Irmãos Ahimsa: Um Cinema para Mergulhar em Si

Em seus trabalhos, Daniel e Julio Hey se dedicam a aprofundar o nosso olhar para o autoconhecimento e a cultura de não violência
7 minutos de leitura
18.09.2020

Por que estamos aqui? O que é essa existência? Como viver em comunhão com a vida, com o amor, a harmonia em um mundo por vezes tão barulhento e caótico? Muitos de nós carregamos questionamentos íntimos e profundos, que se tornam parte da nossa busca enquanto seres habitando a Terra. Os irmãos Julio Hey e Daniel, sob o nome de Irmãos Ahimsa, decidiram iluminar essas e tantas outras questões por meio de projetos documentais. Eles usam a arte e a cultura como ferramenta preciosa no processo de autoconhecimento e de uma cultura de não-violência.

Julio Hey é cineasta e co-fundador da produtora Café Royal. Daniel é comunicador, formado em Literatura Francesa na Universidade de Sorbonne, instrutor de Yoga e também se dedica ao voluntariado. Juntos, os Irmãos Ahimsa compartilham, em seus filmes, novos olhares. E, sobretudo, um  espaço de diálogo humano e íntimo, que aproxima o nosso ser à vida, à natureza e ao amor.  

Entre seus projetos atuais está o documentário “Samadhi Road”, que narra a jornada dos irmãos em busca de sabedoria, levando perguntas universais sobre autoconhecimento a personalidades artísticas e espirituais ao redor do mundo. Por meio de entrevistas, Julio e Daniel investigam com profunda sensibilidade as visões de cada figura, diante de respostas que, em um momento ou outro, estamos todos em busca.

Nesta conversa, eles compartilham um pouco mais desse olhar e trazem suas reflexões a partir desse propósito de tocar a essência por meio da sétima arte.

Em que momento vocês decidiram  falar sobre autoconhecimento e a não-violência? 

Irmãos Ahimsa: Olhando para nossos dois primeiros projetos documentais, “Samadhi Road” e um documentário sobre um presídio humanizado, entendemos que estes dois aspectos que você mencionou são a base daquilo que buscamos em nossas vidas, e daquilo que procuramos imprimir em nosso trabalho. Especialmente diante de culturas que cultivam a violência.

E como vocês relacionam o autoconhecimento com a não violência?

Irmãos Ahimsa: Entendemos que são duas coisas indissociáveis. Quanto mais um indivíduo se conhece, quanto mais a fundo ele vai na direção de si mesmo e de tudo que está precisando ser visto e revisitado lá, menos violento ele se torna. Na cultura antiga da Índia, a violência é vista como um elemento que só pode alcançar a mente. Mas não pode alcançar o centro do nosso ser, onde o silêncio é o idioma mãe. E o amor é nossa natureza.

E quais questionamentos do exercício de se conhecer podem estimular a não-violência na percepção de vocês? 

Irmãos Ahimsa: A não-violência está muito associada ao sentimento de compaixão. Quando nosso coração consegue ser impactado por mensagens, reflexões ou cenas que o toquem, e que o levem a sentir o interior de uma outra pessoa, temos a chance de despertar a compaixão, sentimento que barra a violência dentro de nós.

Julio Hey e Daniel, os irmãos Ahimsa, durante gravação do filme Samadhi Road
Durante as gravações de Samadhi Road, os Irmãos Ahimsa em conversa com Kaz Tanahashi, professor, artista, mestre em caligrafia e Zen Budista.

Estamos num mundo polarizado, com tantos estímulos exteriores e expressões de comunicação muito agressivas. Como podemos nos aprofundar em nós mesmos no autoconhecimento?

Irmãos Ahimsa: Acho que o processo de autoconhecimento inevitavelmente envolve uma devoção. Um amor maior por aquilo que queremos descobrir dentro de nós. Através da força deste amor, podemos encontrar nosso caminho no mundo, sem deixar que as placas de trânsito tirem o foco do viajante, do caminhador. 

Na busca por respostas para os questionamentos mais profundos, o que vocês descobriram?

Irmãos Ahimsa: Entendemos, principalmente, que tudo aquilo que buscávamos externamente, seja em uma pessoa, em um lugar, ou em uma ação, já existe dentro de nós. Por mais que tentássemos encontrar respostas nas visões de outras pessoas, entendemos que se quiséssemos continuar nossa caminhada, o próximo passo precisaria ser para dentro.

Em “Samadhi Road”, cada tema que perambula pelas nossas dúvidas mais íntimas tem algo de singular em sua jornada. O que mais vocês gostariam de compartilhar desses processos?

Irmãos Ahimsa:  Esta parece ser a maravilha da experiência humana: cada um tem uma jornada singular, única, incomparável. No entanto, parece ser como as jornadas dos rios. Cada rio desce de uma forma única. Mas todos descem para um mesmo mar. Todos são feitos, essencialmente, de um mesmo mar. Reconhecer a unidade como base da vida e da humanidade é algo muito valioso. E a gente espera, através do nosso trabalho, evocar esta unidade. 

Há uma síntese dos assuntos abordados nas entrevistas de “Samadhi Road” que pode nos trazer uma nova perspectiva para viver melhor em sociedade e com nós mesmos?

Irmãos Ahimsa: Todas as conversas que tivemos neste projeto têm uma mesma raiz: a vida interior. Acho que se há um possível ensinamento que sintetize este trabalho, é o fato de que se queremos liberdade, se queremos paz, se queremos amor, o primeiro passo é caminhar para dentro. A partir deste passo, podemos caminhar com mais sabedoria pelos caminhos do mundo.

Em qual momento da jornada de busca o “Eu Interior” dos Irmãos Ahimsa foi preenchido pela experiência do aprendizado em “Samadhi Road”?

Irmãos Ahimsa: Foi durante o último encontro que tivemos, com o Mooji. Sua presença, seu afeto, e suas mensagens potentes, cristalizaram aquilo que já tínhamos lido em livros, ou ouvido falar na Índia. Que poderia ser sintetizado em uma frase de Ramana Maharshi, que diz: “Aquilo que pode não ser compreendido durante anos de conversas, pode ser captado em um segundo de silêncio”. Em outras palavras, nosso silêncio, nossa presença, é um grande mestre. E ele está aqui. Nos esperando.

Julio Hey e Daniel, os irmãos Ahimsa, diretores do filme Samadhi Road, se abraçando.
O caminho dos Irmãos Ahimsa tem sido aprofundar nossa busca por autoconhecimento e uma cultura de não-violência. Eles usam a linguagem do cinema para tocar em nós essas questões

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