Como Suas Escolhas Impactam Seu Estilo de Vida

A Ayurveda nos ensina a refinar a percepção para incluirmos na rotina tudo aquilo que se afina à nossa real natureza. Saiba como trilhar esse caminho de bem-estar integral
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28.04.2021

Você tem prestado atenção em seu radar interior? Para ser mais exata, você repara como suas escolhas e hábitos afetam o seu ser como um todo: corpo, mente e espírito? Para a Ayurveda, sistema de medicina milenar indiano, o que comemos, sentimos, pensamos, falamos, ouvimos e vemos nos impacta de alguma maneira. E precisamos tomar a frente desse processo se quisermos criar um estilo de vida mais saudável.

“Mesmo que tenhamos propensões genéticas, está comprovado que nossas escolhas podem ser cruciais para mudar o futuro da nossa saúde”, afirma a nutricionista e escritora Laura Pires, uma das maiores especialistas em Ayurveda no Brasil e professora do curso YAM Ayurveda: Ciência da Vida, Alimento para a Alma.

Como alerta Laura, a qualidade, a quantidade e a frequência daquilo que consumimos – de comida a notícias – é determinante para a manutenção da saúde e cada um precisa encontrar a dosagem adequada para si.

Céu estrelado do cosmos e o símbolo do elemento Ar

Somos um microcosmos dentro de um macrocosmos

Antes que você avente a possibilidade de erguer um muro entre você e o mundo, na esperança de se poupar de emoções desestabilizadoras, a Ciência da Vida descortina uma perspectiva bem mais construtiva. Vejamos quais são as linhas filosóficas que sustentam essa sabedoria ancestral.

A Ayurveda compreende que somos um microcosmos dentro de um macrocosmos. Isso significa que, assim como o universo é composto de ar, éter, fogo, terra e água, nós também somos constituídos por esses cinco elementos em combinações diferentes – cada um tem a sua.

É como se, no momento do nosso nascimento, a gente recebesse uma marca única, que a Ayurveda denomina prakriti, nossa real natureza. Ela começa a se formar no momento da concepção e é determinada por três fatores: como o pai e a mãe estavam no momento da concepção, como transcorreu a gestação em termos emocionais e nutricionais e a memória que a gente traz de outra vida.

“A prakriti é fixa, mas podemos equalizá-la. Como quando você está sintonizando uma rádio. Quanto mais perto da estação, mais fluida está a música; quanto mais longe, mais ruído ela tem. Então, quanto mais de acordo com a nossa real natureza a gente vive, mais no fluxo da vida a gente está”, compara Giedre Benjamin, terapeuta ayurveda.

Pequenas ondas no mar e o símbolo do elemento Água

Podemos ter um estilo de vida equilibrado com escolhas conscientes

O que ocorre no dia a dia é que nossa natureza essencial sente os impactos das nossas escolhas e dos nossos hábitos. Ou seja, nosso estilo de vida contribui para uma vida mais ou menos saudável. “Nosso entorno vai influenciando na equalização dos cinco elementos que nos constituem. Aquilo que comemos, vemos, ouvimos, falamos, as coisas e pessoas com as quais nos relacionamos, o local onde moramos, o tipo de trabalho que temos”, lista Giedre.

Segundo a terapeuta, os quatro principais fatores que desregulam uma pessoa são: emoção, estilo de vida (hábitos diários), alimentação e ambiente.  Esses desequilíbrios, que abalam o bem-estar físico, mental e espiritual, recebem da Ayurveda o nome de vikriti. 

O que importa é compreender e tratar o que está causando esses desajustes, nos realinhando, assim, à nossa real natureza. “Quando desfrutamos de bem-estar físico, mental e espiritual, temos uma sensação de presença e pertencimento entre o microcosmos e o macrocosmos”, pontua Giedre.

Labaredas de fogo e o símbolo do elemento Fogo

Como está sua capacidade de metabolizar a vida?

A Ayurveda fornece ferramentas para entendermos como estamos nos comunicando com o externo e como essa relação reverbera em nós. Para começar, podemos observar mais atentamente os seguintes sinais.

“Como está a nossa digestão, ou seja, como estamos digerindo tanto a comida como as nossas emoções, aquilo que a gente ouve, lê, escuta. Enfim, como está a nossa digestão das coisas de um modo geral”, destaca a terapeuta. 

A digestão merece atenção redobrada, pois nossa saúde, segundo a Ayurveda, depende do agni, a nossa capacidade digestiva, compreendida nesse sentido mais amplo, de transformação. “Tudo o que vivenciamos, aceitamos ou não, afeta nossa digestão. Por isso, nossas emoções afetam a força do nosso agni”, ressalta Laura.

Para ser capaz de transformar tudo o que entra em contato com o nosso sistema, o fogo digestivo precisa estar estável – nem muito alto nem muito baixo – e apresentar boa qualidade. Por isso, para alcançar esse resultado, o tipo de alimentação e os horários das refeições, entre outros cuidados, são fundamentais. 

“Nós também precisamos observar como estão as nossas eliminações. Desde o funcionamento do intestino e do sistema urinário, passando pelo suor e pelo sono, até os ciclos que fechamos na vida e nossas reações diante das situações”, complementa Giedre.

Se nossa capacidade de metabolizar os diversos acontecimentos da vida estiver azeitada, é porque o fogo digestivo está sendo bem tratado e, portanto, cumprindo sua missão. “O agni equilibrado gera emoções benéficas para a saúde: coragem, alegria, lucidez, otimismo, entusiasmo e inteligência. Também fornece energia, vitalidade e um sistema capaz de manter a harmonia”, afirma Laura.

Mãos sujas de terra e o símbolo do elemento Terra

Mudanças consistentes para um novo estilo de vida

Se nosso corpo, mente e espírito emitem sinais de que não estão bem, conseguimos ajustá-los de acordo com os preceitos da Ayurveda. O problema maior é quando nos adaptamos ao que nos faz mal, com um estilo de vida que vai contra um estado de saúde. “Seria um estágio de adoecimento mais avançado, que pode ser, inclusive, assintomático, porque nossa percepção está anestesiada. Por isso, é tão importante percebermos como estamos operando com o externo, ou seja, como está a nossa ligação entre o microcosmos e o macrocosmos”, frisa Giedre.  

Nada disso acontece do dia para a noite, claro. Estamos falando de transformações que vão de aspectos mais físicos aos mais sutis. E como toda mudança exige prática e persistência, a Ayurveda trabalha com o Dinacharya, a rotina de hábitos benéficos que orientam o organismo a restaurar seu fluxo natural

“São ações simples e preventivas capazes de trazer benefícios imediatos, como mais disposição e vitalidade”, garante Laura. Dentre as recomendações do Dinacharya estão: horário adequado para acordar, dormir, se exercitar e se alimentar, passando pela importância de observar nosso corpo e nossa mente, até práticas éticas e de boa conduta.

Para nós ocidentais, essas diretrizes podem soar como um desafio rígido demais ou distante da vida contemporânea. Mas com abertura e curiosidade o foco passa a ser outro: quanta saúde se pode conquistar a partir de uma pequena mudança após a outra? “Mudar o padrão é um desafio, mas é possível. Tenha sempre em mente que as mudanças devem ser gradativas e, ao mesmo tempo, contínuas e efetivas”, aconselha Laura.

Rever hábitos é sinal de amor próprio

Pensando bem, reformular hábitos é uma atitude madura e responsável, principalmente quando eles não estão sendo mais benéficos para nós. É como um atestado de amor próprio: Não quero mais me machucar, portanto cuidarei do que precisa ser cuidado. Tendo clareza desse compromisso, foque na prática escolhida e siga em frente.

“É a frequência da ação que vai fazer com que o novo hábito se concretize. Por isso, temos que compreender, executar e sustentar a mudança”, orienta Giedre. Conforme você vai afinando essa escuta, vai refinando a percepção sobre si mesmo e sua real natureza. Deixa de ter dúvidas sobre o que te faz bem, o que te rouba energia, o que te traz sensação de leveza e paz, o que te cai mal. Enfim, vai se conhecendo profundamente e se posicionando sem medo. No seu passo, na sua medida. Afinal, desde sua concepção, você carrega uma marca única.

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