É Preciso Olhar Para o Medo

Em vez de negar os efeitos dos nossos temores sobre nós, precisamos saber reconhecê-los e, então encontrarmos formas conscientes de lidar com a sensação de insegurança e vulnerabilidade
7 minutos de leitura
08.09.2020

Medo de proximidade física, medo de receber encomendas, medo de respirar o ar contaminado do elevador, medo de sair de casa, medo de perder alguém querido… A epidemia do medo se alastrou na esteira do coronavírus e, para muitas pessoas, passou a ser um hóspede desagradável sem data para partir. 

O problema é que o medo pode não se contentar em ser apenas uma aflição que, de alguma maneira, conseguimos manejar enquanto tocamos a vida, com todos os cuidados que o momento nos solicita. Como evidenciam os consultórios de psicologia, para além dos papéis vitais de alerta e proteção, esse sentimento tem acordado também a ansiedade e o estresse, além de tensões no corpo e pensamentos recorrentes de que a tragédia está à espreita. Por isso, precisamos falar sobre ele.

Nossos medos merecem atenção consciente

A mentora espiritual norte-americana, Iyanla Vanzant, tem nos tirado do quarto escuro desde o começo da pandemia. A cada aparição em suas redes sociais, ela acende uma luzinha e nos convida a olhar para os nossos medos com coragem e ponderação, pois sabe que eles podem ficar cada vez maiores, se não receberem a nossa atenção consciente. 

Como sabemos bem, há medidas concretas que podemos tomar para nos proteger do coronavírus, como lavar as mãos, ficar em casa o máximo possível e usar máscara. Mas, segundo Iyanla, não se amedrontar também deveria estar entre os cuidados básicos do dia a dia, já que o medo excessivo nos fragiliza e, ao que tudo indica, uma solução definitiva para a pandemia tardará a chegar. 

“O medo é real, mas não podemos permitir que ele se torne um estilo de vida enquanto enfrentamos essa crise. Não podemos deixar que ele nos paralise. Temos que nos mover através dele”, ela defende. E nos aconselha a começar o dia buscando centramento. Seja com uma oração ou com um momento de silêncio em que podemos reafirmar a confiança em nossos recursos internos para lidar com o que quer que se apresente em nosso caminho. 

Assim, ela acredita, o que escutarmos no mundo não desestabilizará tanto o nosso físico e o nosso emocional. Além disso, ela recomenda descanso – o quanto o corpo pedir, daí a importância de ouvi-lo e considerá-lo. E, claro, boa hidratação e uma alimentação de qualidade.

Podemos nos mover através do medo com o autocuidado

Iyanla tem uma boa justificativa para insistir no autocuidado como terapia para o medo. “Quando assumimos o cuidado de si, incluindo em nossas práticas o exame dos nossos temores, deixamos de simplesmente reagir e adotamos uma postura criativa e construtiva perante os desafios”, ela diz. Isso muda tudo, não é?

A naturóloga e terapeuta floral Bruna Vannucchi também advoga a favor do autocuidado. Ela explica que a sensação de que pouco podemos fazer para mudar uma situação que nos aflige pode nos deixar ainda mais desanimados e entristecidos. 

Portanto, a melhor conduta é agir. Buscar conforto no que estiver ao nosso alcance, nem que seja desabafar num colo seguro. “As reações podem ser muito particulares. Mas o mais importante é tentarmos compreender as emoções e trabalhar com o lado positivo delas – no caso do medo, a cautela para tomar decisões – diante do que é possível cada um fazer”, ela propõe.

Sinais de que o medo está fora de controle

Agora, se o medo está ganhando uma estatura difícil de se administrar, é preciso atentar para alguns sinais. O principal: deixar de fazer coisas rotineiras por causa dele. Aí está a zona cinzenta. Como atualmente nossas rotinas se alteraram, essa percepção pode se camuflar em meio às limitações generalizadas que atravessam o dia a dia de uma pandemia. O jeito, então, é notar outras pistas.

“A pessoa que está passando dificuldades emocionais com o medo intenso se mostra mais preocupada do que o natural com qualquer coisa que possa apresentar algum perigo ou risco. Ou seja, fica muito alarmada e assustada, como se estivesse receosa o tempo todo. É comum também não conseguir se alimentar ou dormir bem”, esclarece Bruna.

Há um cenário ainda mais preocupante. Se o temor disparar o gatilho da ansiedade exacerbada, o corpo poderá emitir sinais contundentes de estresse, tais como tremores, suor nas mãos, respiração e batimentos cardíacos acelerados, e até sensação iminente de morte, reações encontradas nos casos de Síndrome do Pânico, por exemplo.  Diante desse quadro, é importante procurar auxílio médico ou terapêutico.

A ponderação ajuda a espantar possíveis fantasmas

Uma excelente âncora para frear os pensamentos catastróficos, na opinião da naturóloga, é a informação. Não apenas a externa, advinda dos meios de comunicação confiáveis, mas também a interna. Sim, o autoconhecimento.

Do lado de fora, ela frisa, é importante lembrar que pessoas capacitadas estão empenhadas em pesquisar e transmitir informações precisas para que possamos proceder da melhor forma possível. E, assim, amenizar os efeitos negativos desta pandemia. “Munidos de informações corretas, saberemos como nos proteger, mas de uma maneira calma, com sabedoria. E não com desespero, ou seja, utilizando a emoção do medo para nos resguardar e não nos entregando a essa sensação de maneira cega e sem um pensamento crítico sobre isso”, pondera Bruna.

Do lado de dentro, podemos parar para nos observar e abrir espaço para compreender o que nos incomoda. “Depois de fazer essa análise pessoal e aceitar como estamos nos sentindo verdadeiramente, vale se perguntar: O que eu posso fazer para estar em paz, mesmo diante da situação ímpar que todos estamos vivendo?”, sugere.

Meditar abranda a preocupação excessiva com o futuro

Você há de concordar que parar para auscultar os sentimentos pode ser praticamente impossível quando o medo nos arranca do presente e nos arremessa no redemoinho de um futuro nebuloso, que, aliás, pode se tornar ainda mais caótico e irreal na nossa imaginação. Como fincar os pés no agora, onde está nossa realidade possível?

“A meditação é muito recomendada nesses casos. Pois é uma técnica que, entre outros aspectos, trabalha exatamente esse exercício de não se deixar levar por uma sequência de pensamentos improdutivos”, destaca Bruna.

Outra dica valiosa: quando perceber que está divagando demais, criando hipóteses e fantasias, volte-se para alguma tarefa, uma atividade que proporcione um foco diferente e mais produtivo. Pode ser conversar com alguém, ler um livro, assistir a um filme, se exercitar, cozinhar… Qualquer atividade que você aprecie ou precise fazer de maneira mais centrada. Essa mudança de chave pode não só interromper o fluxo negativo da mente, como mostrar que é possível nos abastecermos de prazeres, risadas. Momentos que nos façam bem de verdade, apesar de todas as coisas ameaçadoras que não podemos controlar.

Por fim, quando o medo o visitar, diga a ele que você não está sozinho, que nunca estamos sozinhos. Uma rede de união e compaixão tem se alastrado paralelamente ao contágio. Ela também é real e está aí para nos fazer mais fortes e sábios.

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