A Viagem do Peregrino

Para peregrinar, mais importante que o destino é a vontade do viajante em se renovar. Afinal, o ponto de chegada é mesmo dentro de cada um
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04.12.2019

Observar paisagens como um peregrino é enxergar com o olho do espírito. O peregrino não está buscando descanso ou prazeres da recreação. Persegue um lugar sagrado, dentro de si mesmo. Para o processo acontecer, todavia, é preciso estar aberto, preparado. Essa viagem requer um tipo especial de sabedoria.

Como todo chamado espiritual, a peregrinação é uma jornada da alma, que quer se maravilhar. Resiste à força que o arrasta para as experiências deste mundo, amparadas nos sentidos. Por ser um chamado, chega como uma inspiração. Um desejo irresistível de beber naquela fonte. Por isso, a viagem do peregrino é aceitar o desafio de revelar-se a si mesmo.

O mundo que percebemos é um cenário sempre mutável, como um caleidoscópio, que brinca com a realidade. Os indianos têm um nome para isso: maya, que quer dizer ilusão. Viajar como peregrino faz bem também para a mente, pois exercemos a Presença, o poder de ficar totalmente imersos no momento. Uma oportunidade de encontrar respostas a perguntas que nem sabemos nos fazer. 

Por que decidimos nos embrenhar num deserto? Ou repetir o caminho árduo em que peregrinos se jogam há séculos? Há sempre um lugar em que queremos chegar, que vai se revelando aos poucos, cheio de pudor. É preciso mergulhar naquelas formas e captar o que nos atrai lá mesmo, mas bem por trás. No fundo, buscam-se os mistérios da vida, a experiência autêntica, de algum lugar.

O caminho é a viagem

A viagem do peregrino é um exercício espiritual, uma jornada de renovação. O destino não precisa ser necessariamente sagrado. Basta que haja o propósito de encontrar algo de profunda importância para o viajante. Por isso, foco, atenção, voltados para a trilha, sob nossos pés, e respeito pelo destino da caminhada, podem transformar uma viagem comum numa via sagrada.

No livro A arte da peregrinação (Ed. Agora), Phil Cosineau nos ensina: o quê mais importa na jornada do peregrino é quão profundamente você pode ver, quão interiormente pode ouvir, quão proveitosamente podem ser travadas essas pelejas em seu coração e sua alma”.

Cinco destinos para peregrinar

Dizem que o caminho faz o caminhante e não o contrário. Nas rotas a seguir, essa verdade ecoa no corpo e na alma do peregrino

Monte Kailash – Tibete, China

Foto: Jing Wang / Pixabay

Quatro religiões concordam num ponto: O Monte Kailash é uma montanha sagrada. Morada do deus Shiva e de sua esposa Parvati, para os hindus; centro do universo, segundo os budistas; lugar santo, aos olhos dos jainistas e bönpos (religião tradicional do Tibete anterior ao budismo). Uma tradição antiquíssima leva milhares de peregrinos a circundar o Monte Kailash a pé, num ritual que traz boa sorte. Há quem percorra os 52 Km em um único dia. O fato de a montanha abrigar a nascente de quatro dos maiores rios da Ásia – Ganges, Bramaputra, Indo e Sutlej – nos ajuda a compreender o porquê de tanta devoção.

Varanasi – Índia

Foto: Marcin Białek / Wikicommons

Os rituais matutinos às margens do Rio Ganges remontam à origem mítica de Varanasi, localizada no nordeste da Índia. Segundo os hindus, ela teria sido fundada por Shiva. Por isso, é uma das sete cidades sagradas do hinduísmo e uma das mais antigas do planeta permanentemente habitadas.

Bem cedinho, as águas sagradas atraem fiéis em oração, meditantes, praticantes de yoga, devotos com suas oferendas, como também corpos em cremação e lavadores de roupas. Forma-se ali um polo de veneração aos mistérios da espiritualidade, da vida e da morte. Os buscadores, por isso, são atraídos por esse magnetismo, que faz da Índia um portal para a comunhão com o divino.

Caminho de Santiago de Compostela – Espanha

Foto: Pxhere

Quem percorre o famoso caminho espanhol costuma retornar para casa com importantes revelações na mochila. Acredita-se que na cidadezinha galega, situada no noroeste da Espanha, ponto final da peregrinação, jazem os restos mortais do apóstolo Tiago. 

Contudo, chegar lá não é o mais importante e sim manter-se atento aos sinais do trajeto, como é em essência a viagem do peregrino. Dizem que eles são gatilhos para insights sobre a vida do buscador espiritual que se dispõe a percorrer uma das muitas rotas que desembocam na catedral de Santiago. A mais famosa, chamada de Caminho Francês, tem 775 Km e solicita do peregrino cerca de 35 dias de valentes caminhadas.

Trilha Inca – Peru

Seguir o rastro deixado por um povo à frente de seu tempo, sentindo sob os pés a força de Pacha Mama – deidade máxima dos povos andinos -, é um convite que fascina peregrinos do mundo todo. A Trilha Inca conecta o Vale Sagrado a Machu Picchu, misteriosa cidadela de pedra, descoberta em 1911. O roteiro mais longo contempla 43 Km, parcelados em 4 dias de andanças. Quando finalmente o viajante se acomoda para contemplar as ruínas desenhadas nas alturas, cada pegada que o levou até ali se enche de sentido. 

Caminho da Fé – Aparecida do Norte

A Padroeira do Brasil, razão de existir do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, aliás, move multidões que chegam de vários pontos do país. Nos moldes do Caminho de Santiago de Compostela, o Caminho da Fé na viagem do peregrino parte de 17 cidades paulistas e mineiras – o trajeto mais longo tem 742 Km; o mais curto, 134 km. Promessas, súplicas, agradecimentos, as mais fundas motivações fazem os peregrinos avançarem a despeito do cansaço e das intempéries. A fé vai na frente, abençoando o caminho que leva ao colo da Mãe. ▲

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