Por que Ler Mulheres que Correm com os Lobos

O livro referência entre aquelas que buscam uma vida mais livre e autêntica é um dos mais vendidos nos últimos tempos. Entenda por que ele é tão potente no resgate do ser mulher
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21.09.2020

No mundo dos livros, seara onde imperam títulos escritos por homens, existem raros fenômenos editoriais. Obras que cativam gerações de leitores em todo o planeta, provando que certos livros são mesmo universais e inesgotáveis. Pois bem. Um desses fenômenos batizados de longsellers nasceu de uma mulher especialmente para mulheres a partir de histórias, contos e lendas ancestrais de diversas culturas que alcançam as profundezas da psique feminina: Mulheres que Correm com os LobosMitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem (Rocco), da analista junguiana e cantadora (guardiã das velhas histórias na tradição latina) estadunidense Clarissa Pinkola Estés.

Os bastidores de criação dessa “Bíblia” do despertar feminino renderiam um livro à parte. Vou resumi-los aqui. Clarissa levou cerca de 20 nos para encontrar uma editora que topasse publicar seu trabalho, o que só aconteceu em 1992, nos Estados Unidos, por iniciativa de uma modesta casa editorial. Todas as tentativas anteriores encontraram a mesma porta fechada:” Esse livro não tem apelo comercial”. 

Secretamente, contudo, a autora sabia que precisava acreditar na sua criação. Seu inconsciente a orientava na direção da persistência. Por anos a fio, enquanto teimava em soltar sua cria no mundo, uma mesma imagem visitava seus sonhos. 

“Ela descia por um poço muito grande, com uma nascente quase seca. No centro dele, havia um arbusto mirrado. Uma voz lhe dizia: Cuida desta planta. Então, ela a regava, afofava a terra, adubava. Até que, na véspera do dia em que recebeu a notícia de que o livro seria publicado, Clarissa sonhou que o arbusto tinha crescido, era uma roseira enorme que tinha saído do poço e estava repleta de flores”, conta a Dra. Cristiane Marino, médica, psicoterapeuta, consteladora sistêmica e fundadora da escola Círculo do Saber.

Mulheres que Correm com os Lobos e a união por histórias ancestrais

Veterana, a Dra. Cristiane trabalha o livro Mulheres que Correm com os Lobos em grupos de mulheres desde o seu lançamento no Brasil em 1995. “Se ele me trouxe tanto despertar, eu tinha que compartilhar essa experiência com outras mulheres, para que elas pudessem desenvolver o cuidado amoroso com suas vidas e com a existência, formando também uma rede de apoio mútuo, solidariedade e amor para que encontrassem forças para realizar suas transformações dentro de uma sociedade patriarcal, quebrando o paradigma de que não existe amizade verdadeira entre mulheres”, justifica.

Pois saiba que esta obra, com 28 anos de existência, sobre a importância do resgate do princípio feminino nas mulheres e no mundo, está entre as mais vendidas pela Amazon nesta pandemia, oscilando, nas últimas semanas, entre o primeiro e o segundo lugares. Um dado e tanto! 

O interesse por Mulheres que Correm com os Lobos neste momento específico chamou a atenção de YAM. Afinal, isso diz muito sobre as urgências de um planeta que clama por transformações profundas, a começar pela integração da energia feminina em mulheres e homens. É ela que se manifesta no cuidado, no sentir, no intuir, na compaixão, na renovação, nos ritmos da natureza, enfim, na reverência à vida. 

Impossível não revisitar esse fenômeno na tentativa de farejar como ele nos atravessa justamente agora, no caos de 2020, potencializado pela sede de poder e destruição de um masculino desgovernado.

O arquétipo da mulher selvagem fortalece as mulheres

Um ponto essencial para a primeira passada. O que levou a autora a unir mulheres e lobos no mesmo solo? Ela explica na introdução que ambos foram deturpados pelas narrativas masculinas, associados a figuras más, pouco confiáveis e ameaçadoras, quando, na verdade, são seres de faro afiado, apreço pela vida coletiva, capazes de se posicionar perante injustiças e de se refazer em face das dificuldades. Daí a relevância social do resgate proposto por Clarissa.

“Ao apresentar o arquétipo da mulher selvagem, ela nomeia, traz vocabulário para o que falta, para tudo o que as mulheres deixaram de nominar ante a ausência de narrativas sobre a psique feminina, uma vez que os saberes e as histórias do feminino foram completamente aniquilados pelo patriarcado”, observa Eliana Rigol, mentora de mulheres e criadora da Jornada da Heroína

Vale saber que Eliana é uma gaúcha que encontrou na obra de Clarissa validação para viver seu feminino essencial, para criar uma vida nos seus termos, onde quer que seu desejo a leve. Por isso, orienta mulheres na visita arqueológica aos subterrâneos do feminino selvagem.

Um livro denso, mas profundamente transformador

A fama dessa obra monumental é curiosa, porque, honestamente, ela não é de fácil digestão. Os contos costurados capítulo após capítulo compõem uma jornada que toca em pontos doloridos da experiência de ser mulher nos últimos cinco mil anos. Como não se identificar com temas tão familiares? A desconexão do corpo, dos instintos e da intuição; a obsessão em agradar, em ser boa para os outros e cruel consigo mesma; a necessidade de aprovação alheia em detrimento da fidelidade a nós mesmas; a repressão da sexualidade; a tendência a alimentar ilusões que apequenam nossa existência; a falta de confiança em nossos dons e talentos; o descuido com o corpo e a alma; a ingenuidade como escape da realidade e por aí vai. 

“Não é um livro para ser devorado, nem para se ter uma mera compreensão racional. A autora nos questiona de forma tão direta que é importante parar para refletir, respirar, meditar, anotar insights em seu diário, observar os sonhos, perceber respostas no corpo, até porque algumas questões geram incômodos”, orienta a Dra. Cristiane.

Está explicado por que tantas mulheres interrompem a leitura bem no comecinho? Se isso acontecer com você, não se cobre tanto. É esperado que algo em nós refute um espelho duro, como esse livro, que nos mostra o quanto fomos domesticadas e desvalorizadas pela cultura patriarcal e o quanto essa realidade ressoa em nós ainda hoje. Porém, ele precisa ser encarado para que uma consciência mais madura e soberana emerja, para que possamos viver de forma autêntica, visceralmente ligadas ao centro do nosso ser, à nossa natureza mais profunda, transbordando essa conexão para o nosso entorno e para o nosso agir no mundo.

O resgate do feminino e a renovação planetária

Por outro lado, justiça seja feita, há tanta beleza, sensibilidade e profundidade em Mulheres que Correm com os Lobos que toda a resistência inicial tem grandes chances de se converter em encantamento para uma vida toda, já que o livro passa a ser aquele companheiro sempre ao alcance das mãos, tantas são as situações vividas nas diferentes fases da mulher que nos fazem recorrer à sua sabedoria.

Ainda mais nesta pandemia, que nos obrigou a olhar para dentro de nós mesmas, das nossas casas e dos nossos relacionamentos. E, em muitos casos, o enquadramento revelou visões conturbadas e desconcertantes. “Pelo próprio isolamento algumas mulheres podem se sentir perdidas diante de algumas situações. E buscam de alguma forma encontrar caminhos, talvez através da leitura encontrar uma ampliação da sua consciência, dos seus horizontes, até para compreender melhor a sua própria experiência nesse momento”, avalia a psicoterapeuta.

Na visão de Eliana, a pandemia não deixa dúvidas de que a “matrix” masculina fracassou. Nesse cenário de desequilíbrios e descaso com a vida, o livro ilumina o que de mais importante precisa ser olhado nesse momento: a necessidade de renovação no planeta. “Enquanto as mulheres não forem colocadas na centralidade do mundo, não haverá futuro possível. O futuro da ocitocina está em jogo e ela é o hormônio do amor, do sexo, do orgasmo, do parto, do cuidado e da manutenção da espécie humana. Não há como um ser humano vir para a Terra sem passar por um corpo de mulher e no entanto as mulheres continuam sendo subjugadas em triplas jornadas de trabalho”, lamenta.

Leitoras redescobrem o valor de ser mulher no mundo

É por isso que obras literárias viscerais como Mulheres que Correm com os Lobos são tão importantes e, de tempos em tempos, ressurgem para nos lembrar do quanto podem fazer por nós. Tanto a Dra. Cristiane quanto Eliana testemunharam lindas metamorfoses nas rodas com mulheres-lobas, donas de olhos cada vez mais brilhantes, orgulhosas de sua ancestralidade.

“As mulheres começam a desenvolver uma relação de presença no próprio corpo, mais amorosa, livre de toda a pressão estética, patriarcal, se conectam com suas sensações, percepções, com seus ciclos femininos, seus sentimentos e começam a acreditar nelas mesmas, se sentem mais seguras para se colocarem. Descobrem que primeiro elas têm que agradar a si mesmas e que depois vem a relação com o outro”, destaca a psicoterapeuta.

“Noto que as mulheres recuperam um senso de valor em relação ao feminino que nem a família nem a sociedade haviam lhes dado e começam a reposicioná-lo em suas vidas, na casa, nos relacionamentos, na maternidade. Compreendem que o arquétipo da mulher selvagem está ali para ajudar com que elas farejem, intuam, se protejam das armadilhas, saibam parar e descansar, fluir, gozar, gargalhar, enfim, viver a vida nos termos delas”, relata Eliana.

O poder de cura das histórias de Mulheres que Correm com os Lobos

Elas reforçam o que a própria Clarissa deixa como mensagem fundamental em seu livro: por mais árido que o solo da nossa alma pareça, ele pode recuperar a fertilidade se oferecermos as condições e os cuidados necessários, como a própria autora o fez no sonho em que cultivava o arbusto dentro do poço. Veja só o que ele virou.

Em qualquer tempo ou lugar, as histórias transportam símbolos que contêm poderes de cura. As narrativas alinhavadas por Clarissa Pinkola Estés, especialmente, nos ajudam a voltar para o lar da nossa alma feminina, a recuperar nossa pele original. Dançando, tocando, pintando, escrevendo, bordando, cozinhando, lutando por uma causa, ajudando a comunidade, cuidando do jardim ou de um animal. Qualquer coisa que liberte o nosso eu verdadeiro, aquela em nós que anseia uivar livremente e deixar pegadas fundas por aí.

Normas Gerais para a Vida dos Lobos, segundo Clarissa Pinkola Estés:

– 1 –
Coma

– 2 –
Descanse

– 3 –
Perambule nos intervalos

– 4 –
Seja leal

– 5 –
Ame os filhos

– 6 –
Queixe-se ao luar

– 7 –
Apure os ouvidos

– 8 –
Cuide dos ossos

– 9 –
Faça amor

– 10 –
Uive sempre

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