Yoga: uma Ciência da Mente

Embora o aspecto físico tenha ocupado o primeiro plano, a prática é um caminho para serenar o mental e transformar nossos conteúdos internos 
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21.02.2020

Quando pensamos na palavra yoga, automaticamente visualizamos uma série de posturas físicas ou, em sânscrito, as asanas. Como se a prática dessa tradição milenar, que possui diversas camadas, se restringisse ao trabalho corporal. Pois saiba que, originalmente, o yoga é uma Ciência da mente ou, se preferir, uma prática meditativa.

Segundo Diego Koury, professor de yoga alinhado à  tradição da linhagem do mestre indiano Krishnamachary (1888-1989), algumas hipóteses explicam por que o corpo assumiu o protagonismo no yoga praticado no ocidente.

Quando chegaram aqui, os primeiros professores encontraram pessoas com uma condição de saúde limitada. Por isso, precisavam trabalhar o físico para conseguir permanecer sentadas por alguns minutos enquanto se dedicavam a práticas mais sutis, como recitação de cânticos, técnicas meditativas e respirações específicas. ”Todas elas requerem que a coluna esteja equilibrada, ereta e confortável”, pontua Diego.

A valorização do aspecto físico no Yoga

Além disso, os mestres pioneiros acreditavam que, a longo prazo, a prática física se transformaria em alicerce para que as questões sutis da mente, como a equidade mental e a não-violência, que são o cerne do yoga, pudessem ser devidamente lapidadas.

E nós, ocidentais, por sermos mais visuais e preocupados com a dimensão corpórea, acabamos, muitas vezes, enxergando no yoga uma opção de atividade física para fortalecer e alongar a musculatura, entre outros ganhos.

“A prática de asana possui um lugar muito especial dentro do universo do yoga, mas, embora pareça uma coisa muito física – e muitas pessoas acabem limitando a prática a esse aspecto -, ela está diretamente ligada ao processo meditativo”, afirma o professor.

A concentração nos leva para dentro

O principal texto do yoga, o Yogasutra, de autoria de Patañjali – cuja existência é apenas explicada por meio de lendas e da mitologia –, diz claramente que a prática de asana é um momento para que o praticante consiga identificar os nós gravados no corpo. Esses emaranhados, segundo essa tradição, são expressões da nossa consciência, da nossa experiência e das nossas memórias.

“Por meio da concentração bem direcionada, através dos asanas, é possível ir identificando e desatando esses nós”, assegura Diego. 

Em resposta ao empenho do corpo, que precisa de foco para realizar as posturas, a mente vai se purificando, ou seja, ficando mais clara e serena. Consequentemente, nossa relação com a vida também se torna mais simples, menos desgastante e mais assertiva.

Yoga é um processo de autotransformação

O professor nos lembra de algo que se perdeu pelo caminho. O fato inegável de que o yoga é um processo de autotransformação. Uma trilha que parte da matéria física para se chegar ao sutil. Para se conhecer a mente, seus comportamentos, tendências, níveis, qualidades e características, e a partir daí se perceber e se trabalhar a interioridade.

”Não se trata de uma transformação só do corpo, de um bem-estar momentâneo, mas de uma transformação significativa das nossas tendências mais profundas”, destaca Diego.

Com honestidade, ele admite que essas tendências são aquelas realidades íntimas difíceis de serem encontradas. Mais difíceis ainda de serem reconhecidas. E extremamente desafiadoras de serem trabalhadas, como, por exemplo, nossos medos, apegos e aversões.

Vivências, sentimentos e crenças enraizados no mais fundo de nós e que, por isso mesmo, precisam da nossa atenção consciente e do nosso cuidado amoroso para que possamos transcendê-los e vivermos melhor. No entanto, o especialista pondera até que ponto esse caminho faz sentido para todos os que buscam o yoga.

“É possível que a pessoa fique só com a prática física e se beneficie do bem-estar energético e emocional momentâneo, porque isso é suficiente para ela. Não podemos esperar que todo mundo queira ou esteja pronto para fazer o trabalho de transformação interna que é, de fato, um grande desafio”, ele reconhece.

Cada um, a seu tempo, sentirá o chamado para explorar as múltiplas camadas do yoga ou para se firmar em alguma delas. Essa tradição nos ensina a nos libertar do certo e do errado, do bom e do ruim. Quer que a mente transcenda parâmetros rígidos e perceba que, aqui e agora, está tudo bem.

Yoga e as 5 atividades da mente

Nossa mente desempenha cinco atividades básicas, segundo Patañjali. “Dependendo do humor e do nível da mente, essas atividades podem ajudar nossa trajetória ou nos prejudicar”, salienta Diego. 

Por isso, quanto mais a fundo conhecermos o funcionamento mental, mais chances teremos de transcender os conteúdos que limitam a nossa vida.

1 – Pramāṇa: Movimento para o conhecimento

A primeira atividade explicada por Patañjali é o movimento para a percepção. Esse movimento ocorre através da experiência direta, da inferência e do testemunho de alguém ou de algum texto.

2 – Vipariaya: Movimento da ilusão

O movimento vipariaya é muito semelhante ao explicado anteriormente, só que, nesse caso, o humor e as qualidades da mente prejudicaram o processo de compreensão. Por falta de clareza e por interferências, a conexão é conturbada e as informações incorretas. Por isso, levam à ilusão.

3 – Vikalpa: Movimento imaginário

A mente é dotada de uma incrível capacidade imaginária, capaz de soluções criativas e de criar realidades fantasiosas. A imaginação estimulada a partir de uma realidade é uma ideia. A realidade embasada em uma imaginação é uma fuga. As ideias imaginadas devem estar bem costuradas aos fatos e é preciso ter cuidado com o que imaginamos. 

O conteúdo de nossa mente nos direciona. Nossas vibrações mentais emanam ondas magnéticas que farão conexões. A qualidade daquilo que imaginamos construirá conexões correspondentes e também irá influenciar nossas escolhas, tornando-as tendenciosas.

A invenção de uma realidade cria um mundo utópico ou uma realidade sombria. A realidade inventada nos deixa vulneráveis ao sofrimento.

4 – Nidrā: Ausência de movimento

Nidrā é o momento de sono profundo, que só ocorre quando os outros movimentos da mente se desintegram e ela descansa. Quem dorme é a mente. O ser interno, o observador, nunca dorme. Os sonhos representam um movimento mental em que a memória e a imaginação se misturam.

5 – Smṛti: Memória

A memória seria o movimento base que permeia todos os outros movimentos. A qualidade mental e o nível da mente irão definir o papel da memória em nossas interações.

Quando a qualidade mental for elevada, ou seja, com potencial expansivo, iniciaremos nossas interações a partir da memória, mas estaremos livres para perceber e desenvolver algo novo.

Porém, nos momentos em que a qualidade e o nível mental forem retrógrados, as memórias e suas cargas impedirão uma pura percepção e real interação. ▲

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