Yoga para uma Mente mais Positiva

Em fases turbulentas, o yoga é uma fonte confiável de positividade. A prática mostra que é possível encontrar leveza dentro de nós, sem fugir da realidade
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18.06.2020

Desde que nossas casas se tornaram cenário obrigatório para todas as atividades do dia, muitas pessoas aderiram à prática de yoga. Ao que parece, a combinação de treino físico e relaxamento mental é um bom caminho para enfrentar a quarentena. 

Se este é o seu caso, não estranhe se notar que, além de serena, sua mente está mais positiva, apesar do caos externo. É isso mesmo. Antes que você pense naquele tipo de positividade forçada, sem qualquer conexão com a realidade, o professor de yoga Diego Koury, alinhado ao mestre indiano Krishnamachary (1888-1989), esclarece como se dá essa mudança de polaridade. 

Segundo os textos clássicos do yoga, a base do pensamento é a memória. A partir desse acervo pessoal de experiências, lemos o mundo e reagimos a ele à medida que as circunstâncias externas nos desafiam. “É muito possível que essas situações evoquem em nós sentimentos e memórias que são aflitivos ou conflitantes, que vão exacerbar nossos desejos e apegos e embaralhar ainda mais nossos pensamentos”, reflete Diego.

Pois é aí que o yoga entra para colocar cada coisa no seu lugar. A prática, que se baseia na percepção de que corpo e mente são uma coisa só, realça a atenção a esses impulsos. “Assim que eles emergem, podemos fazer o trabalho de ressignificação ou purificação da memória, que nos permite entrar num outro sistema mental”, complementa o professor.

No yoga, podemos recuperar a paz interna, mesmo diante do caos

Para ficar mais claro, imagine esta situação bastante cotidiana. Você está caminhando na rua e se depara com um cachorro. Junto com a visão vem o medo. Se sua mente está alerta, você terá condições de reconhecer o que se passa dentro de si ao invés de simplesmente reagir. Poderá se lembrar do contato traumático com algum cão ou do temor transmitido por um parente, por exemplo, e, a partir desse trabalho de discriminação, dissolver um registro que o mantinha preso no passado. 

Libertador, não é? Pois o professor assegura que existe enorme prazer em superar condicionamentos e se enraizar cada vez mais num processo vivo que acontece o tempo todo. “Isso dá à mente leveza e a positiva, para olharmos os fatos como eles se apresentam, aliviando cargas que acumulamos inconscientemente”, encoraja Diego.

Cada um  precisa compreender o que rouba sua paz, que, segundo o yoga, é o estado natural do ser humano. Nem de longe isso significa alienar-se dos fatos e se refugiar numa bolha de falsa calma. As coisas vão continuar acontecendo do lado de fora. A roda da existência não para de girar. A diferença é que a prática o ajudará a encontrar estabilidade do lado de dentro.

Rama Enters the Forest of Sages (detail), from the Ramcharitmanas of Tulsidas Jodhpur, ca. 1775, Mehrangarh Museum Trust
Imagem: Rama Enters the Forest of Sages (detail), from the Ramcharitmanas of Tulsidas Jodhpur, ca. 1775, Mehrangarh Museum Trust

É preciso agir a partir da nossa essência

É desse lugar lúcido e estável que devemos partir para as ações e relações da vida. Sim, muitas vezes, elas serão instáveis e conflituosas, mas não vão nos abalar com a mesma frequência ou intensidade, porque a prática fortalece o esteio interior. Nos garante um abrigo para onde poderemos regressar se necessário.

A filosofia iogue nos ensina a agir e nos relacionar a partir desse núcleo, também chamado de essência, morada da nossa autenticidade. Para compreender isso, temos que, como primeira lição, abdicar da mania de focar nos resultados almejados.

A verdade é que não temos total controle sobre os efeitos das nossas ações. Mesmo assim, podemos nos valer das situações cotidianas para nos devotar ao que fazemos. Devoção, para o yoga, significa imantar as coisas com nosso carinho, atenção e intenções construtivas. Estar inteiro em cada gesto e entregar o nosso melhor ao universo, sem esperar recompensas.

O propósito do yoga é simplificar a vida

Soltar é mais simples do que segurar. E se o yoga insiste nesse ponto é porque vem para simplificar a vida. Um contrapeso e tanto neste momento. “Para tornar nossas relações, interações e conexões mais profundas, precisamos simplificar a maneira com que olhamos pro mundo e pra dentro de nós mesmos”, defende Diego.

Esse treino nos leva ao campo das sutilezas, onde a vida pode fluir sem tanto esforço, onde a simplicidade descortina jeitos acessíveis de se viver melhor. A percepção refinada faz com que a gente se confunda menos, se expresse melhor, troque de forma mais sadia e viva com equilíbrio.

Amparado por essa sabedoria ancestral, o professor sustenta que é possível passarmos por grandes desafios nos mantendo íntegros. Não é algo mítico ou exclusividade dos iogues, desde que o yoga esteja amalgamado à vida diária como um exercício contínuo de centramento e auto-observação.

A prática pela prática numa janela do dia é benéfica, sem dúvida. No entanto, não podemos esquecer que o convite do yoga é mais abrangente. Em qualquer tempo, ele oferece as ferramentas necessárias para aprofundarmos nossa relação com essa efêmera, imprevisível e misteriosa travessia. 

Rsabha's Enlightenment (detail), Rajasthan, ca. 1680, San Diego Museum of Art
Imagem de capa: Rsabha’s Enlightenment (detail), Rajasthan, ca. 1680, San Diego Museum of Art

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