Fitoterapia do Futuro: O Poder de se Cuidar com as Ervas

As plantas são capazes de tratar do nosso corpo físico e espiritual. E podemos nos aproximar desse saber para ganhar mais responsabilidade e autonomia nos cuidados com a saúde. Veja como começar
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17.05.2021

Aos cinco anos de idade, Lucely Pio começou a ir com a avó para a mata colher plantas, na Comunidade Quilombola do Cedro, em Mineiros, no estado de Goiás. A sábia raizeira ensinava uma Lucely aprendiz a observar o formato das plantas. Algumas delas se assemelham aos órgãos humanos que têm o potencial de curar, observava a anciã. Se for parecido com a coluna vertebral, por exemplo, serviria para dor nas costas.  Nos mais de 400 cursos feitos na área de fitoterapia, Lucely descobriu que o conhecimento de sua avó tem comprovação científica. “A semelhança entre o formato das folhas e os nossos órgãos, na homeopatia, é entendido como ‘tratar semelhante como semelhante’”, conta a hoje poderosa raizeira e especialista nas plantas medicinais do Cerrado.

O conhecimento das ervas para cuidados em casa, como faziam nossos ancestrais, foi se esvaindo no ocidente. Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), investiu-se em equipamentos que produziam milhares de comprimidos em um curto período de tempo, conta a farmacêutica Jeane Nogueira, especialista em Fitoterapia Clínica

Buscando eliminar a concorrência, a indústria farmacêutica se apoderou da sabedoria popular e minou o acesso a ele. “Para vender novalgina não faz sentido divulgar que uma planta medicinal como a achillea millefolium tem a mesma função de aliviar a dor que aquele remédio”, explica ela.

Hoje, a resistência aos efeitos colaterais de muitos medicamentos da alopatia, além de uma busca por uma vida mais natural, tem nos levado a um caminho de volta às plantas medicinais. Essa direção aponta para um futuro onde a fitoterapia se tornará uma aliada nos cuidados com a saúde, sem tanta alopatia e atendimento médico. “A própria indústria farmacêutica percebeu essa demanda e abriu os olhos: por volta de 10% dos medicamentos de venda livre nas farmácias hoje são fitoterápicos”, diz Jeane.

Ayurveda e as especiarias da sabedoria milenar

Se o conhecimento sobre as ervas foi consideravelmente suprimido na sociedade ocidental pela expansão da indústria farmacêutica, nas medicinas tradicionais chinesa, japonesa e indiana, ele reverbera com força. Na Ayurveda, tradição milenar na prevenção de doenças na Índia, ervas e especiarias são essenciais para manter corpo e espírito sãos.

Através da auto observação e da escuta interna, é possível identificar desequilíbrios e corrigi-los com as plantas medicinais, garante a terapeuta ayurveda Giedre Benjamin. Ela explica que a escolha é feita a partir dos atributos das ervas, como sabor (doce, salgada, picante, amarga, ácida ou adstringente), potência (fria ou quente) e local de ação no corpo (fígado, sangue, sistema digestivo, aparelho reprodutor etc).

Assim, se você tiver um desequilíbrio no elemento fogo, representado na Ayurveda pelo dosha Pitta – caso de inflamações, coceiras e vermelhidão na pele –, deve evitar o gengibre fresco, uma erva de potência quente. Já a carqueja e o coentro fresco, de natureza fria e amarga, são uma boa pedida por ajudarem a mobilizar toxinas para fora do corpo.

Outros exemplos de ervas de uso culinário são a cúrcuma, que tem ação anti inflamatória, anticancerígena, protege os tecidos do corpo e melhora o agni, nosso poder de digerir os alimentos. Já a erva doce ajuda a combater a distensão abdominal e os gases. Com atividade desintoxicante, o manjericão é ainda conhecido como uma planta protetora do pulmão. 

“As especiarias não só dão sabor e cheiro ao que comemos, mas também possuem uma grande propriedade terapêutica”, diz Giedre. “Podemos fazer dessas ervas de consumo diário o nosso remédio.”

Benefícios da fitoterapia desde a raiz

Além dos benefícios físicos, as ervas agem ainda mais profundamente em nós. “Elas ajudam a fortalecer todas as células do nosso corpo. As células mandam mensagem para o subconsciente e o corpo todo reage”, diz a erveira e fitoterapeuta Lucely. 

Ela explica que os remédios da alopatia isolam um princípio ativo das plantas em sua composição, enquanto as ervas trazem em si uma grande variedade de componentes que trabalham nosso corpo física e energeticamente. “Os terapeutas holísticos, com as ervas, tratam a pessoa como um todo, desde a raiz, não como um fígado que está doente.”

A terapeuta Giedre lembra que a medicina moderna ajuda, sim, em muitos casos, mas é limitada ao corpo metabólico e bioquímico, excluindo o corpo espiritual. “As plantas têm o poder de trazer a conexão desses corpos. E assim ter uma cura em um nível muito mais profundo e completo”, diz.

Desenho antigo da planta Curcuma

Cuidados e autonomia na fitoterapia

O uso das ervas na fitoterapia exige, além de um auto estudo, uma busca por informações em fontes confiáveis. O Guia Prático O Poder das Especiarias, preparado pela especialista Laura Pires, professora do curso YAM Ayurveda: Ciência da Vida, Alimento para a Alma, é uma delas. Órgãos oficiais, como a  Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa, também trazem documentos potentes, como o Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira, que traz ervas populares, suas propriedades, modos de uso e contra indicações.

Afinal, assim como são poderosas para o bem, usadas de forma equivocada, as plantas podem intoxicar o nosso organismo. Em uso contínuo, ervas medicinais podem reagir com diversos medicamentos e afetar pessoas com condições específicas, como diabéticos, hipertensos, grávidas e crianças. Por isso, orientações encontradas em documentos e através de conhecedores das plantas, sejam líderes de comunidades tradicionais ou profissionais de formação acadêmica, são essenciais.

“É preciso ter autocuidado e autonomia para escolher o que eu quero para cuidar da saúde. Mas, para isso, é preciso também ter conhecimento e só tenho acesso a ele se me for transmitido pela oralidade ou pela escrita”, resume Jeane. Para se aproximar do mundo das ervas, ela recomenda também ter um vasinho com uma planta medicinal por perto. “Você pode ter erva cidreira, capim limão, orégano, manjericão… Bote em uma parede onde bate sol ou no quintal. Comece.” 

Para Lucely, quanto mais perto você buscar a sabedoria das ervas, melhor. Afinal, toda comunidade tem alguma conhecedora do assunto. “As pessoas têm que conversar com um ancião dentro da comunidade, perguntar como fazer como colher as ervas e prepará-las, anotar as informações e colocar em prática”, aconselha. Comunidades tradicionais, como as indígenas, quilombolas e ribeirinhas, são uma rica fonte dessas informações e devem ter sua sabedoria valorizada.

Como começar a usar as ervas

A fitoterapia do futuro diz que vamos aprender as dosagens das ervas para cada problema e suas propriedades, e seremos capazes de nos cuidar em casa e com mais autonomia. Integrante da Comunidade Quilombola do Cedro, a raizeira Lucely nos guia sobre como adentrar no mundo das ervas. 

RESPEITO

O primeiro passo é pedir licença e ter muito respeito ao se aproximar desse universo, guardado por seres e energias invisíveis aos olhos. 

MODOS DE USO

A especialista ressalta que as plantas transmitem sua cura e sua sabedoria de diversas formas: através de chás, temperos, banhos, florais, óleos essenciais e até mesmo plantada em casa, onde ajudam a equilibrar nossa energia e a do ambiente. 

CHECAGEM

Ela reforça a importância de confirmar se a erva que você irá usar é a correta para o efeito que pretende e qual é a maneira mais adequada de uso para o seu caso. Consultar um(a) erveiro(a) de comunidade tradicional e documentos confiáveis é essencial nessa fase.

COLHEITA

Há horários certos de colheita para se extrair o melhor remédio das plantas. No caso de folhas e flores, o correto é colher até, no máximo, 6h30. A entrecasca, depois das 9h30. Já a raiz, após o meio-dia. O horário acompanha o trajeto da seiva, que se movimenta das folhas à raiz ao longo do dia. “Mesmo se for fazer um chá depois do almoço, colha a folha cedo e guarde sobre uma bancada, tampada com um pano molhado em cima para que não perca seu princípio ativo.”

PROPORÇÃO

Outro ponto de atenção é a quantidade de erva a ser usada no caso do chá. Se ela for fresca, deve-se usar 20 gramas para um litro de água. Ela deve receber a água depois de fervida para não perder suas propriedades. Já para a planta seca, a proporção é de 10 gramas a cada litro de água, e ela pode ser fervida junto com a água.

Desenho antigo da planta Melissa Officialis ou erva-cideira

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