O Bem Pode Ser Escolhido

Quando um vírus se espalha por meio do contato humano, nada é mais forte e decisivo para o coletivo do que a atitude ética de cada um. Nesta entrevista, o professor de ética Fernando Stanziani nos lembra que ela é essencial para viver junto
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A solução para o problema que você vê na vida é uma forma de viver que faça desaparecer o problema”. Na lógica de Wittgenstein, filósofo austríaco naturalizado britânico e morto em 1951, ninguém simplesmente ‘veria’ uma pessoa sofrer, mas ‘faria’ algo para ajudar a diminuir esse sofrimento. Assim, todo dilema ético teria uma saída honrosa e decente. Em termos mais diretos, fundamental é vencer a luta interna para encontrar a generosidade em si mesmo e dar andamento a um gesto, ainda que micro. Quando essa pandemia do novo coronavírus acabar, que lição a humanidade terá aprendido? Conversamos com o psicoterapeuta, mestre em ciências da religião e professor de psicologia e ética Fernando Stanziani, que, um pouco antes de o vírus tornar necessário o fechamento de escolas para evitar qualquer aglomeração, estava justamente coordenando um curso inédito sobre ética na Associação Palas Athena (organização sem fins lucrativos reconhecida pela cultura de paz). De seu apartamento em São Paulo, onde está de quarentena desde o dia 24 de março, ele deu a seguinte entrevista. 

Por que o interesse no tema ética? A Universidade de São Paulo diz que é uma das dez carreiras mais apropriadas para se pensar na próxima década. E o que mudou na sua concepção pós-covid-19? 

Fernando Stanziani: Primeiro, é preciso falar de ética porque estamos em tempos de grandes confrontos culturais. As sociedades não estão mais separadas por fronteiras – todas foram rompidas por interesses econômicos, industriais, comerciais. Com isso, a maior interação entre pessoas (como vimos na rapidez com que o novo coronavírus se propagou), o trânsito mais intenso de informações e as novas concepções e práticas ampliaram questões relacionadas à ética, o estudo dos costumes e jeitos de viver. São tempos de muita complexidade que nos impuseram a necessidade de ter que revisitar valores éticos e morais se quisermos atenuar a possibilidade de conflitos. Esse cenário de múltiplas visões nos obriga a subir o patamar de diálogos para valores mais universais porque, do contrário, será o brasileiro brigando com o americano, o americano brigando com o europeu, o europeu discutindo com o africano e assim por diante.

E então vem uma pandemia que nos faz perceber justamente a fragilidade das fronteiras e a necessidade de uma atitude individual de respeito a si e ao próximo nessa torre de babel?

Fernando Stanziani: São várias as questões. Tecnológicas, científicas, de respeito à vida e aos costumes. Chega uma hora que não é mais só o vírus que importa, mas o fato de eu enxergar como ameaça os outros seres humanos portadores dele e dos problemas que ele acarreta. Aí começamos a estigmatizar chineses, impedir a entrada de estrangeiros, fechar fronteiras nas cidades etc. O nosso jeito de viver ganhou outra dimensão e novos contornos. Precisamos nos dar conta disso.

A ética está sendo colocada à prova?  

Fernando Stanziani: Não a ética, mas nós é que somos colocados à prova quando, individualmente ou em grupo, tomamos decisões e agimos mais ou menos alinhados a princípios e valores inspirados por crenças e noções de integridade, dignidade e respeito que possam ou devam ser evocados e aplicados às situações que vivemos. Não existe lugar e hora específica para a ética porque todos os lugares e horas lhe dizem respeito. É como se carregássemos uma mochila invisível de valores e normas aos quais recorremos, nem sempre de modo consciente, para dizer sim ou não às solicitações cotidianas.

Diante das notícias dos últimos meses, que conteúdo o sr. observou nas “mochilas invisíveis”? 

Fernando Stanziani: Valores. Mas, atenção: a gente chama de valor tudo aquilo para o que o indivíduo dá importância. Existem valores bons e maus. Eu estou sintonizado com a ética quando os valores são bons. Já valorizar a competição, o próprio bem-estar em detrimento do outro, furar fila, esses também são valores, mas são maus. O que eu tenho visto é bastante generosidade. No elevador do meu prédio, por exemplo, logo nos primeiros dias da quarentena, apareceram bilhetes de pessoas – provavelmente mais jovens – se disponibilizando a fazer compras para quem mora no prédio e é do grupo de risco. Se de fato fizeram isso quando a pessoa solicitou é o que fará a diferença. A pessoa realmente generosa encontra um meio de ajudar. É diferente daquela que apenas conta que fará um gesto, mas, de fato, nunca tem tempo – faz uma encenação apenas, uma espécie de reza em praça pública, porque o importante para ela é os outros assistirem. Ética é uma forma de tecer as relações em que as pessoas se consideram, se protegem, criam vínculos. É algo vivo. Gandhi gostava de tecer suas roupas, numa forma simbólica de dizer que estava sempre em sintonia com o entorno. 

Por falar em sintonia com o entorno, achei bem triste, quando, recentemente, uma influenciadora digital deu uma festa em casa ridicularizando a orientação de evitar aglomerações. Quando o nosso desejo pode prevalecer sobre o do coletivo? 

Fernando Stanziani: Somos seres cheios de necessidades e desejos, ansiosos por realizá-los e, com frequência, pouco atentos a refletir sobre as consequências dessas realizações para as demais pessoas (ou demais seres vivos). A pessoa que está fazendo festa está desejosa de atender as necessidades dela. Mas um fenômeno como o Covid-19 pede para cada um de nós revermos o próprio plano de desejos. E pensar nessas necessidades. Porque as necessidades, de uma hora para outra, não são só suas, são coletivas. Um comportamento desvinculado desse entendimento é egoísta, às vezes até mesmo uma idiotia. E idiotia é estar fechado em si mesmo e não honrar a própria vida e a vida dos outros.

No momento atual, quais outros gestos nossos não estão honrando a vida?

Fernando Stanziani: É bonito dizer para o indivíduo que a quarentena oferece uma oportunidade de ele se rever; mas não é só isso. Não posso esquecer que há gente sofrendo. Não tem ninguém na rua e, portanto, menos gente para dar algum auxílio às pessoas em situação de rua. Eles simplesmente não deixaram de existir e sentir fome porque surgiu uma pandemia. Perto de onde eu moro tem um morador em situação de rua que encontro mais frequentemente. Outro dia tive que sair de casa e, quando eu o vi, pensei que a partir de agora preciso andar com algumas frutas ou alimentos, para doar a quem precisa. Um novo hábito que preciso adquirir.

Circular sem cuidado, deixar o lixo ‘contaminado ou não’ desconsiderando o cuidado com o lixeiro, reunir pessoas para um churrasco, o que perdemos quando não somos éticos?

Fernando Stanziani: Perdemos nossa humanidade. Nos tornamos individualistas, endurecidos e até mesmo cruéis e indiferentes. Tudo isso muitas vezes sem perceber. Porque essas perdas podem ocorrer gradualmente.

Como eu percebo que minha humanidade está se desidratando? 

Fernando Stanziani: Confúcio (mestre chinês que viveu entre 552 e 479 a.C) dizia que você perde o sentido da humanidade quando você perde o sentido do insuportável. Quando você não faz algo por aquele que vê sofrendo. Quando você vê uma pessoa em estado de sofrimento, acha que poderia fazer algo para diminuir essa dor e não o faz, então está deixando a humanidade se desfazer. Não sentir a dor daquele ser humano pode tornar você frágil. Porque uma hora pode ser você a confrontar tal situação de desamparo, e, por ter desaprendido esse elo de pertencimento com o humano, se sentirá vulnerável. Não saberá que pode contar com o outro. Finalmente, a humanidade também se desidrata quando banaliza o mal, pequeno ou grande. 

O que seria banalizar o mal? 

Fernando Stanziani: A banalidade do mal é, por exemplo, dizer que essa pandemia que nos assola é só uma gripezinha. Dizer isso é fechar o seu olhar para o mal que ali está disseminando. É torná-lo banal. Principalmente porque há uma imensa quantidade de evidências de que, ainda que o vírus não matasse tanto, o potencial de internação é alto e daqui a pouco os hospitais não vão poder atender porque não haverá leito disponível, não haverá respiradores disponíveis. E, na falta deles, muita gente vai morrer. 

O que o sr. pensa sobre a ética do nosso presidente da República?

Fernando Stanziani: Não dá para saber o que se passa na cabeça e no coração do presidente. Penso que seria importante ele separar com mais clareza a figura institucional e a figura pessoal. Como figura institucional, espera-se que sua fala fosse o mais prudente possível, porque ele tem que tomar decisões  nada fáceis a qualquer um que estivesse em seu lugar.  Como líder, deveria promover a consciência nas pessoas de que de um lado e de outro haverá dificuldades, pedir a contribuição de cada um e criar e alimentar a confiança nas pessoas de que, embora ainda não saibamos quais as melhores formas de agir, estamos buscando os melhores especialistas e informações. Esse é o discurso ético. Já o discurso que divide ou o discurso acusatório não o são.

O que ganhamos exercitando a ética? 

Fernando Stanziani: Aprendemos a nos tornar compassivos e a de fato exercitar o “pensamento do coração”. Isso não é ser ingênuo – ser ético não é ser ingênuo a ponto de não ver mais o perigo. Isso é se deixar imbuir por valores que remetem ao lado bom da natureza humana que é a solidariedade, a bondade, a generosidade. Sei que muita gente se vê como numa fotografia, estática, e simplesmente diz: ‘eu não sou generoso. Sou egoísta’. Muito bem, convoco as pessoas a pensarem em si não como uma fotografia, mas como uma narrativa. A fotografia é o que é, não muda. Já uma narrativa está em movimento e pode mudar. Posso perceber a necessidade do outro e que posso ser, eu mesmo, um auxílio para ele. Uma pandemia como essa pode reeducar a gente nesse sentido. Por nos forçar a adquirir novos padrões de comportamento, ela quebra o que estava cristalizado. A ameaça equalizadora tem um poder enorme de varrer aquele sentimento de que sou especial. O vírus é democrático, mais ou menos homogêneo. O modo como as pessoas reagem é que pode ser melhor ou pior. 

Qual a virtude que devemos ter em mente hoje?

Fernando Stanziani: A virtude máxima, hoje, é a da prudência, que faz com que você ganhe sabedoria. Então, eu diria para cada um se movimentar com cuidado e com o melhor conhecimento que tem. A ciência é, por princípio, mendiga e ignorante. E é quem mais diz “eu não sei”. Diz com propriedade. Então, quando um médico ou pesquisador diz pra mim que não há uma vacina a curto prazo, preciso ser cuidadoso. E, por outro lado, quando esses mesmos especialistas dizem que, o que sabem é que não podemos viver muito próximos um dos outros porque esse vírus tem um contágio muito fácil, é bom ouvir.  Ser prudente é lidar no plano das ideias e das ações com isso. A ciência não tem valores pessoais, por isso posso confiar nela. Então, você precisa sair de casa? Coloca a máscara, toma cuidado, procura não falar muito, leva álcool em gel. Prudência e generosidade.

Do seu ponto de vista, qual será o legado da crise que estamos vivendo?

Fernando Stanziani: Eu acho que talvez no atacado vamos melhorar, mas no varejo tudo é muito mais demorado. Sou um pouco cético. Estamos esbanjando comida, mas deixando de alimentar quem passa fome. Estamos numa dissonância. A pandemia nos obriga a pensar que essas dissonâncias ocorrem. Mas, talvez, rapidinho, quando relaxarmos um pouco, vamos engatar em festas, consumir sem refletir, voltar a poluir.  Lembro da comoção que o furacão Katrina causou em New Orleans. Nas primeiras semanas, houve um surto de generosidade, todo mundo acudindo. Mas o senso de tragédia foi diminuindo, o preço da água explodiu, e a generosidade foi substituída pela regra da vida que é cada um cuida de si. Ou seja, um surto em si não é suficiente. Ele é uma oportunidade de erguer a cortina e ver os exageros. Muita gente corre risco todo dia, mas agora há uma ameaça que é coletiva e todos nós nos confrontamos com a fragilidade da vida humana. Fica com cada um a luta interna para um alinhamento consigo mesmo e com o coletivo. Que a fresta para isso foi aberta, foi.

No livro A Peste, de Albert Camus, publicado em 1947, há uma metáfora do que acontece com a humanidade em tempos de pandemia. Na história, tudo volta ao normal, mas, como escreve o autor, “não se pode esquecer tudo, mesmo com toda a força de vontade, e a peste deixaria vestígios, pelo menos nos corações”. 

Fernando Stanziani: Você sabe a origem da palavra ‘humano’? Humano vem de húmus, estar com os pés no chão. Daí vem humildade. Uma ameaça como essa coloca a todos no espaço de humildade. Porque todos podemos morrer. Mas também nos coloca na perspectiva de que, para nos livrarmos desse horror que temos da morte, é preciso nos colocarmos na posição de fazer o melhor que pudermos para viver. Então, espero que não fiquem apenas vestígios. E, sim, o que eu posso fazer de melhor para lidar com essa situação? Posso usar máscara, posso dizer para  alguém prestes a entrar no mesmo elevador que estou, que, ‘hoje, para a segurança de ambos, é melhor cada um descer sozinho’ e posso escolher comprar no mercadinho mais perto de casa porque ele vai falir mais rápido do que o grande. Não importa se você vai garantir a sobrevivência dele. Mas essa atitude está alinhada com a ética porque é você fazendo o melhor que você pode. Ética é como eu posso mudar meu repertório de hábitos para me colocar numa sintonia mais generosa com as pessoas do meu entorno.

Essa é a beleza da ética?

Fernando Stanziani: É impossível ser feliz sozinho. A beleza da ética é que ela pode fazer todos nós sermos felizes juntos. Ela traz saídas honrosas e decentes para isso que estamos vivendo. ▲