O que é Preciso para um Novo Ano

É tempo de repensar atitudes e hábitos e ver neste novo ciclo uma oportunidade para viver melhor e cuidar do mundo
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27.12.2019

Em uma breve “Carta de amor para um mundo que pode ou não merecê-la”, o rabino Harold Kushner declara que escolheu amar o mundo. Em parte, porque é o único do qual faz parte, em parte porque amar o mundo é um favor que ele faz a si mesmo – “assim fica mais fácil ser grato pelo hoje e esperançoso pelo amanhã”, escreve. 

Incluída no final do livro As Nove Lições Essenciais que Aprendi sobre a Vida (editora Best Seller), a mensagem do célebre rabino americano é praticamente uma renovação de contrato com a existência. Mas, nessa época do ano, pode servir também como inspiração para fazermos as pazes com o que passou e começarmos a vislumbrar o próximo ano com mais gentileza.  

 “Nós, como a natureza, somos movidos a ciclos e iremos sempre buscar um recomeço”, diz a psicóloga Myrian Bove Fernandes, coordenadora do Instituto Gestalt de São Paulo. 

A necessidade de recomeçar

Como testemunhos de que a vida está acontecendo, os ciclos carregam em si uma nova chance para um novo ano. Para acertar o que não deu certo. Para não desperdiçar o que realmente importa. 

Daí as pessoas se sentirem ainda mais responsáveis pelo que desejam neste período. 

“Recomeços podem acontecer a qualquer hora, basta a pessoa se dar conta de que esta energia está disponível dentro dela. A delicadeza do momento é que há uma consciência universal envolvida no mesmo objetivo”, observa Myrian. “Isso promove um congraçamento, uma sensação de pertencimento e uma espiritualidade ainda mais fortes, abrindo brecha para as reflexões e esperanças”, diz a especialista.

Vale a pena cultivar

Ainda que sem festa, quieto e calmo, todo reinício pode conter uma centelha de bondade, criatividade e compaixão. 

Para se alinhar com esse propósito, Myrian sugere pensar em uma aliança entre a revisão do ano que se foi e os planos para o futuro. 

“A revisão é para nos apropriarmos de quais são as nossas necessidades e desejos. O que deu certo, o que foi ruim, o que posso fazer diferente? É uma revisão crítica importante, sem a qual seguiremos desgovernados”, analisa.

Já os projetos podem ser representados por aquilo que você quer levar para 2020.  E, neste sentido, uma boa dose de otimismo é recomendada.

Otimismo para um novo ano

“Não aquele otimismo que nega conflitos, mas aquele que vê nos problemas uma oportunidade de superação. Hoje, por estarmos vivendo em um contexto de muita inovação, os desentendimentos tendem a se acirrar porque inovações motivam questionamentos. E questionamentos trazem angústia”, explica a psicóloga. E acrescenta: “Às vezes, o conflito fica voltando para pedir uma solução. Como feridas que precisam de cuidado.”

Ainda falando de otimismo, outro partidário de peso do tema é o psicólogo e linguista canadense naturalizado americano Steve Pinker. Em sua obra mais recente, O Novo Iluminismo (ed. Companhia das Letras), o teórico embasa com muita ciência a importância de ver o lado bom das coisas. E assevera que o otimismo precisa de um defesa entusiasmada nos dias atuais justamente para lembrarmos do que de bom aconteceu com a humanidade até aqui. Segundo Pinker, “A História diz que as tentativas para melhorar o mundo podem dar certo. Não são inúteis. Não são perda de tempo, utopia, nem nada românticas.” 

Aliás, como espécie, só sobrevivemos porque nos unimos. E aí está mais uma semente para regar e fazer crescer neste e nos próximos anos: cultivar amizades, engajamento e colaboração. “Dizem que os girassóis sempre buscam o Sol, mas, quando não há Sol, eles se voltam uns para os outros”, lembra Myrian.

Cuidar do outro

Há quem sustente que não existe melhor maneira de se sentir bem do que cuidando de alguém. Ou que melhor do que ser amado é ser capaz de amar. 

O filósofo Luiz Felipe Pondé disse certa vez que “os melhores dias das nossas vidas não são aqueles em que lambemos as nossas feridas. Mas aqueles em que estamos envolvidos e ocupados com outras pessoas”. Talvez porque deixamos o narcisismo de lado. 

Santo Agostinho disse mais: “Se você quer ser livre, ame”. Porque isso liberta você de você mesmo.

Quem cuida de si mesmo, cuida do entorno

Para a psicóloga e psicoterapeuta Denise Caldeira, da capital paulista, como tudo está intimamente ligado, um novo ano para uma pessoa melhor é um ano novo para um planeta melhor. “O modo como a gente cuida da gente, a gente cuida do mundo, seja o social, seja o ético”, afirma.

Para essa interseção acontecer, no entanto, ela aconselha pedir uma ajudinha ao silêncio. “O silêncio é como a tranquilidade que se estabelece depois que você pára de balançar uma bacia cheia d’água. As águas continuam agitadas por um tempo, mas, aos poucos, se acalmam. É disso que estou falando. Apenas quando alcançamos essa calma interior é que é possível enxergar o profundo de si mesmo”, observa ela. 

“É aí que está sua base, seus valores. Para projetar algo novo e bom e trabalhar para fazê-lo acontecer, você precisa, antes de mais nada, dessa imagem bem definida”, enfatiza.

Cuide do seu corpo, do que você come, do que você ouve. Cuide da sua respiração. Perceba se sente leve ou sobrecarregado. Ao fazer bem para si mesmo, no seu próprio corpo, você estará pronto e sensibilizado para perceber a cidade, as ruas, os rios e não vai querer intoxicá-los. “É como se o bem reverberasse”, diz Denise.

Um novo acordo com o planeta

Incluir, a qualquer hora do final, do meio ou do começo do ano, um olhar mais consciente para o coletivo e para a natureza é a coroação do processo. 

Vale fazer algo pelo social. Se quiser descobrir, por exemplo, uma maneira de contribuir como voluntário, pesquise a plataforma atados.com. Eles atuam na região metropolitana de São Paulo (SP), Grande Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF) e Grande Florianópolis (SC). E no Brasil inteiro com vagas de trabalho voluntário remoto – é possível escolher o tipo de voluntariado a partir do que você conhece e das horas que têm disponíveis.

Com relação à natureza, a WWF-Brasil, uma organização da sociedade civil brasileira sem fins lucrativos e apartidária, que trabalha para mudar a atual trajetória de degradação ambiental, estabeleceu um novo acordo para as pessoas e para o planeta. Em suma, é necessário reverter a perda de biodiversidade para garantir o futuro da humanidade. Como você contribui? Freando o consumo, conservando os espaços naturais, escolhendo bem o seu voto, não desperdiçando alimentos, reciclando, reduzindo, reutilizando o que puder. 

Pode não ser fácil agora, mas vale o esforço para merecer um querido 2020. Como Carlos Drummond de Andrade poetizou: “Tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. ▲

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