Sonhos Para Seu Despertar

Sonhos são como portais, que nos mostram mais sobre nosso inconsciente e apontam caminhos a se tomar
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06.12.2020

Fabíola Carvalho morava na Califórnia com a família quando sonhou que deveria se mudar para Florianópolis. “Era um sonho muito claro. Na semana seguinte, comprei uma passagem e fui”, conta. “Confiar nesse sonho me trouxe mudanças imensas de vida.” Há dois anos na ilha, Fabíola trabalha facilitando rodas, encontros e projetos sociais “a serviço do Amor, do Mistério e da Alma”, como ela mesma define. O mundo onírico é uma de suas ferramentas para propor direções para si mesma e para quem a procura.

Além de ajudar a manter o bom funcionamento do nosso cérebro – garantindo uma boa memória e assimilando aprendizados – os sonhos são portais de autoconhecimento e de apontamento de novos rumos. Desde os sumérios, há mais de 2 mil a.C., há registros de sonhos guiando povos inteiros. Gregos e egípcios construíam templos onde as pessoas iam para sonhar e se curar de feridas na alma. 

Sonhos apontando caminhos

Povos originários em todo o mundo seguem consultando sonhos para tomar decisões e vislumbrar novos jeitos de estar na terra. Alguns deles compartilham seus sonhos logo pela manhã e seguem algumas das mensagens reveladas à noite, como deixar de caçar determinado animal para não desagradar os deuses, por exemplo. 

No livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, o pensador indígena Ailton Krenak reflete a respeito: “para algumas pessoas, a ideia de sonhar é abdicar da realidade, é renunciar ao sentido prático da vida. Porém, também podemos encontrar quem não veria sentido na vida se não fosse informado por sonhos, nos quais pode buscar os cantos, a cura, a inspiração e mesmo a resolução de questões práticas que não consegue discernir, cujas escolhas não consegue fazer fora do sonho, mas que ali estão abertas como possibilidades.”

Para os budistas tibetanos, o sonho é, inclusive, o nosso estado mais consciente. É quando temos acesso ao que, durante a vigília, se escondia atrás dos véus de Maya, a deusa da ilusão. Sonhar seria, então, um verdadeiro despertar. 

Resgatando os sonhos

Com a razão imperando desde o Renascimento (XIV-XVI), os sonhos foram sendo colocados de escanteio no Ocidente. Na sociedade capitalista, onde dormir é quase uma perda de tempo – e de dinheiro –, os sonhos não passariam de imagens sem sentido. Isso tem mudado, pouco a pouco, desde o século XIX, com os estudos e experiências clínicas de Sigmund Freud, criador da psicanálise, de Carl Jung, pai da psicologia analítica, e, mais recentemente, através do resgate do sonho como sabedoria ancestral. 

Para essas novas visões – ou visões antigas resgatadas –, sonhar é entrar em contato com partes ocultas dentro de nós e dos grupos em que vivemos. E, dessa forma, acessar o que está muito além do que a consciência ou a mente desperta seriam capazes de absorver e transmitir. 

“Até por conta das crises que estamos passando, como humanidade e planeta, as pessoas têm sonhado mais e se lembrado mais dos sonhos”, observa a médica e psicoterapeuta junguiana, doutora Cristiane Marino. Segundo ela, o isolamento social imposto pela pandemia fez com que as pessoas mergulhassem mais nas questões às quais antes faziam vista grossa, permitindo que a psique mandasse “recadinhos do coração” através dos sonhos.

Sonhos como sopros do nosso inconsciente 

Cristiane conta que a força do sonhar esteve presente em outros momentos históricos. Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, Jung e seus colegas identificaram sonhos em comum entre os pacientes. “As pessoas sonhavam com sangue, gente morrendo, uma nuvem cinza cobrindo toda a Europa…”, conta. Através dos sonhos, a sociedade europeia captou coletivamente a tensão que pairava no ar e que resultaria em uma futura guerra.

Premonições oníricas existem e funcionam a partir do mesmo mecanismo da intuição, explica a doutora Cristiane. Trata-se do resultado de uma percepção inconsciente resultante de estímulos que recebemos pelos cinco sentidos. Mas esse tipo de sonho não é o mais comum.

Na visão freudiana, os sonhos normalmente nos mostram desejos que não temos coragem de admitir. Outra interpretação vê os sonhos como compensadores: eles tentam apresentar algo que esteja faltando em nós. Por exemplo, se você é muito racional, seus sonhos tendem a evocar as emoções para equilibrar e complementar sua psique. 

Revelando a nossa alma

O sonho também nos convida ao desenvolvimento interior. “Quanto mais integramos aspectos do inconsciente, trazidos pelos sonhos, ao consciente, ampliamos os nossos horizontes e o nosso modo de estar no mundo”, explica Cristiane. Tesouros como a criatividade moram no inconsciente, por exemplo. 

Só silenciando a consciência e abrindo as cortinas do ego vigilante para desvelar aspectos importantes da nossa alma. Foi assim que o cientista russo Dmitri Mendeleev visualizou a imagem da tabela periódica, usada até hoje na Química. E que Paul McCartney ouviu pela primeira vez a melodia de Yesterday, que viria a ser um dos hits dos Beatles. 

Mas não é preciso ser artista ou cientista para ter acesso a essas riquezas. O sonho nos une e está acessível a todos. Basta se permitir e praticar. “Quem diz que não sonha, na verdade, não se lembra. Se a pessoa realmente não sonhasse, ela estaria muito doente”, explica Cristiane. “Porque os sonhos também têm a função de regular a saúde do cérebro, calibrando a memória e limpando a mente do excesso de estímulos do dia anterior para abrir espaço para novos estímulos no dia seguinte.” 

Sonhos são sagrados

Fabíola acrescenta a existência dos sonhos transcendentes ou espirituais. Através deles, podemos receber mensagens dos nossos mentores e guias, tendo acesso à sabedoria ancestral presente na nossa alma. 

“É preciso entender os sonhos enquanto sagrado. Um portal para o mistério. Eles estão a serviço da evolução espiritual, apontando caminhos para um bem maior”, afirma. “São mensagens que não vieram do seu ego que controla, mas de uma guiança superior, para que o seu caminho favoreça não apenas você, mas a toda humanidade.” 

Sobre esse sonhar além, Fabíola cita a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola, no livro Libertem a mulher forte (Rocco): “É como se nosso inconsciente selecionasse algum pequeno detalhe no qual estivemos pensando ou que estivemos vendo com os olhos da mente, mas a verdade é que a Alma sonha a visão maior para nós, não para que “saibamos” com exatidão algo para lá do óbvio, mas para que lembremos algo importante para a Alma. Às vezes a nossa própria Alma, às vezes a Alma de um ente querido; às vezes as Almas da família ou tribo; às vezes, quem sabe? A Alma do Universo.”

Em um projeto em que conduziu mais de 500 mulheres a compartilharem sonhos, Fabíola percebeu que muitos deles se cruzavam. “Muitas sonhavam com o parto de uma nova terra, de uma nova humanidade. O nascer de um novo tempo”, conta. Como não é possível comprar uma passagem para chegar a essa realidade tão sonhada, o segredo é prestar atenção aos sonhos e seguir seus passos rumo a desejos compartilhados.

Como sonhar mais?

Veja dicas das especialistas para se aproximar do mundo dos sonhos no seu dia a dia

1. Faça da vigília, sonho

“Quanto mais a gente trabalha na evolução da consciência durante o dia, mais temos sonhos que nos impulsionam”, afirma Fabíola. Ela recomenda meditar, fazer rituais e rezar. Uma mente limpa oferece mais espaço para os sonhos e a espiritualidade.

2. Prepare o ambiente  

Deixe seu quarto aconchegante. Você pode fazer isso acendendo uma vela ou ligando um abajur para entrar no clima. Uma vez por semana, faça uma defumação de ervas, como a sálvia, para limpar o cômodo energeticamente. A limpeza física também é importante: desfaça qualquer bagunça nos armários, estantes e debaixo da cama. Um filtro dos sonhos pendurado também ajuda a conectar esse ambiente com o mundo onírico. Tome um chá relaxante, de valeriana, por exemplo, e deixe os eletrônicos de lado duas horas antes de ir para cama.

3. Intencione

Expresse o desejo de fazer dos seus sonhos ferramentas de vida. Antes de dormir, firme sua intenção, dizendo: “Vou sonhar e vou lembrar”. Quando sentir necessidade, peça proteção e indicações de caminhos e de cura para alguma questão específica. “À medida que você faz isso, o sonho começa a trazer informações importantes”, diz Fabíola.

4. Acorde devagar

O ideal é acordar naturalmente, mas, se precisar usar despertador, programe um som tranquilo para tocar. Ao despertar, evite fazer movimentos bruscos ou abrir os olhos. Temos geralmente de cinco a dez minutos para resgatar os sonhos antes que um hormônio chamado noradrenalina estimule nosso corpo e nossa mente a agir, desfazendo as imagens oníricas. Dê atenção especial para a cena do sonho em que você despertou. Acordar em determinado momento pode ser um jeito da sua psique dar a você um recado sobre a importância daquele elemento específico. Pesadelos são craques nisso: nos acordam para nos despertar sobre um tema que precisamos trabalhar com urgência.

5. Registre

Tenha um caderno e uma caneta ou lápis ao lado da cama para anotar palavras chave, cenas, personagens e temas do sonho. “Ao escrever, você sinaliza para a sua psique que está interessada em lembrar dos seus sonhos e de trabalhá-los”, afirma Cristiane. Segundo ela, basta uma linha ou duas, que devem ser desenvolvidas em algum outro momento do dia. “É importante não ir dormir sem ter anotado o sonho anterior. Dedique nem que sejam cinco minutos a isso”, diz. “Escrever já é uma forma terapêutica de contato com os sonhos, porque você resgata detalhes e reflete sobre o conteúdo.” Depois de escrever, dê um título à narrativa – deve ser a primeira coisa que aparecer na sua cabeça. De vez em quando, folheie o seu caderno dos sonhos. Revisitá-lo pode ampliar a sua percepção sobre o seu processo de sonhar. Dê atenção especial aos temas que se repetem – eles são recados da sua psique sobre o que você precisa olhar com mais cuidado. Se você sonha muito com a morte, por exemplo, pode estar em um momento importante para mudanças. 

6. Tenha paciência

Ao escrever, a tendência é que você se lembre cada vez mais dos sonhos e com mais detalhes. Mas não se preocupe se você esquecer elementos que pareciam ser importantes enquanto sonhava. Além disso, há períodos em que não lembramos muito do sonho porque talvez estejamos precisando de um momento para processar algo na nossa vida, segundo Cristiane. “Lembramos daquilo que a consciência está pronta para integrar e receber. E, mesmo sem lembrar, acredite: o recado foi dado, ainda que não de forma racional.”

7. Sinta, dance e pinte

Não se preocupe tanto em chegar a uma conclusão. “A gente quer interpretar cada um dos seus elementos, mas, muitas vezes, o sonho está falando de uma experiência não-racional”, afirma Cristiane. Por isso, ative seus sentidos para trabalhar o conteúdo sonhado. A especialista sugere desenhar, dançar ou cantar. “Coloque uma música que tenha a vibração do sonho e deixe seu corpo se mover livremente. Que insights vêm?”, sugere. “Escolha uma imagem que apareceu no sonho, como uma árvore, e pinte essa imagem. Vocalize um sentimento que te fisgou no sonho” E nada de se preocupar se vai ficar “bonito” ou não. “A expressão da alma nunca pode ter cobrança de desempenho”, explica. 

Bons sonhos! ▲