O Que Você Tem Feito Com o Seu Tempo?

O isolamento social aguçou a vida interior e a necessidade de se refletir sobre o sentido da nossa existência. Aproveite esse momento para reformular sua relação com o tempo
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29.07.2020

“Existirmos. A que será que se destina?”, indaga Caetano Veloso na abertura da canção “Cajuína”. A pandemia e suas restrições escancararam esse questionamento fundamental: O que temos feito com a nossa existência? Com a vida ao avesso, pedindo nossa atenção cuidadosa, temos a chance de olhar para o tempo sem a pressa de antes. E sem estratégias de fuga.

Mas o que é o tempo? Aqui vamos nos basear na definição do crítico literário Antonio Candido: “Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida”. Um tecido finíssimo, delicado, precioso, como o dia a dia da pandemia tem nos mostrado. 

Não queremos romantizar os acontecimentos perturbadores dos últimos meses. Perdas humanas são irreversíveis e, quanto mais drásticas, mais inconsoláveis. Porém, é justo reconhecer que o cenário atual também abre um espaço de reconciliação com a vida.  Enlace que começa a se desenhar a partir do desejo de realmente existir pelo tempo que nos for concedido, não só gastar os dias, hipnotizados por distrações de todo o tipo. 

Se podemos aproveitar o tempo para inventar uma vida mais significativa para nós mesmos e para nossa pequena célula de afetos, também podemos estender esse exercício criativo para a comunidade que está bem ao nosso lado, como evidenciou a crise do coronavírus. Só há ganhos na proposta de reformular nossa relação com o “compositor de destinos”, para citar outra música de Caetano Veloso, “Oração ao Tempo”.

Na pandemia temos tempo para olhar para o nosso processo

Será que antes do isolamento social não tínhamos tempo ou esta era a desculpa ideal para a irresponsabilidade com a nossa vida, no sentido de delegá-la às coisas externas?

O astrólogo Eduardo Mello (@eusouodu) enveredou por essa reflexão e nos ajuda a encontrar respostas honestas.  “A perspectiva do tempo mudou. Estamos olhando para ele de outra forma. Um grande chamado da pandemia é justamente olhar a maneira como estamos aproveitando o tempo que é a vida. O que estamos buscando? O que nos vincula à existência?”, ele nos instiga.

O que importa de verdade, acredita o astrólogo, é o que ressoa em nosso coração, em nossa essência. Não parece lógico que as coisas que amplificam o sentido de estarmos aqui deveriam ser privilegiadas em nossas agendas? Assim, Eduardo descontrói o álibi do tempo escasso como justificativa para nossas escolhas. “As pessoas estão percebendo que a questão não era a falta de tempo e sim o direcionamento que dávamos a ele”, pontua. 

Aliás, o tempo também nos evoca a sair da dualidade que temos com ele. Como bem escreveu Jorge Luis Borges, “O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.”

Ilustração de janela com silhueta de uma mulher tomando chá e olhando para fora

Ao acolhermos a vida como ela é, rompemos com as idealizações

A vida está aqui, no tempo presente, e não em outro lugar. Não dá para adiá-la. “Quando a pandemia acabar…” Não desperdice seu tempo completando essa frase, aconselha Eduardo. Na visão dele, seria um triste equívoco passar por tudo isso projetando o ideal de que as coisas ficarão boas lá na frente.

“Nesse vício de projetar, a gente perde a oportunidade de se aprofundar nas experiências, de se apropriar desse tempo tão valioso, acolhendo a vida com o que a gente tem agora e encontrando coisas preciosas dentro de nós”, ele propõe.

O caminho está pedregoso. É legítimo lamentar, sim. Mas, em seguida,  tomamos um pouco de ar e procuramos uma fresta de luz na aceitação. A crise planetária nos desestabiliza, reconhece o astrólogo, mas é o que temos por enquanto como catalisador do nosso aprendizado, individualmente e como humanidade. 

“Renegar as passagens mais difíceis nos tira da vida. Ela é muito além do que a gente gostaria que ela fosse. Ela segue sendo. Nosso desafio é atravessar esses períodos com amor e presença, lembrando que também há vida no deserto”, ele encoraja.

Ilustração de janela com silhueta de uma mulher tomando chá e olhando para fora

Podemos voltar a confiar nos ciclos do tempo

Outro estudioso do mundo interno vem dilatar nossa percepção sobre o tempo e a existência. Thiago Domingues (@ser.possível), psicólogo clínico, reforça algo solapado pelo frenesi da vida moderna. “O tempo da alma é o tempo da lentidão, da espera, da paciência. E nunca foi tão necessário parar, silenciar os ruídos de fora, para ouvir a sabedoria de dentro”, sustenta.

O tempo em casa, longe da agenda social e do consumo, pode ser um convite para recuperarmos essa dimensão perdida da existência, aliás. Quando o tempo é regido pela alma, podemos nos despir dos excessos – cobranças, ilusões, idealizações – para se chegar ao essencial. “Vejo esse momento como um período de retirada de camadas que impedem as pessoas de escutarem a intuição, a voz interna”, afirma o psicólogo.

É essa voz tênue, ele explica, que nos conduz pelo reexame da própria jornada, que nos ajuda a exercitar a entrega, que aguça a percepção de que podemos construir a nossa realidade a partir de um senso interno de segurança e confiança na vida. 

Ilustração de janela sem ninguém por perto

“Depois do inverno sempre vem a primavera, se é assim com a natureza, também acontece com a gente. A ansiedade, costumo dizer, é a falência da confiança”, compara Thiago, que gosta de recorrer às estações do ano para auxiliar seus pacientes a lidarem com questões que fogem ao controle.

Atropelar o tempo é mesmo um plano vão. Enquanto a ampulheta cumpre seu papel de escorrer, podemos fazer melhor: nos harmonizar com ela, reaprendendo a confiar na nossa capacidade de existir com toda a nossa verdade. ▲

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