É Possível, Sim, Confiar na Vida

Nem sempre os cenários são bons e as coisas acontecem como queríamos. Mas podemos nutrir a confiança no caminho mesmo assim
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A vida tem movimentos próprios. Tem dias que tudo dá certo. Outros que tudo dá errado. Há períodos de alegria e de tristeza. Momentos de calmaria e de tempestade. De altos e baixos, de plantio e colheita, de nascimento e de morte. A forma como cada um vivencia esses movimentos é o que torna a experiência de viver tão diversa. Algumas pessoas parecem estar mais bem acomodadas, têm uma facilidade maior em acreditar na vida. Outras, nem tanto. Confiar na vida parece um desafio.

Segundo a psicanalista Monica Seincman, isso acontece porque, para que possamos confiar e manter a confiança na vida, precisamos, desde cedo, contar com relações que nos ofereçam um ambiente estável e permanente.

“O ser humano nasce imaturo, portanto, dependente do outro para a sua sobrevivência. O cuidador, que muitas vezes em nossa sociedade é a mãe, serve como ambiente para o bebê, oferecendo o que lhe é necessário, tanto biológica quanto psiquicamente. O bebê depende dos cuidados do ambiente para, então, aos poucos, poder reconhecer sua unidade e o sentimento de existência”, explica. 

Se ocorre a ruptura dessas condições, a possibilidade de confiar está em risco. “É necessário, então, que haja em algum momento a chance de podermos viver a experiência de estabilidade para que a confiança surja. Isso pode se dar, por exemplo, por meio de um processo psicoterapêutico ou em relações que ofereçam a possibilidade de criá-la ou reavê-la.”

Confiar na vida é um grande anarquismo

A psicanalista lembra ainda que os aspectos da sobrevivência, como emprego, comida, também são fundamentais para a sensação de segurança ser criada. “Vivemos um momento em que as condições sociais e políticas passam por períodos de instabilidade, o que nos traz o sentimento de quebra da confiança no mundo e na vida. Não sabemos se teremos como garantir nossas vidas e nossa sobrevivência e a sobrevivência daqueles que dependem de nós”, reflete.

A freira-missionária Marialva Oliveira da Costa, acostumada a caminhar e a lutar há mais de 30 anos ao lado das pessoas marginalizadas, diz que, participar de grupos, formar uma rede de laços fortes e com ajuda mútua, são poderosos antídotos contra o medo e nos ajuda a confiar na vida. 

Na década de 1980, quando Rondônia se constituiu um estado, ela foi enviada pela sua congregação para ajudar a comunidade que se formava e trabalhar como coordenadora de saúde do Instituto Padre Ezequiel Ramin – que atua nos campos da agroecologia, saúde popular integrativa, direitos humanos e implementação de políticas públicas.

“Nessa época, comecei a compreender mais claramente que, quando caminhamos juntos, um dá força para o outro e tudo fica mais leve. Muda, inclusive, a percepção negativa que temos dos acontecimentos, o que acaba por alimentar a fé na vida, apesar das injustiças.”

Agradecer também ajuda

Quando viveu em Angola na década de 1990 prestando auxílio à população que vinha sofrendo com a longa Guerra Civil, o entendimento, então, foi outro. “Lá, o que mais me dava forças era ver a capacidade que aquelas pessoas tinham de encarar o sofrimento com o sorriso nos lábios, agradecendo todos os dias por estarem vivos.”

Atualmente, Marialva vive no Pará, coordenando o Projeto Beth Bruno, que trabalha com os povos indígenas, ribeirinhos e da periferia formando agentes de saúde nas Práticas Integrativas e Complementares (PICs) e em agroecologia. “Em meio a tanto desmatamento e sofrimento, é também onde eu encontro pessoas mais livres, leves e alegres. Gente que acredita na vida, que dança. Por quê? Porque são simples, não têm grandes ganâncias e sabem viver um dia de cada vez.” 

A irmã missionária acredita que esse saber viver um dia de cada vez, sem ter medo do futuro, do que está por vir, pede o fortalecimento constante da fé. “Haverá imprevistos e precisamos continuar confiando na vida, porque as nossas conquistas não dependem só de nós. Existe uma força maior que nos guia.”

Apesar dos pesares, continue tocando o barco

Para o zen-budismo, desejar, ter projetos e responsabilizar-se por eles é imprescindível. Observar as variantes que podem dar certo ou não também faz parte do planejamento quando se quer alcançar algo. Somente assim os sonhos são realizados. Porém, faz-se necessário compreender: é impossível controlar tudo. Confiar na vida é, também, isso.

“Existem causas e condições para que as coisas aconteçam e essa lei é muito além do meu querer pessoal. ‘Eu gostaria que isso acontecesse comigo’. Se acontecer ótimo, se não acontecer, também ótimo, eu sigo. Esse é o caminho que o budismo nos ensina”, explica a monja zen Waho Degenszajn. 

De acordo com Waho, o que faz a diferença em como as dificuldades são sentidas e encaradas é a forma como se olha para aquela experiência. “A mestra zen Shundo Aoyama diz que podemos olhar para uma rosa e dizer: ‘Que rosa bonita, mas ela tem espinhos!’ Ou também podemos dizer: ‘Essa rosa tem espinhos, mas como ela é bonita!’”

Afinal, tudo é transitório

Pois todo esse jogo de cintura vai de encontro a um dos principais ensinamentos de Buda sobre a transitoriedade e impermanência de todas as coisas. “A alegria e a tristeza, ambas passam, você querendo ou não. Se eu não reter pensamentos, ideias fixas, a vida segue seu rumo e eu posso fluir com tudo o que existe. Mas se eu insistir em segurar algo, vou deixar que a vida me escape”, ensina ela.

Afinal, a vida tem seus próprios movimentos…

Para ganhar confiança na vida

Reflexões e atitudes que podem inspirar você em sua caminhada

  • Se confiar é uma grande dificuldade devido às experiências da primeira infância, um processo terapêutico pode ser bem valioso.
  • Experimente participar de grupos que tenham a ver com você ou construa uma rede de amigos onde a solidariedade prevaleça.
  • Procure cultivar o sentimento de gratidão simplesmente por existir, por ser vida.
  • Recordar-se constantemente que somos finitos é essencial para olhar para a vida com alegria, apesar das dificuldades. Nada vai durar para sempre.
  • Encontrar uma fé que seja somente sua – seja ela em uma divindade ou em uma energia de amor – pode ser um bálsamo contra o medo da vida ou do futuro.
  • Lutar e responsabilizar-se pelos seus sonhos e desejos é primordial. Mas nunca temos o controle de tudo. 
  • Nos momentos difíceis, lembre-se que a vida é dinâmica, tem altos e baixos. Vai passar. 
  • Vale a pena desenvolver o olhar positivo mesmo diante dos percalços. Muitas lições podem ser tiradas e servem de combustível para continuar a caminhada. 
  • Se as coisas não saírem do jeito que planejou, podemos tentar outros caminhos. A vida é repleta de experiências.