A Importância dos Rituais como Celebrações

Pequenos ou grandes, eles marcam nossa trajetória e nos lembram de comemorar a vida
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18.12.2019

Há momentos da vida que sinalizam a passagem de um ponto “a” para um ponto “b”. Mesmo que não tenhamos consciência, na hora, da importância do fato, algo dentro de nós percebe que cruzamos uma fronteira e as coisas não são mais como antes. O nascimento, a puberdade, o casamento, a menopausa ou a andropausa são alguns exemplos dessas passagens definitivas.

Tempos atrás, quando a humanidade tinha uma relação mais íntima com o Planeta, os animais e as energias sutis, esses momentos eram celebrados com rigor. Os rituais de passagem ou iniciação era uma forma de acentuar: ‘hei, isso é valioso, preste atenção’.  

Chamava-se, então, a comunidade para compartilhar o ensejo. Os mais experientes conduziam a cerimônia e transmitiam as lições e valores do grupo. Havia ainda um aspecto crucial do ritual: a pessoa em questão tinha que passar por uma prova que confirmaria sua mudança de status. 

Ritual como ato simbólico

“Esse ato simbólico reconhecia uma transformação que já estava em andamento”, assinala a psicanalista e terapeuta corporal Kika Lourenço, de São Paulo. “E dava sentido a ela”, acrescenta.

Fosse a passagem da infância para a vida adulta, do estado de solteiro para o de casado, fosse a chegada da velhice, tudo merecia ser ritualizado. “Era uma forma de acompanhar a pessoa nessa travessia. E de ajudá-la a dar conta daquilo que acontecia e era assustador”, esclarece a psicanalista. “Ou você acha que é simples para os meninos e para as meninas na puberdade descobrirem que ‘agora estão prontos para mudar de status na sociedade e que a comunidade conta com eles?’”.

“Como toda transição, há um susto porque se está entrando em contato com uma energia que ainda é maior do que você”, complementa Monika Von koss, psicoterapeuta também de São Paulo. Assim, a chegada ao climatério ou à andropausa é igualmente desafiadora. “Sem olhar para esse momento com atenção e sem honrar o caminho que se percorreu até aqui a pessoa pode ficar apenas com o sentimento de perda.”

Por isso resgatar o ritual é importante. Ele ajuda a tirar a gente da angústia da vida.

Atravessando o portal

Segundo a mitologia, o “herói” (na verdade, o ser humano cotidiano) chega todo arranhado ao final da história, mas sempre encontra a sua pérola.  Ele só faz a transição do ponto “a” para o ponto “b”, atravessa o portal, mata a fera, porque percorreu um caminho cheio de aventuras.

A descoberta – e o reconhecimento – dessa trajetória são os melhores aliados.

 “Sendo  assim, uma festa de 15 anos deixa pode ser apenas um número. Ou pode prevalecer o sentimento de que essa criança agora mudou de estágio, entrou no mundo adulto, amadureceu. E será apoiada por outras mulheres pelo seu valor de mulher”, exemplifica Monika.

Com a mulher e o homem maduros, o futuro ganha outra conotação. Principalmente se, ao invés das perdas, associarmos a eles a imagem de anciões ou guardiões do saber. “Não o saber das informações, mas o saber do acolhimento. Isso nenhum Google dá”, enfatiza Monika.

É com esse renascimento espiritual a cada etapa da jornada humana que o ritual verdadeiro sintoniza. Para quem tem dúvidas, Kika traz uma passagem do livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, como inspiração para seguir sem medo e abraçar nossas aventuras mais difíceis, às vezes, aparentemente sem saída. “O labirinto é totalmente conhecido, temos apenas que seguir as pegadas do herói. E onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos um Deus. E onde pensávamos  matar alguém , nós nos mataremos. E onde pensávamos viajar para fora, chegaremos ao centro de nossa existência e onde pensávamos estar a sós, estaremos com o mundo inteiro.”

Para o Natal

Aqueles que se angustiam nessa data podem se confortar com uma história que já está praticamente esquecida. 

“A origem das nossas festas têm profunda relação com eventos naturais e motivos sagrados que se perderam. Jesus de Nazaré não nasceu no dia 25 de dezembro. Os cristãos escolheram a data porque, no hemisfério norte, o 25 de dezembro marca o solstício de inverno, dia em que o Sol começa a sua subida. Isso significa que a partir daí os dias do ano são mais longos, e as pessoas se reuniam para celebrar o nascimento da luz. Nada mais adequado para representar Jesus”, explica Monika.

“Acontece que aqui no hemisfério sul, o 25 de dezembro marca o Solstício de verão, dia em que o Sol tem a maior declinação. Não seria à toa, portanto, que um sentimento melancólico se abate-se por aqui”, diz a psicoterapeuta. “Para o ápice da alegria por aqui, melhor seria o 24 de junho, que, curiosamente – ou não – coincide com a festa de São João”.

Não, ninguém está dizendo que o Natal será triste. Mas que há mais sutilezas nas celebrações do que imaginamos com nossas mentes ocidentais dos anos 2019-2020. Honrar esses momentos, com ou sem vela, com incenso ou sem, parece o mais indicado. E esqueça o ego, o que veste, o que vai servir para comer ou beber, um bom ritual que se preze tem mesmo a ver é com a alma. ▲

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