Encontre Clareza no Silêncio

Aproveite o recolhimento para se aproximar dos seus sentimentos mais profundos e, partir daí, escolher o que realmente faz sentido em sua vida
6 minutos de leitura
06.05.2020

A certa altura da quarentena, emergiu um silêncio colossal. Você deve ter notado. Ele não vinha da rua, do bairro nem da cidade apenas. O planeta inteiro estava calado. E nós, recolhidos, tivemos a chance de sondar o que a escritora Clarice Lispector chamou de “a respiração contínua do mundo”. Afinal, o que diz o silêncio quando ele se apresenta?

Se você quiser tatear a resposta, sugiro que embarque para a Antártida no convés do explorador e escritor norueguês Erling Kagge, autor de Silêncio na Era do Ruído (Objetiva). Sei que é uma experiência radical de intimidade com o silêncio, muito diferente da que podemos ter onde vivemos e sonhamos dia e noite. Mesmo assim, tente se transportar para o continente branco.

O silêncio revela a nossa verdade

Numa de suas expedições, Kagge passou cinquenta dias sozinho no Polo Sul, o lugar mais silencioso em que já esteve. Imagine você, os únicos ruídos existentes, quando o vento parava de soprar, eram os que ele próprio fazia. “Sozinho em meio ao gelo, nas profundezas daquele enorme nada branco, eu podia tanto ouvir como sentir o silêncio”, conta.

Descolado do passado e do futuro, o explorador era todo presente, “uma extensão daquele ambiente”. Uno com a natureza, sentiu-se absolutamente disponível para seus sentimentos e pensamentos. Ele relata que, naquela quietude majestosa, não havia como esconder nada de si próprio, nem “as pequenas mentiras nem as meias verdades”.

Ali concluiu que o medo do silêncio está ligado ao que esse estado pode nos revelar. Em geral, o temor do “vácuo” silencioso faz com que a gente se ausente da vida mais profunda que se desenrola dentro de nós, ainda que liguemos a TV ou o rádio para escapar dela. “Acredito que o medo do silêncio é um medo de conhecer melhor a si mesmo. Quando tento evitar essa situação, há um sopro de covardia no ar”, reconhece o navegador.

O silêncio interior é o verdadeiro silêncio

De volta ao nosso recolhimento em terra firme – porém, incerta –, pode ser enriquecedor atentar para os sentimentos e pensamentos que dificilmente seriam ouvidos no barulhento e movimentado cotidiano anterior à pandemia. Se bem que, o silêncio interior está sempre ali, plácido como a água de um lago, à nossa espera, não importa se o alvoroço sonoro prevalece do lado de fora.

Mas, já que os ruídos externos deram uma trégua na quarentena, aproveite para se aquietar também. “Aos poucos, descobrimos que o barulho maior é o de nossos próprios pensamentos, emoções, preocupações. Quando aprendemos a encontrar nosso centro de silêncio, podemos estar no mundo e ser um centro de silêncio para esse mundo”, afirma Alcio Braz, médico psiquiatra, psicanalista e mestre soto zen budista, autor de O Grande Silêncio – Uma Introdução à Meditação e ao Zen (Gryphus).

Braz reconhece que o trânsito de pensamentos, emoções e percepções é contínuo e permanente. Podemos observá-lo, mas também ir além, descobrindo que somos mais que esse fluxo. “Somos o espaço aberto ilimitado onde flui a correnteza dos sons do mundo”, define o mestre, que reforça: “Precisamos dessa abertura para realmente olhar/ver/ouvir/escutar a vida que acontece o tempo todo à nossa volta”.

Na quietude encontramos respostas e soluções

Quando desaceleramos o mundo mental, temos a chance de nos aproximar da pura consciência, também chamada de “verdadeira inteligência”, porque enxerga além das limitações criadas pela mente.

“Ouvir o silêncio desperta a dimensão de calma que já existe dentro de você”, ensina o mestre espiritual Eckhart Tolle, autor de O Poder do Silêncio (Sextante). Serenar a mente e o espírito é importante não só para nos deixar menos aflitos. A prática também abre uma senda para que possamos acessar insights e enxergar nossas questões com mais clareza. Como se uma fresta permitisse que a luz atingisse cantos até então imersos no breu do inconsciente.

Tolle traduz isso da seguinte forma: “A calma é o lugar onde a criatividade e a solução dos problemas são encontradas. Deixe que ela oriente suas palavras e ações”. Se a claridade prevalece e enxergamos melhor os caminhos, podemos agir com discernimento e criar realidades mais satisfatórias. Existem, portanto, pérolas escondidas em cada momento de silêncio que desperdiçamos. 

Acesse o silêncio interior por meio da meditação

O mestre budista tibetano Alan Wallace, autor de A Revolução da Atenção – Revelando o Poder da Mente Focada (Vozes), entre outros títulos, explora a quietude interior desde os anos 1970 e não tem dúvidas de que ela leva à “estabilidade e vivacidade internas”.

Essa conjugação produz um bem-estar tão intenso que Wallace chama de “felicidade genuína”.  “A realização dos recursos naturais inerentes ao nosso coração e mente”, define e garante que a colheita inevitável na vida do praticante é “mais riqueza e clareza, mais compreensão e sabedoria”.

O zen budismo, por sua vez, vê na prática meditativa sentada, o zazen, um exercício de entrega à força maior que anima todas as coisas. “Aprecie o silêncio da mente e deixe que o zazen faça zazen. Não é fechar a porta dos sentidos, mas é ceder, entregar-se, sem resistência. É desprender-se da intenção e do seu próprio eu para tornar-se a vida na Terra”, orienta a Monja Coen no livro Zazen – A Prática Essencial do Zen, editado pela Comunidade Zen Budista Zendo Brasil. 

Nesse momento em que a sensação de perda de controle tem gerado tanta ansiedade, aceitar o convite das práticas meditativas, que têm em seu núcleo o cultivo da quietude, pode ser o começo de uma nova relação com a mente e com as emoções. Quem sabe o silêncio deixe de ser um vácuo ameaçador para se tornar um portal para dias mais calmos e lúcidos. Vale a tentativa.


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