O Caminho da Presença

Despertar esse estado de consciência acalma a mente, ajuda na tomada de decisões e a desfrutar do agora, verdadeiramente

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Existe um tipo de música que você só consegue ouvir se estiver em um local específico e pré-definido. O projeto é de dois irmãos norte-americanos, Ryan e Hays Holladay, que criaram um conceito atrelado de som e paisagem. Fizeram um álbum musical e um aplicativo que usa o GPS embutido nos aparelhos celulares para mapear, sonicamente, uma região. Apenas quem faz o download do app e entra nessa área geográfica – o Central Park, de Nova York, ou The National Mall, de Washington, – tem acesso à sinfonia composta. 

A música dos irmãos Holladay exige a presença física do ouvinte para acontecer. Da mesma forma, para sintonizar com os nossos próprios sentimentos, crenças, valores e pensamentos, também é preciso um estado de presença. 

Mas, diferentemente da vivência sonora dos Holladay, não é preciso ir a lugar algum para estabelecer a conexão. O único deslocamento que você precisa fazer é para o interior de si mesmo. Lá está, digamos, o estado de presença maior.

O despertar da presença

Nos estudos de religião, a ideia da presença ou despertar traz uma ligação com o sagrado.

 “Há um sentimento de plenitude, de pertencimento a algo maior. Se for um cristão, ele poderá dizer que, neste momento, se dá a manifestação de Deus. Um hindu dirá que sente a presença de Brahma, criador de tudo que existe no universo. Quem tem uma visão holística fala de uma interligação com o Cosmos”, afirma o antropólogo Silas Guerriero, professor do Programa de Pós-Graduação da Ciência da Religião da PUC-SP.  

Cada cultura vai transmitir esse sentimento de um jeito. Mas não há dúvidas de que ele acontece. 

Segundo Guerriero, o sentimento de que há algo superior que nos toca e desperta ou de que há uma integridade absoluta com o todo que nos dá mais força e poder tem raízes muito profundas e ajudou nossos ancestrais, os primeiros hominídeos, a sobreviver.

“É que esse sentimento faz as pessoas se sentirem conectadas à natureza e aos demais seres e fortalece a cooperação entre elas, inclusive como forma de defesa”, detalha ele.

Sensação do sublime

Pode chamar de encontro com o divino, iluminação, descoberta ou autoconhecimento. O ponto que une todas essas concepções de presença é um desabrochar de amor. Uma chance de tanger – e fazer transbordar – o eu espiritual. 

A imensidão da natureza, o som de um instrumento ou até a arte podem ser formas de acessar esse conteúdo de espiritualidade, que habita cada um de nós.

Atenção plena

Para outras pessoas, essa presença pode ser definida, ainda, como um estado de atenção ou consciência plena. Pois permite ajustar os sentidos e tirar o véu que confunde os nossos pensamentos e sentimentos. 

 “Estar presente é cultivar a atenção em tudo que eu faço. E, indo mais além, é não apenas trazer a minha mente para o momento presente, mas tentar me abrir para a realidade como ela se apresenta.

É me relacionar com o instante do jeito que ele é – com abertura, curiosidade e sem julgamento”, define Moira Malzoni, co-fundadora do estúdio de meditação Moved By Mindfulness, em São Paulo e professora afiliada do curso de Mindful Awareness Practices for Living da Universidade da Califórnia, EUA. 

“Muitas vezes a gente quer mudar as coisas, sente que só vai ser feliz no final de semana. Então, deixa o presente para depois. Precisamos perceber quando a mente foge do momento presente e, gentilmente, trazê-la de volta”, nos aconselha. Assim não há desgaste. Ao contrário, a mente se acalma, as emoções se regulam e a criatividade se expande.

Como cultivar o estado de presença

Perceber o desequilíbrio – quando nos distraímos – e escolher ficar mais no aqui e agora é um exercício diário. Selecionamos aqui duas formas simples de começar:

No livro Atenção Plena – Mindfulness – Como  Encontrar a Paz em um Mundo Frenético (Ed. Sextante), Mark Williams, professor de psicologia clínica na Universidade de Oxford, sugere um treino de meditação, que nos encoraja a sair do piloto automático, desenvolver a consciência plena e fazer melhores escolhas:

1. Sente-se numa postura confortável, tentando deixar a coluna ereta e as pernas livres de tensão. Feche os olhos.

2. Concentre a atenção em sua respiração. Perceba o ar fluindo para dentro e para fora de seu corpo a cada inspiração e expiração.

3. Após alguns instantes, talvez sua mente comece a divagar. Ao se dar conta disso traga sua atenção de volta à respiração, suavemente. O ato de perceber que sua mente se dispersou e trazê-la de volta, sem criticar a si mesmo, é central para a prática da atenção plena.

4. Sua mente poderá ficar tranquila como um lago – ou não. Ainda que você obtenha uma sensação de absoluta paz, poderá ser apenas fugaz. Caso sinta irritação ou tédio perceba que essa sensação também é fugaz. Seja lá o que aconteça, permita que seja como é.

5. Após um breve período, que pode ser equivalente a um minuto, abra os olhos devagar e observe o local onde está.


Moira Malzoni, do Moved by Mindfulness, em São Paulo, além de cursos de meditação guiada, ensina o exercício da presença em situações mais corriqueiras, como ao comer, caminhar ou durante uma conversa. Baseados neste princípio, elaboramos uma forma de atenção plena focada na exploração cautelosa dos sentidos – um de cada vez: 

Visão
pratique a contemplação. Observe detalhadamente as pessoas, paisagens e objetos para que seu olhar fique cada vez mais aguçado.

Paladar
mastigue cada bocado de alimento sem pressa, como se a refeição fosse um ritual. De olhos fechados, tente distinguir os ingredientes e sabores do prato.

Olfato
feche os olhos e procure identificar as nuances e sutilezas dos diferentes aromas – ácidos, cítricos ou doces – presentes em comidas, ervas, perfumes, óleos essenciais…

Audição
de olhos fechados, investigue os sons a sua volta, até mesmo dos pequenos ruídos. Se estiver ouvindo música, procure identificar os instrumentos que a compõem.

Tato
perceba as texturas e temperaturas dos objetos ao seu redor, sinta a maciez dos tecidos, explore os carinhos, as carícias, os cafunés.

Quanto tempo você vai levar para atingir esse sentimento de conexão consigo mesmo?
O tempo que for necessário. Leve em conta o que disse o filósofo espanhol José Ortega Y Gasset: “Caminhe devagar, não se apresse. O único lugar aonde você precisa chegar é a si mesmo”.


Baixe o pôster, viva no presente

Para cultivar o estado de presença no seu dia a dia, compartilhamos dicas valiosas para você ter sempre à mão. Cole na agenda, tenha salvo no celular, busque praticar com frequência. Estar no agora é o nosso convite

Baixe esses exercícios, compartilhe com seus amigos e, sobretudo, seja gentil consigo mesmo. Este pôster é um lembrete para seguir no seu caminho

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