Empoderamento para a Mulher Negra

A série #MêsdaMulher celebra Joice Berth, arquiteta, psicanalista em formação e escritora feminista, por suas falas e posicionamentos sobre o racismo no Brasil
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Aos 9 anos, Joice Berth observava que nem todas as crianças recebiam o mesmo carinho da professora. Ela mesma não estava entre as que ganhavam colo – diferentemente do que acontecia com as meninas brancas da sala de aula. E ainda mais diferente do que acontecia em sua casa, na zona norte da capital paulista, onde dona Ione, auxiliar de enfermagem, e seu Jorge, pedreiro e motorista, davam todo carinho e amor à menina e aos três irmãos menores.

Na adolescência, outras desigualdades se manifestaram; umas machucando mais que as outras. E o tempo foi – experiência por experiência – entrelaçando na alma de Joice uma consciência de que, por um lado, o amor e o conhecimento constroem e, por outro, o racismo parecia colocá-la um pouco atrás no palco da vida. Por isso seus desafios seriam maiores. 

Com sede de entender e muito a batalhar, começou a participar de coletivos feministas, buscando respostas. Lendo. “Sempre estudei a questão racial porque descobri desde muito cedo quão violento é o racismo, o quanto ele fragiliza a autoestima, o quanto faz adoecer”, ela conta.

O direito de todos à cidade

Joice prestou vestibular para jornalismo, não passou e logo em seguida ficou grávida. Casou. Teve quatro filhos (um menino hoje com 23 anos, e três meninas, agora com 21, 20 e 17 anos). Quando as crianças estavam maiores, tentou novo vestibular. Desta vez, arquitetura e urbanismo. 

Entrou levando a pauta da inclusão como alicerce, como aprendera na leitura dos textos do geógrafo Milton Santos e da escritora Lélia Gonzalez, autora de Lugar de Negro. “Lélia fala que quando você tem um trabalho de ativismo e não leva a questão racial para lá, você não está sendo sincero”, diz a hoje arquiteta. 

“As questões de raça perpassam pelos espaços urbanos, correm a cidade, empurram silenciosamente o negro para fora das áreas nobres”, ela enfatiza.  É essa circulação segregada que a profissional luta para tornar visível e dissolver. 

“Quando falamos de exclusões racistas no âmbito da territorialidade, estamos falando que o racismo acontece fisicamente segregando a cidade em branca e preta demarcando simbolicamente onde pessoas negras podem ou não ocupar”, escreveu em um artigo.  

Mulheres negras: ainda mais vulnerabilidade

Feminista, ela observa mais: o grupo das mulheres negras é o de maior vulnerabilidade social. “Se você pensa uma família branca de classe média, o líder provavelmente é homem e profissional liberal. As crianças, desde cedo, vão entendendo que estudar é um caminho importante para crescer. Nessas famílias, o número de gravidezes na adolescência é menor. E as chances de desenvolvimento de cada membro, maiores. Embora existam dificuldades, é um território seguro”, observa Joice.

“Agora pense na periferia, uma família vivendo ao lado de um esgoto a céu aberto e cercada pela ameaça dos traficantes. Provavelmente é uma família negra, em que a mãe cuida sozinha da casa porque o parceiro a abandonou. É muito difícil para ela conseguir um emprego melhor porque engravidou cedo, e é muito pouco provável que o filho dela vire profissional liberal. A gente sabe disso. Tanto que comemoramos quando uma criança negra da periferia, filha de faxineira, chega à faculdade. Mas essa romantização da situação do negro esconde uma vergonha. Uma falta de oportunidade e um comodismo da sociedade geral que leva à uma continuidade da pobreza. É muito difícil que o filho de um médico vire pedreiro. Já o filho do pedreiro virar médico é exceção”, ilustra ela, com uma franqueza necessária.

É preciso olhar para dentro

A voz de Joice foi se arredondando com o tempo; está mais branda que impetuosa. Talvez pela influência do educador brasileiro Paulo Freire e das norte-americanas Angela Davis e Bell Hooks, que dedicaram a vida a levar conscientização para os problemas que ainda passam despercebidos. 

Com seu ativismo, a arquiteta, feminista, assessora parlamentar e psicanalista em formação Joice Berth dissemina ideias e ideais. É preciso um tanto de coletivo para cuidar das dores dos outros.

É preciso buscar informação para evitar os pontos cegos de toda doutrina. E é preciso, sempre, desconstruir algumas ideias internas antes de confrontar o inimigo externo. 

“Paulo Freire fala para olhar para dentro de si mesmo e identificar, primeiro, o quanto o machismo e o racismo afetaram a nossa formação. Às vezes, só vemos o racismo no outro e não percebemos as atitudes discriminatórias que nós mesmos praticamos”, enfatiza.

As mulheres negras precisam entender que são merecedoras de afeto

A seguir, Joice Berth expande os limites da compreensão do que é ser mulher hoje:

O que é ser mulher hoje?

Joice Berth: Infelizmente é ser um humano ou com medo ou alienado – quando a pessoa não teve a oportunidade de se conscientizar do quanto o gênero nos limita. Porque o machismo tem práticas e técnicas que colocam a mulher à margem da sociedade, renegada a um segundo lugar. E ser mulher negra é ainda mais difícil porque o racismo direciona você para a precariedade. Potencializa aquilo que o machismo construiu.

O que você espera para o futuro das mulheres?

Joice Berth: Espero que a gente seja mãe se quiser, não seja mãe se não quiser. Que a gente tenha uma vida boa. Desejo isso para todo mundo, mas a mulher, por toda a situação em que se encontra, precisa mais. Liberdade sexual, igualdade.

O que você gostaria de falar para as mulheres?

Joice Berth: Empoderamento ( tema de um livro que Joice escreveu para a editora Letramento, dentro da série Feminismos Plurais, coordenada pela filósofa Djamila Ribeiro) é um instrumento de luta social, e uma maneira de estruturar caminhos de afetividade e autoestima. Sessenta por cento das mulheres negras estão em celibato definitivo, não se casam, como mostra o livro Os Homens Não Preferem As Negras. É um gosto moldado sobre um padrão de beleza que não valoriza a mulher negra. Isso a fragiliza no âmbito mental e a opressão adoece. Então, invistam no conhecimento, busquem se dedicar a uma leitura técnica do que é o racismo, feminismo, lugar de fala. Procurem entender que são merecedoras de afeto. ▲

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