O Que as Coincidências Querem te Contar

Aprender a interpretar as sincronicidades traz mais compreensão de si, do seu inconsciente e dos sinais que a vida dá

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Já fazia algum tempo que João Renato vinha tratando na terapia os resquícios de uma antiga relação, que ainda o mantinha ligado à ex-esposa. Há muitos anos eles não se viam e nem se falavam.

De férias, fez uma viagem e passou pelo lugar onde se conheceram e começaram a namorar. Minutos depois, recebe uma mensagem no celular da ex-mulher, acertando contas com o passado. O que fez com que esse acaso acontecesse?

Em diversos momentos da vida, as sincronicidades parecem acontecer para todas as pessoas, causando espanto, trazendo respostas, servindo como gatilho para mudanças e curas, além de trazer à tona emoções e sentimentos.

No livro Diário das Coincidências (ed. Alfaguara), o autor João Anzanello Carrascoza escreve 36 contos em homenagem a diversas situações, em que esses eventos lhe impactaram fortemente, aguçando a essa percepção de que são momentos que a lógica não dá conta de explicar. 

Tudo está naturalmente conectado

Carl Gustav Jung (1875-1961), fundador da Psicologia Analítica, estudou a fundo esse tema na obra Sincronicidade (ed. Vozes) e concluiu que há um padrão simbólico capaz de ativar encontros significativos.

“Ele denominou esses momentos de ‘atos criativos no tempo’ e estudou uma dimensão arquetípica denominada Unus Mundus. Um nome belo, que revela a profunda dimensão onde tudo está conectado e reage a campos de energia, um grande ecossistema: do nível mineral ao psicoespiritual. Desse nível arquetípico, se origina o princípio de sincronicidade, momento único que nos provoca insights e revelações”, explica Elisabete Sofia Lepera, psicoterapeuta junguiana e autora do livro Sincronicidade: O Tempo de Kairós na Psicoterapia (ed. Vetor).

Uma das singularidades desses acontecimentos mora no fato de não poder ser apreendido pela consciência, pois não tem uma explicação lógica, tangível, racional.

“Para a ciência tradicional (antes da quântica), tudo tem causa e efeito. Porém, percebemos que muitos fenômenos e coincidências significativas não se encaixam nessas leis”, avalia Ana Roxo, filósofa, terapeuta junguiana e terapeuta floral. 

“A sincronicidade, por ser acausal, atemporal e aespacial, rompe com as categorias da consciência e se realiza através do inconsciente, onde espaço e tempo são relativos e não lógicos ou absolutos”, complementa. 

O Deus Kairós, retratado em afresco do século XVI por Francesco Salviati / Foto: Wikpedia

A sincronicidade conecta o mundo de fora e o de dentro

Justamente por ser inconsciente, muitas vezes, as coincidências são difíceis de ser entendidas no momento em que ocorrem. Porém, quem está atento ao seu mundo interno tem mais chances de compreender o significado daquelas ocorrências e o caminho ou as respostas que elas querem trazer para a vida de cada um.

“As realidades interna e externa se entrelaçam continuamente. Uma é causa e consequência da outra. Quanto mais separados nos sentimos da realidade interna, mais fechados estaremos para perceber as mensagens sutis que ela nos envia”, avalia Bel Cesar, psicóloga do budismo tibetano.

As sincronicidades chamam para uma realidade sutil

Ainda de acordo com Bel, também perdemos a capacidade de perceber esse entrelaçamento quando vivemos desconectados uns dos outros, impulsionados por atitudes ego-centradas, sem entender que somos parte de um todo. “Isso faz com que vejamos o mundo e as pessoas como separados de nós. E as excessivas intelectualizações atrapalham a identificar e interpretar as sincronicidades, pois ficamos mais distantes da realidade sutil.”

Segundo Ana, as artes, a mitologia, as fábulas, a meditação e a ioga são algumas das atividades que ajudam a sair da visão excessivamente concreta e lógica e nos aproximam dessa percepção mais sensível do mundo.

“Se dermos importância às sincronicidades, à vida simbólica que a nossa psique nos mune, provavelmente seremos indivíduos mais equilibrados para alcançar a nossa singularidade, que é a realização máxima das nossas potencialidades”, observa.

Meditação para reconhecer as sincronicidades

A psicoterapeuta junguiana Elisabete Sofia Lepera explica que para perceber as sincronicidades é preciso se conectar com a intuição e fazer perguntas à própria vida em busca de revelações. Um caminho indicado por ela é colocar em prática a seguinte meditação:

  • Sinta seu coração, respire fundo e faça perguntas ao deus Kairós – o deus do instante que precisamos agarrar porque passa muito rápido – sobre os temas que está vivendo.
  • Observe as imagens e sentimentos que surgem. Sinta o deus Kairós soprando sementes de possibilidades.
  • Observe que tudo tem seu tempo; sinta-se aberto no agora, sem julgar.
  • Observe a estação da alma que você está e a conexão com tudo a sua volta. Nessa abertura intuitiva, veja as sincronicidades.
As sincronicidades subvertem a racionalidade do mundo concreto e nos convidam a olhar para os sinais que a vida dá. Foto: The Public Domain Review

Assim, se abrimos um canal de escuta com o mundo e aceitamos que a vida é um emaranhado de situações sutis, onde tudo está interligado, podemos perceber que as coincidências são, afinal, uma ferramenta valiosa para interpretações mais sensíveis da realidade.

Colocar reparo nessas sincronicidades pode abrir um caminho que, a princípio, parece ser da ordem do mágico ou irreal. Mas, aos poucos, tudo se torna apenas o jeito natural de ler as mensagens da vida. ▲