Para Ser Feliz por Inteiro

A felicidade existe e é fruto da entrega ao fluxo da vida, com seus desafios, mistérios, dores e alegrias
5 minutos de leitura
30.03.2020

Na banda ocidental do planeta, a felicidade virou produto. Ela se exibe nas prateleiras travestida de smartphone, vinho importado, roupa da moda, entre tantos outros artigos que despertam em nós a ânsia do “ter” como passaporte para uma vida de realizações. Mas ser feliz não é mercadoria.

O que faz você feliz? Pois responder a essa pergunta virou item obrigatório no checklist existencial. Como pudemos encaixotar algo tão profundo e, por vezes, sutil, quase um triz?

“A felicidade não é frívola”, formula o escritor Valter Hugo Mãe na esperança de que revertamos esse colossal equívoco.

Ser feliz não significa fugir da tristeza

A verdade é que a sociedade da felicidade compulsória tem gerado uma multidão de deprimidos. Aliás, até 2030, a depressão será a doença mais comum no mundo, alerta a Organização Mundial da Saúde.

Não é difícil entender esse preocupante prognóstico se lembrarmos que correr atrás da felicidade virou sinônimo de fugir da tristeza a qualquer custo. Estamos exaustos porque confundimos a plenitude com a proeza de se alcançar uma vida perfeita, isenta de atribulações. Nada poderia nos enfraquecer mais do que essa fuga em massa.

A filósofa e psicanalista Viviane Mosé tem se esmerado em esclarecer que não há felicidade sem que vivamos a totalidade dos nossos sentimentos. E sem autorizarmos que a tristeza nos mostre onde estão armazenadas as nossas forças e a nossa criatividade para nos reinventarmos. E, assim, nos ampliarmos, sempre que for preciso.

“É a desconstrução da ideia de felicidade, que implica uma nova perspectiva sobre o sofrimento, que pode nos levar a uma relação mais afirmativa e mais intensa com a vida”, ela sustenta no livro Nietzsche Hoje: sobre os desafios da vida contemporânea (Ed. Vozes Nobilis).

Felicidade tem a ver com coragem e entrega

Não se trata, contudo, de só enaltecer as dores e as dificuldades que nos abatem. E, sim, de desenvolver em nós a capacidade de navegar pelos altos e baixos, sob céus claros e escuros, como quer o balé transitório da existência.

Viviane Mosé nos propõe um tipo de felicidade intrinsecamente ligado à coragem de se entregar ao Mistério que perpassa esse plano. “É preciso que o fascínio da vida possa nos seduzir, nos embriagar, nos fortalecer… Para que sejamos capazes de empreender as grandes jornadas em direção a nós mesmos e ao mundo”, ela filosofa.

O que a Ayurveda ensina sobre ser feliz

Se nos voltarmos para a banda oriental do planeta, encontraremos na Índia um saber ancestral que alarga a compreensão da felicidade. E faz isso justamente porque desvia o foco das coisas externas em favor da visão espiritual, da conexão com o mundo interno.

A Ayurveda, que, em sânscrito, significa Ciência da Vida, entende que o estado de plenitude se manifesta quando o ser consegue se harmonizar. Isso acontece quando ele está alinhado com o corpo, com os sentidos, com a própria natureza e com a mente.

“Quanto mais eu vivo as minhas experiências de acordo com o ser, que experimenta a vida a partir do estado de presença, mais eu me aproximo da felicidade”, explica o terapeuta ayurvédico Gil Kehl.

Nesse estado de integridade, fortalecido por respeitarmos nossos ritmos biológicos e nos dedicados às práticas de autocuidado e cultivo da presença, podemos sentir alegria, passar por desafios dolorosos, enfrentar uma fase difícil e ainda assim sentir plenitude.

Tudo faz parte quando aceitamos o fluxo da vida

Como assim? A tristeza e a plenitude podem dar as mãos? É difícil visualizar esse casamento uma vez que, na nossa experiência cotidiana, oscilamos conforme os eventos externos. Se algo nos agrada, exultamos; se algo nos frustra, deprimimos. Reagimos aos acontecimentos como autômatos. Flutuamos e despencamos, flutuamos e despencamos.

Segundo a Ayurveda, nós conseguimos romper esse ciclo vicioso quando direcionamos nossa atenção para o ser. É quando passamos a sentir a vida como um fluxo que orienta a nossa jornada na Terra.

“Nos tornamos mais receptivos ao que a vida nos traz, entendendo que ela é composta de desafios que precisamos atravessar e que ela também nos oferece instrumentos: o corpo, os sentidos e a mente”, pontua Gil.

Se somos navegantes e não meras vítimas dos fatos, nos sentimos mais inteiros em relação a nós mesmos e ao mundo. Deixamos de simplesmente reagir e passamos a compor com a vida, numa co-autoria que enseja inúmeras possibilidades de realização.

Agora, fica fácil entender por que a pergunta-chave, sob o ponto de vista da Ayurveda, deveria ser: “O que me nutre profundamente?” Aí, sim, podemos descobrir o que realmente torna o “ser” feliz. ▲

Inspiração

O que o YAM tem pra te dizer hoje?

Um oráculo. A seção Inspiracão propõe um jeito lúdico de revelar conhecimentos que estão presentes no nosso conteúdo. Foram selecionados pela nossa equipe e você vai descobrir aquele que tem a ver com você.

Surpreenda-se