmente livre, sem fazer nada de produtivo, sem nenhum vínculo com a nossa atividade profissional”, distingue o psicólogo Thiago Bloss. “Ioga, por exemplo, é excelente para mente e corpo, desde que o motivo de praticá-la não seja retomar o equilíbrio para trabalhar mais”.

O especialista destaca, ainda, que se afastar por um tempo das telas de computador, TV ou celular colabora com a intenção de limpar a mente. “A gente passa o dia inteiro conectado a uma tela de trabalho e depois, para descansar, passa para outra tela (da TV ou streaming). Essa é a típica sociedade que nunca desconecta. Para romper com ela, vale tentar passar um dia, ou, quem sabe, um final de semana com os aparelhos eletrônicos desligados”, incentiva.

Faça um raio-x da sua vida

Para quem tem dificuldade de separar o tempo de trabalho do restante, a psicóloga Denise Diniz propõe desenhar uma roda da vida. É só fazer um círculo e fatiá-lo como se fosse uma pizza tendo o cuidado de dar diferentes tamanhos a essas fatias conforme a proporção de tempo dedicada a elas. Isto é, se o tempo dedicado ao trabalho for de um quarto do dia, desenha a fatia proporcionalmente a isso. 

O mesmo raciocínio vale para o ‘pedaço’ do dia dedicado à alimentação, às atividades físicas, ao relacionamento familiar ou amoroso, aos estudos, à espiritualidade e ao lazer. “Esse raio-X da distribuição de tempo ajuda muito a ter consciência dos pontos que precisamos melhorar”, afirma ela.

Por falta de repouso, já dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche no século 19, nossa civilização caminha para a barbárie. Nuccio Ordine, um italiano filósofo contemporâneo autor de A utilidade do inútil (Zahar) parece concordar. “Há saberes que têm um fim em si mesmos e que – exatamente graças à sua natureza gratuita e livre de interesses, distante de qualquer vínculo prático e comercial – podem desempenhar um papel fundamental no cultivo do espírito e florescimento da humanidade”.

Guarde isso em mente e pode ser que uma hora dessas, desavisadamente, você encontre esse saber desinteressadamente inútil, belo, folgado. Comigo aconteceu de me deparar com os haicais de Paulo Leminski – a leitura desses poemas curtos se tornaram a minha chave para abrir uma fenda no tempo e encontrar espaço e oxigênio sempre que preciso. ▲