Abra Espaço para o Perdão

Momentos reflexivos como o que vivemos podem ser oportunos para liberarmos mágoas que limitam nossa capacidade de amar – saiba como suavizar esse processo
8 minutos de leitura
11.05.2020

Em dias de consternação e abatimento, uma brecha se abre no coração humano. Se a vida é um sopro, qual o sentido de carregar mágoas, discórdias e ressentimentos? Para que desperdiçar tempo de cara virada, se podemos olhar uns para os outros com compaixão? Por que não lançar mão do perdão para seguir mais leve?

Quando nossa vulnerabilidade é exposta, vemos ruir barricadas que até então nos endureciam, impedindo relações entre peitos nus. Nessas horas, ensinam as tradições espirituais do oriente, o ego, tão apegado a uma certa imagem de si, se encolhe e algo mais verdadeiro em nós emerge para nos bem aconselhar. Para nos conduzir na direção da sabedoria, que tudo ilumina.

“Enquanto houver em nós rancor e amargura, a energia da vida não pode circular. Logo, o perdão é um poder alquímico”, sustenta o terapeuta e teólogo Jean-Yves Leloup.

O perdoar tem seu próprio tempo

Sejamos honestos. Não há ser humano nessa Terra que desconheça o peso do ressentimento, como também sua ação corrosiva, tóxica, que só serve para alimentar o pior em nós. A ofensa guardada, geradora de raiva e ódio, envenena o sentir e sabota nossa capacidade de amar. Quando o fel é alimento, os dias ficam áridos demais. Por isso, quantos de nós não sonham com a grande libertação, quando, finalmente, se poderá dizer a alguém: “Eu perdoo você”?

O problema é: Como perdoar verdadeiramente? Porque o perdão não se força, não se obriga, não se fabrica. Não basta a vontade de fazer o “certo” ou de apaziguar a guerra. Esse gesto é fruto da compreensão mais profunda dos elos que nos mantêm conectados aos outros, ainda que tenham sido excluídos do convívio, afastados da vista. Em outras palavras, o perdão tem seu próprio tempo.

O perdão transcendental não nasce de um ideal, tampouco é um hábito que você pratica apenas para que se sinta bem. É preciso ir para dentro e descobrir por que você necessita de perdão ou por que você tem que perdoar alguém. A resposta vem de um estado de total conexão, de um eu expandido pelo estado de presença”, afirma o líder espiritual indiano Krishnaji, co-fundador da Escola de Sabedoria e Meditação O&O Academy, ao lado da esposa, Preethaji, que enfoca o tema sob o seguinte prisma:

“O perdão não é sobre tentar esquecer o passado. Também não é sobre fazer um favor para o outro. Ele é um estado interior no qual você está livre da raiva, da mágoa e do ressentimento. Ele tem a sua própria inteligência e nos dá a escolha da ação”.

O perdão nasce em nós

É, portanto, um desenrolar que precisa encontrar espaço em nós, sem a urgência de que reconciliações ocorram de imediato. Se você conseguir se colocar no caminho de dias mais ternos, já é uma grande conquista, porque, quando perdoamos, é a nossa própria bagagem que fica mais leve. E, como ensina Leloup, a energia da vida pode circular novamente.

E perdão não se trata de uma questão de superioridade.  O suposto desnível entre quem perdoa e quem é perdoado pode dar a impressão de que um lado é melhor do que o outro. Não é bem assim.

O arcebispo sul-africano Desmond M. Tutu, Prêmio Nobel da Paz em 1984 e vítima do Apartheid, defende a premissa de que “somos todos falíveis”. “Cada um de nós já viveu tanto situações em que precisou perdoar como situações em que precisou ser perdoado. E viverá muitas outras”, ele enfatiza na obra O Livro do Perdão – Para Curarmos a Nós Mesmos e o Nosso Mundo (Ed. Valentina), escrito em parceria com sua filha, a reverenda Mpho A. Tutu.

Segundo o religioso, uma importante questão a ser feita durante esse processo é: “Sob o mesmo conjunto de circunstâncias, eu seria capaz de…?”. Lembra aquela velha história de vestir os calçados da pessoa que é alvo da nossa condenação? Também ajuda a ampliar o entendimento pensar que, se alguém foi ignorante ou inconsequente numa determinada situação e nos feriu, nós também o fomos em outra. Talvez, não no mesmo contexto ou na mesma proporção, mas, certamente, em alguma medida.

Você é capaz de se perdoar?

Tão difícil quanto perdoar alguém é perdoar a si mesmo. Muitos se deixam corroer em segredo pela culpa a ponto de se amalgamar a ela. Passam a vida se martirizando por ter feito ou dito algo que machucou profundamente outro ser humano. Condenam-se pela prepotência, pelo egoísmo, pela impulsividade e tantas outras ninharias que nos constituem.

Na visão da orientadora espiritual norte-americana Louise L. Hay, autora de Você Pode Curar a Sua Vida (BestSeller), “todos sofrem de culpa e ódio voltados contra si mesmos”. O aprendizado está em se amar, se respeitar, se libertar do passado e perdoar a todos. Afinal, se não nos perdoamos, não conseguimos perdoar ninguém.

Por isso, ela destaca, quando estamos empacados em algum ponto da nossa jornada é sinal de que precisamos perdoar mais, nos desprender de emoções desgastadas e focar no amor que temos para ofertar a nós mesmos e aos outros. “O amor é sempre a resposta para qualquer tipo de cura. E o caminho que leva ao amor é o perdão”, ela sublinha.

Dissolvendo mitos sobre perdoar

A seguir, compartilhamos os mitos mais comuns, listados pela  fundação norte-americana A Campaign for Forgiveness Research (www.forgiving.org), financiadora de pesquisas acerca dos efeitos desse gesto nas mais diferentes esferas da vida.

Perdão não é sinal de fraqueza

Relevar um mal e desvencilhar-se do rancor não significa de maneira alguma ser conivente com o ofensor.

Perdão não é maquiar os erros

Pelo contrário. É preciso olhar com coragem para a dureza da injustiça sofrida. Não ajuda em nada fingir que as coisas são diferentes do que são.

Perdão não é amnésia

Perdoar é diferente de esquecer. Trata-se de curar a memória do trauma, não de apagá-la. Em geral, a ferida continua fazendo parte da bagagem emocional. Porém, ela não mais governa a vida.

Perdão não é amenizar consequências

A absolvição dada a alguém não elimina os efeitos do mal perpetrado. O Papa João Paulo II, por exemplo, perdoou seu potencial assassino cara a cara. No entanto, o criminoso seguiu cumprindo a pena que lhe era devida.

Perdão não é, necessariamente, reconciliação

A parte lesada pode perdoar o ofensor ainda que ele jamais venha a fazer parte da vida de quem oferta o perdão – muitas vezes, por razões de segurança. Até porque, o ato não tem nada a ver com confiança e sim com libertação.

Perdão não é mágica

Ainda que você mude, o outro pode continuar do mesmo jeito. Cada um tem seu livre-arbítrio. Não necessariamente o perdão interferirá nas atitudes alheias. Ele  é puramente uma escolha pessoal.

Os 4 estágios do perdão

O perdão é uma construção que pode levar anos para se consolidar dentro de nós. Cobrar a si mesmo não vai acelerar o processo. Melhor respeitar as fases dessa maturação e frear a expectativa por resoluções.  O arcebispo sul-africano Desmond M. Tutu e sua filha, a reverenda Mpho A. Tutu, autores de O Livro do Perdão – Para Curarmos a Nós Mesmos e o Nosso Mundo (Valentina), apontam quatro estágios que podem nos guiar nessa busca tão particular.

  1. Contar a história – juntar as peças do ocorrido é o primeiro passo para decifrar nossas experiências e conferir sentido ao vivido;
  2. Dar vazão à mágoa – extravasar a emoção é o modo de compreender como o que aconteceu nos afetou. Somente quando liberamos a dor começamos a superá-la; 
  3. Conceder o perdão – é o momento em que abandonamos o papel de vítima e passamos a determinar o nosso futuro;
  4.  Renovar ou abrir mão do relacionamento na busca por cura e transformação – restaurar um elo é um ato criativo. Aposta-se na reinvenção do laço. No entanto, às vezes, a única coisa a ser feita é abrir mão do vínculo. Grito de liberdade. Quando o trauma enfim perde a força que tinha e a jornada de cura chega ao fim. 

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