Como Cuidar das Emoções na Pandemia

Aceite este convite para preservar seu espaço interno e assim manter a mente e o coração fortificados nesses dias desestabilizadores – mas sem perder a ternura
8 minutos de leitura
09.04.2021

Quando o mundo ao redor está se esfacelando, precisamos cuidar para que a sensação de desalento não feche todas as janelas de casa. Isso seria o isolamento dentro do isolamento. Insuportável. Por mais difícil que pareça, podemos encontrar em nós mesmos maneiras de nos confortar nessa hora escura. Vamos pensar juntos sobre essa possibilidade de acolher melhor nossas emoções? Aqui ninguém solta a mão de ninguém.

Pra começar, vamos tatear esse “dentro”. Afinal, nem todo mundo tem clareza do que seria a interioridade, como pontua Bel Cesar, psicóloga que atua sob a perspectiva do Budismo Tibetano, especialista no tratamento do estresse pós-traumático e autora de oito livros, entre eles, O Sutil Desequilíbrio do Estresse (Gaia), escrito em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz.

“Há um lugar dentro de nós mesmos que é convidativo, bom de ficar, um lugar de autoacolhimento. Se não nos familiarizarmos com a sensação de estar apenas conosco de modo confortável, não seremos uma opção interessante quando tivermos medo, tristeza ou ansiedade. Daí aumentará a vontade de extravasar, sair de nós mesmos”, afirma Bel.

Se não dá pra fugir, fique consigo mesmo e com suas emoções

Só que, como ela bem observa, vivemos uma “crise de fuga sem saída”. Fugir pra onde, meu Deus? Portanto, eis o que ela propõe: “Quando não há para onde ir, só nos resta fazer as pazes com o que temos. Isso não quer dizer se submeter ao dano, mas encontrar um espaço interior capaz de nos autossustentar até que a situação melhore”, diz. 

“Preservar nosso espaço interno é um desafio para a vida toda. No contexto atual, em que nossa perspectiva de futuro está sendo tirada de nós e somos invadidos pela perplexidade, precisamos ainda mais distinguir as dimensões macro e micro, embora uma interfira na outra”, opina a terapeuta eutonista e professora de Mindfulness, Andréa Bonfim Perdigão, autora de O Dentro e o Fora: Conversas sobre Corpo e Felicidade (Patuá), além de Sobre o Silêncio (Pulso) e Sobre o Tempo (Pulso).

Nosso território interior, que a terapeuta chama de micro, pode se diferenciar um pouquinho que seja do contexto externo pra gente se sustentar com alguma firmeza. “Nesse lugar muito íntimo, a gente pode se segurar e saber que mesmo o mundo desmoronando, isso dói, mas podemos tentar continuar íntegros. Isso vem de uma prática constante de ficar consigo mesmo, como um cultivo diário de auto-observação”, ela orienta.

Como Cuidar das Emoções na Pandemia

Encontrando forças dentro da gente

Trilhar esse caminho em direção ao que nos é mais reservado, nossas emoções mais cruas e genuínas, é como buscar um armazém de forças à nossa disposição. “Ao parar de perder energia lutando com o fora ainda sem saída, podemos ganhar energia nos autoacolhendo”, explica Bel.

Há quem adube esse lugar com atitudes mais contemplativas, como meditar, rezar ou simplesmente pescar um ponto longínquo no horizonte. Outras arejam suas salas íntimas quando pintam, leem, bordam, tocam um instrumento, caminham, cozinham, cuidam das plantas ou limpam a casa. Você pode escolher o que mais lhe agrada e conscientemente se entregar a essa ação.

“Todas elas são atividades que nos convidam a pensar menos e a sentir mais. Isto é, sentir a vibração que surge quando paramos de lutar e usufruímos do momento presente. Com menos julgamentos, temos mais espaço interno, mais amor. Com mais amor, temos energia para seguir em frente. Ajudar a nós mesmos e aqueles que nos pedem por ajuda”, destaca a psicóloga.

“Expandir a consciência para a interioridade, para o entendimento de si mesmo, para o que se sente e vê, para o que nos mantém vivos, nos ajuda a ficar um pouco mais estáveis diante de uma realidade catastrófica”, reforça Andréa. 

Como Cuidar das Emoções na Pandemia

Permita-se buscar leveza no dia a dia

Períodos que se demoram em ser tão ruins, como diz a canção de Caetano Veloso, costumam amargar o cotidiano como aquela infiltração que se alastra na surdina. Afinal, dissabores sucessivos e prolongados vão minando nosso espírito e deixando a gente até com culpa de sentir algum prazer, uma mínima alegria que seja. 

Mas aí é que está a brecha para a luz entrar. Nos instantes em que nos permitimos, em meio à desolação, encontrar também possibilidades de encantamento, renovamos os ânimos, o que é fundamental para mantermos a coluna ereta e a fé no por vir.

“É possível ter momentos de paz e alegria e se sustentar na consciência desses momentos pra gente saber que não está tudo perdido”, encoraja Andréa, adepta de uma filtragem rigorosa em relação às informações que chegam via internet e redes sociais. Absorva o necessário e se preserve, ela recomenda.

Você não precisa ficar com medo de se endurecer e perder a capacidade de sentir empatia pelos demais seres do planeta. Como diz a terapeuta, você pode manter o coração aberto e, ao mesmo tempo, respeitar seus limites. 

Como Cuidar das Emoções na Pandemia

Nutrindo a si mesmo como um gesto de amor

Esse tipo de cuidado com o que deixamos ou não nos atingir é um gesto de amor por nós mesmos. Como Bel Cesar costuma dizer: ‘Posso ter que passar por uma situação difícil, mas vou de primeira classe’”.

 “Se as condições externas são limitantes e maiores do que nossa capacidade de ação, ainda assim podemos nos tratar bem”, ela defende. E mais, nos inspira a buscar todos os recursos possíveis para nos dar conforto e suporte em tempos críticos. Não há mal algum nisso, muito pelo contrário.

“Cada um tem os seus brinquedos, isto é, uma forma de nutrir-se e elaborar um equilíbrio entre os mundos interno e externo. Os meus brinquedos são livros, pintura, tricô e música, assim como a proximidade com aqueles com quem posso trocar afeto com fluidez”, revela a psicóloga.

Andréa, por sua vez, tem se abastecido nas primeiras horas da manhã quando vê estampada a felicidade do seu cachorro ao saber que irá passear e também os passarinhos que escolhem descansar no beiral da janela da sua cozinha. 

“Alegria e dor tecem uma trama muito fina, assim como o nascimento e a morte. Então, se eu deixar de enxergar os momentos bons, os instantes felizes, os carinhos que eu posso trocar com as pessoas, apesar da dor, estou matando a vida toda”, poetiza. 

Exercício para lidar com emoções intensas

O corpo sente o impacto das emoções e, em períodos de grande estresse como o que atravessamos, costuma se descompensar por causa da ansiedade desmedida frente à sensação de insegurança que nos assola. Muitos podem ser os sinais de desbalanço: alterações no apetite, dores de cabeça, enjoo, alergias, insônia e ataques de pânico. 

A seguir, Bel Cesar indica um exercício pertencente ao método Experiência Somática, criado por Peter Levine, que pode ser feito sozinho ou, melhor ainda, com o auxílio de um terapeuta. A prática nos ajuda a identificar, presenciar e rastrear o que está acontecendo em nosso corpo. Assim, começamos a dominar nossas emoções aflitivas.

  1. Feche os olhos para sentir melhor as sensações físicas mais sutis. 
  2. Em seguida, vá rastreando desde a cabeça até os pés onde há mais conforto ou desconforto no corpo. 
  3. Quando encontrar um lugar confortável ou, pelo menos, um pouco menos desconfortável, leve a atenção lá e, mesmo que a mente vagueie, volte o foco para este ponto. 
  4. Mantenha a mão sobre esse lugar, pois isso te ajuda a saber onde aterrissar a mente.
  5. Na medida em que você reconhece um lugar seguro em seu corpo, pode visitar os lugares desconfortáveis. 
  6. Ao pendular entre o conforto e o desconforto, você poderá notar que o corpo descarregará a energia antes parada pelas emoções congeladas ou ainda muito intensas de medo e raiva. 
  7. Tremeliques, arrepios, formigamentos, expirações longas, choro, sons vocais e arrotos são exemplos desta descarga quando seguidos de alívio.
  8. À medida que se consolida, a prática de direcionar a atenção para as zonas de conforto e desconforto corporais nos capacita a lidar com emoções intensas.

Leia também